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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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05
Abr15

As Tradições Pascais em Ponte de Lima


José Aníbal Marinho Gomes

No concelho de Ponte de Lima existem várias tradições da Páscoa.

Na vila de Ponte de Lima os “compassos” saem logo de manhã, ao som dos foguetes e do repicar dos sinos e entram em casas, estabelecimentos comerciais e outras instituições (Câmara Municipal, Turismo, Bombeiros Voluntários, etc.) que os queiram receber. Por volta das 12h 30m – 13h recolhem e vão almoçar a casa do Pároco.

Cerca das 14 horas voltam a sair e no final da tarde de Domingo de Páscoa, cerca das 18h30m, há o recolhimento da Cruz: juntam-se todas as “cruzes”, que este ano eram cinco, e os “compassos”, acompanhados pela Fanfarra dos Bombeiros Voluntários locais, e elementos do corpo activo desta corporação, vão em direcção à Igreja Matriz onde se celebra a última Missa do dia.

Na véspera, Sábado de Aleluia, à noite, no fim da Missa de Aleluia, no Largo de Camões era costume lêr-se o testamento do Judas, a que se seguia a sua queima, e nos últimos anos era sempre assim, até que ontem, a tradição foi suspensa, pois de acordo com os comentários que circulavam em Ponte de Lima, a autarquia local que organizava o evento em parceria com Associação Cultural Unhas do Diabo, resolveu unilateralmente romper a mesma, privando desta forma a Associação da ajuda pecuniária necessária para a realização do evento.

judas.jpeg

 Judas 2014

Esta suspensão apanhou de surpresa muitas dezenas de pessoas de vários pontos do concelho e concelhos vizinhos, que se deslocaram propositadamente a Ponte de Lima, para assistir a mais uma tradicional “Queima do Judas”. A estupefacção era geral e os comentários à autarquia muito negativos…havendo mesmo quem afirmasse que esta suspensão estava relacionada com o testamento do ano anterior, no qual um dos vereadores da câmara tinha sido visado. Amiúde ouvia-se: “que falta de cultura democrática e tolerância tem a Câmara…nem antes do 25 de Abril isto acontecia”, ou então: “os tipos estavam com medo que se falasse nos novos Paços do Concelho…” , ou "será que estão com medo que venha algum submarino rio acima?..."

Houve mesmo quem dissesse que para o ano se fizesse uma subscrição pública para angariar a verba necessária para realização desta tradição local.

Em Arcozelo, andam quatro “cruzes”. Em cada uma o respectivo mordomo entra na casa e dá a Cruz a beijar a todos os presentes. Em cima da mesa da sala onde se recebe o compasso, está colocado um copo cheio de água com uma moeda ali mergulhada. O homem que transporta a caldeira despeja a água do copo e a moeda para dentro da mesma e torna-o a encher mas com a água da caldeira, a qual, ao fim de oito dias, é utilizada para benzer a casa. Ao fim da tarde de Domingo faz-se a reunião dos quatro “compassos”, no cruzamento de Faldejães, chamado o recolhimento, donde segue para a Igreja Paroquial ao toque de sinos, campainhas e foguetes. O total de moedas serve para indicar o número de casas visitadas.

A Queima do Judas, em Arcozelo e na Correlhã, é outra tradição da Páscoa Limiana e realizam-se ambas no próprio Domingo de Páscoa. Erguido o Judas, representando personalidades da freguesia ou a nível nacional, envolvidas em negócios ilícitos, assuntos de saias ou reprovável conduta moral, ou mera sátira política, o mesmo é destruído por explosivos, colocados dentro da figura, reduzindo-a a um monte de cacos e poeiras. Este verdadeiro Auto de Fé, não é concluído sem antes se proceder à leitura de quadras de escárnio e maldizer −Testamento do Judas−beliscando, a torto e a direito, a gente da terra, ou seja os visados, completando-se assim o ajuste de contas.

No Domingo de Páscoa,  na freguesia de Beiral do Lima, os homens agarram-se às cordas do sino da igreja e tocam a repique, uns a seguir aos outros. Às vezes pegam-se por não quererem dar a vez a outro, não parando assim o sino de tocar festivamente, durante todo o dia. Até ao início do século XX os homens do "compasso” usavam lenços de mulher na cabeça mas esta tradição caiu em desuso.

Em Estorãos os mordomos são todos os homens casados na igreja de Estorãos. No final da missa Pascal de Domingo as pessoas aguardam, no adro da igreja, a saída da Cruz que é anunciada pelos sinos da igreja e foguetes. A Cruz, adornada com flores e perfumada com a melhor essência, é transportada pelo mordomo desse ano e ao lado do pároco seguem dois rapazes − um com a caldeira e outro com a campainha – estando um deles encarregado de recolher as esmolas para “as almas” e para “S. Pedro” e outro o “folar do padre”. Por volta das 12h 30m – 13h realiza-se o jantar da Cruz que conta com a presença do pároco e está a cargo do mordomo. Na segunda-feira, depois de ter sido percorrida toda a freguesia, o “compasso” dirige-se à igreja e ao aproximar-se começa o clamor com cânticos alusivos à quadra e as pessoas acompanham a Cruz até ao interior onde é feita a bênção do Santíssimo e encerrada a visita pascal.

Compete ao Mordomo da Cruz em Fontão, oferecer um almoço à população da freguesia – o “almoço do Mordomo da Cruz” – ao qual se associam outros convidados. Este ano o almoço foi para 360 pessoas, mas em anos anteriores já se chegaram a sentar à mesa cerca de 500 pessoas. Este almoço, que se realiza no Domingo de Páscoa, é confeccionado por mais de uma dezena de cozinheiras e é composto por entradas e dois pratos – um de peixe e outro de carne. Durante a refeição o Mordomo entrega um ramo ao próximo “Mordomo”, que no ano seguinte terá a responsabilidade de organizar novo almoço.

Actualmente é a mulher do anfitrião que escolhe o mordomo do próximo ano, que de raminho de laranjeira na mão, calcorreia as diversas mesas, assustando os convidados, até que o depositar definitivamente nas mãos do eleito.

Para além deste almoço, o mordomo tem ainda a obrigação de durante um ano, assegurar a limpeza da igreja e os serviços inerentes ao sacristão.

Ao Mordomo da Cruz cabe transportar a Cruz sendo o “compasso” acompanhado por uma fanfarra de zabumbas e gaiteiros. Para o recolhimento, as cruzes reúnem-se em frente da Casa do Povo e saem em procissão para a Igreja Paroquial, sendo os novos Mordomos da Cruz e do Senhor levados aos ombros.

Em Serdedelo, nas casas com raparigas solteiras, estas esperam o padre à entrada da porta, oferecendo-lhe um "raminho" que deverá transportar até outra casa onde lhe entreguem novo "raminho" e assim sucessivamente.

DSC_0006.JPG

 Compasso Pascal em Vitorino das Donas 2015

Na freguesia de Vitorino das Donas visita pascal faz-se, usualmente, no Domingo e na segunda-feira de Páscoa e as casas têm as portas abertas a todos e, em todas elas se deitam foguetes ao chegar a Cruz. Aqui o "compasso", acompanhado dum grupo de tocadores de violino, é conduzido por homens, que para se protegerem do sol, usam os célebres "cachenés" (lenços de raparigas) dos fatos regionais, e por cima das opas, toalhas de linho a tiracolo – o uso dos lenços remonta à proibição do uso do chapéu por parte dos homens em actos religiosos, sendo a toalha de linho usada para proteger a prata da Cruz –. O Mordomo, que arrecada o "folar" para o Senhor Abade, usa uma toalha branca, de puro linho, a tiracolo e os rapazes da caldeira e campainha também usam os cachenés.

Seguramente existirão no nosso concelho muitas outras tradições pascais.

26
Set13

Agenda Cultural do Município de Ponte de Lima


José Aníbal Marinho Gomes

Foi a partir do mês de Abril de 2013 que a Agenda Cultural de Ponte de Lima, da responsabilidade do Município, começou a incluir na contracapa frases ou citações de algumas personalidade famosas. Começaram a ser incluídas citações "leves" mas com muita profundidade, passando posteriormente a focarem-se na corrupção.  Acontece que a agenda de Setembro já foi retirada do site do Município e o mês ainda não terminou. Sabe-se que o vereador responsável por este pelouro, o independente Franclim Sousa, não vai integrar a lista do CDS/PP, da qual foi dispensado e que em Julho passado numa entrevista ao Jornal "Cardeal Saraiva" referiu que sai "magoado" mas com as "mãos limpas". Logo parece óbvio que estas citações devem ter um destinatário, quem será a personagem misteriosa?
 
 
04
Mar13

Ponte de Lima teve foral há 888 anos (1)


José Aníbal Marinho Gomes

 

Cartaz do Amigo Amândio de Sousa Vieira 

Faz hoje 888 anos que a Vila de Ponte teve carta de foral concedida pela Rainha D. Teresa, que foi «...mãe de reis e avó de impérios... »...e... «de Ponte a bem dizer mãe e madrinha...», pelo que o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao despontar da nacionalidade.

O Município de Ponte de Lima como lhe compete assinala a data, no entanto a comemoração desta efeméride que faz com Ponte de Lima seja anterior à própria existência de Portugal como país livre e independente, merecia muito mais, para além de incompreensivelmente não ser feriado municipal...

Um pouco de história...

Entre 1096 e 1187 surge o período áureo do municipalismo português que principia com a outorga do foral de Guimarães e finda com a concessão do foral de Bragança; pelo meio está o foral de Ponte de Lima.

Das actuais localidades que presentemente são vilas e sede de concelho (uma vez que algumas deixaram de ser sede de concelho e passaram a freguesias e outras apesar continuarem como sede de concelho foram elevadas à categoria de cidade), a ordem de antiguidade da outorga de forais dentro do território nacional será a seguinte: Satão com foral concedido pelos Condes D. Henrique e D. Teresa no mês de Maio de 1111; Soure em Junho de 1111, Montemor-o-velho em Maio de 1112, Arganil a 25 de Dezembro 1114, e Sernancelhe 26 de Outubro de 1124.

Há ainda o caso do foral de S. João da Pesqueira, outorgado entre os anos 1055 e 1065 por Fernando II de Leão, inserido no contexto das campanhas de reconquista [1057-1058] que o levaram até Coimbra, e que é assim o mais antigo foral concedido dentro do actual território português.

Eram as necessidades públicas de povoamento, defesa, cultura da terra mas também de administração do território, que determinavam a outorga dos forais. A povoação individualizava-se, ganhava personalidade e, para garantia e defesa dos direitos comuns, carecia de órgãos próprios: a assembleia dos vizinhos e os magistrados. De modo que o foral arrastava consigo, mesmo que o não estabelecesse expressamente, a formação do concelho.

O foral é uma das principais fontes de direito interno: é um documento escrito (carta) outorgado unilateralmente pelo rei ou por entidade senhorial – nobre, eclesiástico, etc. – que pudesse dispor de certa área de terra em benefício de um grupo de pessoas; é considerado um pacto inviolável por qualquer das partes, embora desse documento não constasse a aceitação dos destinatários; o seu objecto principal é conceder a uma colectividade de indivíduos presentes e futuros o domínio da área que eles irão povoar, cultivar e defender como homens livres, sendo essa concessão da terra – normalmente em plena propriedade – efectuada com encargos e a título perpétuo e hereditário.

Nesta carta fixava-se o regime das relações dos membros da comunidade entre si mas especialmente os encargos ou obrigações que a colectividade (e os seus membros) tinha para com o concedente, evitando o arbítrio ou o abuso nas exigências e garantiam-se igualmente direitos, em geral sob a forma de privilégios, que tornavam atraente a fixação na povoação considerada. Tal regulamentação de direitos e obrigações individualizava essa colectividade e dela resultava uma comunhão de interesses, a necessidade de os membros da colectividade se concertarem acerca do cumprimento das obrigações colectivas e da fruição e defesa dos direitos e privilégios assim como levava à reunião da assembleia dos interessados (concilium) e à criação através dela de magistrados encarregados de reger a comunidade.

Todavia o foral não contém todo o Direito municipal pois parte dele era consuetudinário.

E o foral da vila de Ponte?

Em 1121 D. Urraca concentra os seus exércitos em Tui e invade Portugal, tendo necessariamente de passar pela ponte do Lima, que, na época, abria o território de Portucale, seguindo a estrada para Braga e Guimarães.

Estes acontecimentos vieram mostrar a D. Teresa quão necessário era a fortificação do vale do Lima e importante manter o seu domínio, tanto mais que em todo o curso deste rio não existia então outra ponte. Por outro lado a criação de um município nesta área permitiria, não apenas desequilibrar a influência religiosa compostelana em território português - já que a freguesia da Correlhã (Villa Cornelliana) havia sido doada à Igreja de Santiago em 915 e era, nesse tempo, o posto mais avançado da política hegemónica do arcebispo de Santiago de Compostela – retirando-lhe parte dos moradores, atraídos para a Vila de Ponte pelos privilégios concedidos mas também levantar uma nova fortificação no Norte do Minho, inquietando e devastando Leão e lutando contra o seu rei. A 4 de Março de 1125 é outorgado foral originário a Ponte de Lima. E originário por ter sido o primeiro foral concedido já que Ponte de Lima recebeu, no ano de 1217, do rei D. Afonso II um foral que veio confirmar (e daí a designação de foral confirmativo) aquele – o outorgado por D. Teresa: «Ego Alfonsus II Dei gratia Portugalensis rex una cum uxore mea Regina domna Vrraca et fílíís nostris ínfantíbus domno Sancio et domno Alfonso et domna Alionor concedo et confirmo fírmíter uniuersis populatoribus de Ponte istud forum et istam cartam quam eis dedit auia mea regina domna Tharasia…» (Eu Afonso II, por graça de Deus Rei de Portugal, juntamente com minha mulher, a Rainha D. Urraca e nossos filhos Infantes D. Sancho e D. Afonso e D. Leonor, concedo e confirmo firmemente a todos os povoadores de Ponte este foro e esta carta que lhe deu a minha avó a Rainha D. Teresa ...).                                               

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Mas

Mas D. Teresa não terá criado, ex novo, a vila de Ponte de Lima. Já existiria, junto à ponte romana, uma povoação e a rainha transferiu, para a outra margem do rio, a sede do concelho calculando que se fosse aproveitada a linha de defesa natural que o Lima representava e levantada uma muralha em redor da vila, defronte da ponte, sustar-se-iam, com mais eficácia, eventuais invasões de Leão e Castela.

Porque a principal razão do foral era a mudança da vila para nova povoação a fazer, as disposições daquele diploma restringem-se, praticamente, ao estabelecimento de imunidades perante a justiça; à concessão de alguns privilégios, tendentes a promover a afluência ao local de moradores, que aqui, em virtude do couto, ficam protegidos contra violências, deveria ser cobrada portagem e passagem; às obrigações inerentes ao exercício de certas profissões (por exemplo os mesteres); aos logradouros ou terrenos municipais (maninhos, condados, caça, pesca, cortes...) e ainda ao regime e organização de certos aspectos da vida e da administração local, o que prova que tais regras eram conhecidas e estavam em vigor...

Tinha, pois, Ponte de Lima o estatuto de couto que se traduzia na autonomia municipal, e, por conseguinte, na existência de órgãos de justiça e de administração civil próprios e ainda num estatuto especial em relação às tarefas militares. Mas o coutar como forma de combater a vindicta privada e estabelecer uma paz especial para certo lugar significava também, por via de regra, a proibição da perseguição e morte dos inimigos nos locais privilegiados e a punição mais rigorosa dos crimes que aí se cometessem e implicava, do mesmo modo, o direito de asilo: os criminosos de outra terra que se refugiassem na vila de Ponte ficavam protegidos pelo Direito local e aí não podiam ser perseguidos pelos seus inimigos, sob pena de os perseguidores serem severamente punidos.

Foi portanto de necessidades estratégicas, predominantemente de cariz militar, que resultou a fundação da actual vila, surgida por graça da Rainha D. Teresa ao pretender transformar o local numa praça fortificada e estabelecer assim uma povoação forte entre o noroeste do Condado Portucalense e a Galiza ocidental.

Mas Ponte de Lima era, de igual modo, um centro económico de certo relevo mercê da ligação que estabelecia entre Santiago de Compostela, principal polo de circulação monetária e mercantil da Hispânia Setentrional, Braga e Porto, facilitando não só a intensa actividade mercantil como a peregrinação jacobeia, então um êxito. Por isso o foral de Ponte de Lima tem ainda outra importante dimensão: ele atesta que a vila, para além de ser uma povoação de características militares e agrícolas, tem igualmente um cariz comercial, sendo a sua feira a mais antiga, documentada, em todo o território português.

A realização de feiras – que tinham uma importante função de intercâmbio económico e cultural – e o desenvolvimento do comércio exigia segurança e impunha uma organização especial das feiras traduzida numa série de regras e estatutos relativos ao seu funcionamento: para além da protecção assegurada pelo senhor territorial a todos os que frequentavam as feiras, as transacções eram fiscalizadas e estabelecia-se uma paz especial.

A paz da feira proibia, durante a sua realização, qualquer disputa, vingança ou acto de hostilidade assim como protegia quem concorresse a essas reuniões mercantis (incluindo estrangeiros) não só no local onde elas se efectuavam, mas também na viagem de ida e de volta, fixando-se penas severas como castigo em caso de transgressão, tal como vem documentado no foral de Ponte de Lima onde se prescreve o pagamento de 60 soldos pelo infractor.

O foral da vila de Ponte, tal como todos os actos solenes, deveria ser de grande formato e com aspecto cuidado na caligrafia e na redacção. Foi redigido por um notário «Pedro» e confirmado pelos membros da família real – o filho e o marido da rainha D. Teresa, respectivamente D. Afonso Henriques e D. Fernão de Trava – e da cúria régia – Conde Gomes Nunes, Paio Vasques, mordomo, Sisnando Ramires, governador da Riba Lima por mandado da Rainha, muitos outros homens bons e Paio, Arcebispo de Braga  – o que demonstra que, pelo menos em princípio, o monarca estava limitado nas suas resoluções que atingissem os direitos ou o património da coroa pelo consentimento dos seus familiares e dos bispos e barões do Reino.

Acrescente-se que o compromisso tomado por D. Teresa foi igualmente corroborado por D. Afonso Henriques, seu sucessor – o que normalmente acontecia para que o novo monarca não pudesse alegar ignorância e se comprometesse por si próprio a respeitar os foros ou direitos contidos no diploma -, assinando ambos, por sua própria mão, a carta de foral, o que ocorria mediante a aposição, no final, do seu signum, geralmente uma cruz.

É ainda no foral da vila de Ponte de Lima que, pela primeira vez, D. Afonso Henriques aparece com o título de rei - e não após 1140 com a batalha de Ourique - com a particularidade de o mesmo ser dado por sua mãe – a rainha D. Teresa.

«...Porque foi belíssima D. Teresa nasceu belíssima, para sempre, a Vila de Ponte.»

 (1)     Elaborado com base no trabalho que publiquei no ano 2002 em Ponte de Lima intitulado “D. Teresa e a Vila de Ponte, Alguns subsídios biográficos e históricos”.

03
Jan13

A incompetência no meio de uma boa notícia


José Aníbal Marinho Gomes

No Blog do amigo Nuno Matos http://pontelima.blogspot.pt/ tomei conhecimento da intenção da senhora Directora-Geral do Património Cultural, Dr.ª Isabel Cordeiro, de propor ao senhor Secretário de Estado da Cultura a classificação da Igreja Matriz de Ponte de Lima, como monumento de interesse público, apesar de em nosso entender esta iniciativa pecar por tardia, mas como diz o ditado mais vale tarde do que nunca…  

Importa referir que antes do actual edifício deve ter existido outro, provavelmente românico (erigido pelos séculos XII-XIII) e de estrutura modesta, com apenas uma nave, a que Carlos Alberto Ferreira de Almeida na obra “Alto Minho” atribuiu o registo inferior da fachada principal, incluindo o portal (ALMEIDA, 1978, vol. 2, p.253 e 1987, p.102). 

Nas Cortes de Évora, realizadas em 1444, os procuradores de Ponte de Lima declararam que a Igreia uelha era tam pequena Em que nom podiamos caber como refere Amélia Aguiar Andrade em "Um espaço urbano medieval: Ponte de Lima" (ANDRADE, 1990, p.59, nota 67). Os financiamentos decorreram no reinado de D. João I e durante a regência de D. Pedro, tendo a empreitada se prolongado até à década de 50.

A actual igreja data de meados do século XV, no entanto no século XVI poderá ter surgido a estrutura tripartida tal e qual como existe nos nossos dias. 

Após leitura no Facebook de um post do amigo Ovídio Vieira, resolvi ler esta intenção da Direcção-Geral do Património Cultural.

Numa análise atenta ao Anúncio n.º 13817/2012, publicado no Diário da República, 2.ª Série, N.º 251 de 28 de Dezembro de 2012, a páginas 40907/8, verifiquei que a alínea c) do n.º 2 nos remete para a consulta do processo na página electrónica da Câmara Municipal de Ponte da Barca (???), e não obstante este grave erro, o endereço electrónico constante é www.cm-marco-canavezes.pt.

Ou seja podemos consultar o processo da Igreja Matriz de Ponte de Lima, na página da Câmara Municipal da Ponte da Barca, cujo endereço é o da Câmara Municipal de Marco de Canavezes.

 

 

Assim vai o nosso país, trapalhada atrás de trapalhada….

Ou será que estamos perante alguma reforma administrativa em curso (por proposta do ministro Relvas...) que englobe a fusão dos concelhos de Ponte de Lima, Ponte da Barca e Marco de Canavezes?

Sinto pena de tanta incompetência.

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    12. N
    13. D