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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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A Contradição de Belém: Catarina Martins e o Mito da Neutralidade

José Aníbal Marinho Gomes, 16.11.25

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A entrevista de Catarina Martins à SIC-Notícias foi uma demonstração acabada daquilo que a República produz no seu estado mais pobre: um Chefe de Estado visto como agitador político, um presidente-activista ao serviço de uma facção ideológica.

Catarina Martins apresentou a sua candidatura repetindo que “é pessoal” e que quer “convergências”, “lugar para toda a gente”, “ponte entre caminhos políticos diferentes”. Mas não pode exigir que se acredite nessa narrativa quando continua eurodeputada do Bloco de Esquerda, com direito a todas as prerrogativas partidárias, orçamento, visibilidade institucional e máquina propagandística do partido. Não abdica de nada — apenas quer acumular tudo.

Faz carreira partidária de manhã em Bruxelas e promete neutralidade à noite na televisão. Esses dois planos não convivem. Só coexistem como contradição. O país conhece-a demasiado bem como militante bloquista — e ela sabe isso. Por isso insiste na ficção: repetir que algo é pessoal nunca fará desse algo independente.

Quando questionada sobre a luta política à esquerda, Catarina Martins volta a colocar-se como a porta-voz legítima do campo progressista: os outros “fazem jogos tácticos”, “desistem do país”, “deixam crescer a extrema-direita”. Ela, não. Ela é a “decência”, a “coragem”, a “democracia”. Quando uma candidata se veste de moral absoluta, está a dividir — mesmo quando proclama união.

E é aqui que a sua visão republicana se revela infantil, primária — não no sentido ofensivo, mas na sua falta de maturidade institucional. Ela acredita que a República existe para travar partidos com que discorda, para impor uma matriz ética sobre o Parlamento, para vigiar o Governo com punições políticas e, se necessário, bloquear maiorias legítimas. Aliás, afirma sem hesitações que “qualquer maioria possível trabalharei para que não inclua o Chega”, prometendo impedir um governo, ainda que resultante do voto popular.

Aqui está o problema central: A democracia, para Catarina Martins, é aceitável… desde que vote na esquerda. É a eterna tentação da República portuguesa: transformar Belém num bastião partidário.

É precisamente para evitar isto que, nas Monarquias Constitucionais modernas, o Chefe de Estado não pode ser parte das facções — porque representa a Nação inteira. A Monarquia diz: o poder político dispute-se nos partidos; a Chefia de Estado é o lugar da unidade, da história, da continuidade e da estabilidade.

Enquanto na República se pede ao Presidente para ser árbitro… depois de ter sido jogador. A Monarquia resolve o absurdo: O árbitro nasce árbitro.

A República portuguesa está viciada na personalização do poder — troca-se de Presidente, troca-se a moral. A cada eleição, uma nova “salvação”, uma nova “decência”, um novo “guardião”. Catarina Martins quer ser guardiã da Constituição… mas com alvos ideológicos específicos. O Presidente-activista é o pior dos mundos: legitima-se no voto e exerce influência como se fosse acima do voto.

Já um monarca constitucional não governa: vigia o funcionamento das instituições; não se candidata, não disputa poder contra ninguém, não precisa de derrotar adversários para ser símbolo nacional.

Numa República angustiada com crises cíclicas, dissoluções políticas e confrontos permanentes, o papel unificador do Chefe de Estado é vital — e, paradoxalmente, impossível de alcançar sob as regras da própria República, porque quem lá chega precisou dividir para vencer.

Na monarquia: Não há conversões forçadas à imparcialidade. Não há simulacros de independência partidária. Não há Presidente-militante. Há um símbolo estável e duradouro que não está sujeito à erosão moral dos ciclos eleitorais.

Catarina Martins é sincera ao afirmar que “Portugal não é um país do ódio, é um país da solidariedade e respeito”. Está correcta na frase — mas falha no entendimento institucional. O eleitorado precisa de uma Chefia de Estado que encarne essa ideia sem ter de a disputar. Que represente o País sem precisar de excluir quem vota diferente.

Se a República — como Catarina idealiza — depende sempre de uma presidência política para “defender a democracia”, então é um regime estruturalmente frágil. A Monarquia Constitucional oferece, pelo contrário, um regime em que a democracia parlamentar funciona sem um Presidente a fazer de tutor.

Catarina Martins quer “cuidar” do país. A intenção é nobre. Mas a história prova: os regimes que mais precisam de ser cuidados… são os mais fracos. E a República portuguesa já se mostrou incapaz de gerar estabilidade duradoura, unidade nacional ou confiança institucional.

Portugal não precisa de mais uma activista em Belém. Precisa de recuperar uma Chefia de Estado acima das partes, que una o que a política divide. Precisa de reencontrar a memória do que foi — e a segurança do que pode voltar a ser.

Precisa, enfim, de uma Monarquia Constitucional.

 

A entrevista de Jorge Pinto — a utopia da República e os limites da imaginação política

José Aníbal Marinho Gomes, 14.11.25

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Jorge Pinto, deputado do partido LIVRE e apoiado oficialmente pelo mesmo partido, apresentou-se na SIC como o rosto de uma mudança radical, alguém que declara querer libertar Portugal das estruturas partidárias e das convenções institucionais que, segundo ele, limitam a participação cidadã. Na entrevista conduzida por Ana Patrícia Carvalho, falou de igualdade, cidadania activa, poder popular e democracia directa — conceitos que soam progressistas, sedutores e em sintonia com a agenda ecologista a que se vincula. Porém, por mais nobres que sejam essas intenções, a chefia do Estado exige algo mais do que entusiasmo transformador: exige continuidade, autoridade moral e uma capacidade de representar o país para além de ciclos eleitorais, slogans ou euforias momentâneas.

O candidato propõe uma presidência próxima do cidadão comum, sem hierarquias nem formalismos. Essa ideia poderá parecer fresca e inclusiva, mas denuncia um desconhecimento profundo do que sustenta a estabilidade política. A horizontalidade absoluta que sugere implicaria um Presidente sujeito à pressão da emoção pública e à volatilidade do momento, sem o distanciamento institucional que garante ponderação e sobriedade. A República que idealiza dependeria da improvisação do presente, da boa vontade popular e de uma constante mobilização — um modelo que pode motivar, mas dificilmente sustenta o Estado quando surgem crises, conflitos sociais ou rupturas inesperadas.

Ao contrário disso, a Monarquia Constitucional — como a que Portugal conheceu e como existe ainda em várias democracias avançadas — demonstra que liberdade e participação podem florescer dentro de uma estrutura duradoura. A Monarquia mantém viva a memória e a continuidade das instituições, serve de símbolo de unidade nacional e representa moralmente o país para além das alternâncias partidárias. Não se trata de rejeitar evolução política, mas de garantir que a mudança não apaga as raízes que seguram o edifício institucional.

Jorge Pinto identifica, com razão, uma falha sentida do regime republicano contemporâneo: o afastamento crescente entre o poder político e a sociedade. Mas a sua solução — dispersão do poder, ausência de hierarquia e modelo inteiramente participativo — ignora que a ordem não é inimiga da liberdade. A História mostra justamente o contrário: quando tudo é volátil e improvisado, são os próprios cidadãos que perdem referências, e direitos tornam-se facilmente negociáveis. A Monarquia Constitucional oferece um equilíbrio essencial: inovação com estabilidade, participação com responsabilidade, mudança com memória. É uma estrutura que protege a democracia de si própria — dos seus excessos, dos seus entusiasmos descontrolados, das suas modas passageiras.

A crítica que faz aos partidos, à política tradicional e às elites instaladas é compreensível; e o seu compromisso ambiental e social deve ser reconhecido. Contudo, a construção de um Estado sério e duradouro não se faz apenas de intenções generosas, de urgências ecológicas ou de discursos motivacionais. Exige instituições sólidas, valores que atravessem gerações e líderes que compreendam que o papel do Presidente da República não é o de activista, mas o de garante — garante da continuidade e da integridade do Estado.

Jorge Pinto é expressão sintomática de uma crise republicana mais ampla: confunde participação com legitimidade, convoca a mudança como sinónimo automático de progresso, e acredita que entusiasmo basta para substituir gravidade institucional. A República que imagina é leve — demasiado leve para sustentar o peso de uma Nação. A Monarquia Constitucional, em contraste, garante precisamente o que ele ignora: um fio condutor entre passado, presente e futuro, onde liberdade, responsabilidade e tradição não se anulam, antes se equilibram e fortalecem mutuamente.

No final da entrevista, surge como um idealista vibrante, consciente de causas urgentes e animado por um profundo desejo de justiça social e ambiental. Mas permanece sem densidade institucional, sem o sentido de permanência que o cargo exige. Um homem de ideias, mas não ainda um homem de Estado. Um discurso cheio de impulso, mas carente de raiz. E Portugal, como a sua própria História atesta, precisa mais de raiz do que de impulso — mais de instituições estáveis do que de entusiasmos passageiros; mais de solidez do que de improviso.