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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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“A Monarquia do Norte” - 19 de Janeiro de 1919. Subsídios para a história da Restauração da Monarquia em Ponte de Lima *

José Aníbal Marinho Gomes, 19.01.24

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Paços do Concelho de Ponte de Lima

Após o assassinato do presidente da República Sidónio Pais a 14 de Dezembro de 1918, precipitaram-se os acontecimentos e Domingo, dia 19 de Janeiro de 1919, pelas 13 horas, na cidade do Porto concentravam-se no Monte Pedral os contingentes de todos os corpos da guarnição de Infantaria 6 e 18, Cavalaria 9, Artilharia 5 e 6, do Grupo de Metralhadoras, da Guarda Republicana e da Policia, e outras forças. Aqui, à uma hora da tarde, o Coronel Paiva Couceiro, montado a cavalo, coloca-se no meio do quadrado formado pelas tropas, o Alferes Calainho de Azevedo empunhou uma bandeira azul e branca, que foi desfraldada, tendo o Major Satúrio Pires lido uma proclamação(1) aos soldados, que ficou para a hitória e era assinada por Paiva Couceiro e por mais oito oficiais do exército. A banda da Guarda toca o Hino da Carta e o Coronel Paiva Couceiro passa uma revista às tropas e estas desfilam em continência e apresentaram armas à bandeira. É assim declarada a restauração da Monarquia, à uma e meia da tarde, pelas forças da guarnição militar do Porto, em nome de Sua Majestade D. Manuel II, sem ter sido disparado um único tiro.

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Proclamação da Junta Governativa do Reino, da varanda do edifício do Governo Civil do Porto,
a 19 de Janeiro de 1919

Em Ponte de Lima, logo às primeiras horas da manhã do dia 20 de Janeiro de 1919 (segunda-feira, dia da feira quinzenal), começou a notar-se um movimento pouco habitual de automóveis, militares e civis com bandeiras monárquicas. Cerca das 10 horas, alguns cidadãos de Ponte de Lima dirigiram-se aos Paços do Concelho para arvorar a bandeira azul e branca. Neste local onde estava destacada a Guarda Republicana pelo que se deu uma pequena escaramuça, o que levou ao encerramento do mercado quinzenal (feira).

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Paiva Couceiro

A administração do concelho não tinha ainda comunicação oficial da proclamação da Monarquia ocorrida, na véspera, na cidade do Porto, pelo que se manteve fiel às instituições republicanas, até que por volta das 3 horas da manhã de terça-feira, dia 21 de Janeiro de 2019, entrou nesta vila uma força da Guarda Nacional do Porto. Perante a presença deste contingente, a administração do concelho, a Guarda Republicana e uma força de Infantaria 3, que estava de guarda aos Paços do Concelho, rendem-se.

Depois desta rendição, começam a repicar festivamente os sinos de todas as torres da vila e a ouvir-se já, nas ruas, várias manifestações de alegria por parte da população local, que aclamava de forma efusiva a restauração da monarquia. Pelas 14h00 o número de participantes nestas manifestações era já considerável. Por volta das 15h00 e perante a assistência de muito povo, é hasteada, nos Paços do Concelho, a bandeira azul e branca, ao som do Hino da Carta, interpretado por uma banda de música, que antes de se dirigir para este local, percorreu as ruas da vila, sendo saudada por muitas pessoas que se encontravam às janelas, sobretudo muitas senhoras que alegremente acenavam com lenços.

Após esta cerimónia, e já com a bandeira nacional completamente hasteada, das janelas da Câmara Municipal usou da palavra, na qualidade de administrador do concelho, o Sr. Dr. Francisco Teixeira de Queiroz, que proclamou a restauração da monarquia e indicou as seguintes individualidades para fazerem parte da nova Câmara: Presidente – Dr. Alexandre Pereira de Sá Sotomaior; Vice-Presidente – Dr. José de Sá Coutinho (Aurora); vogais – António Noronha de Abreu Coutinho (Paço de Victorino), Padre António Luiz Fernandes, João Soares Lima, Padre José Cândido de Carvalho e João de Souza Lobato, nomes estes referidos no Jornal Cardeal Saraiva(2).  

A multidão presente aclamou com muito entusiasmo todos os nomes indicados para a nova edilidade, seguindo-se o lançamento de muito foguetes, ouvindo-se os sinos que, de hora a hora, tocavam festivamente.

Pelas 13 horas do dia 23 de Janeiro de 2019, chegou a Ponte de Lima, via telegrama, a notícia de que Lisboa se tinha rendido. O povo saiu à rua, tendo-se iniciado uma grandiosa manifestação pelas ruas da vila, na qual se incorporaram milhares de pessoas de todos os estratos sociais. Os sinos repicavam festivamente e os foguetes eram bem audíveis.

Várias janelas e edifícios foram engalanados com colchas e retratos de el-rei D. Manuel II. À frente da multidão, iam duas bandas de música que percorreram todas as ruas da vila, dando vivas à Monarquia, à Família Real, a D. Manuel II e a Paiva Couceiro atingindo, por vezes, um entusiasmo indiscritível, tal era a alegria e ordem dos manifestantes, que empunhavam bandeiras azuis e brancas(2) .

Integraram o cortejo as alunas do "Colégio de Meninas" da Rua Vasco da Gama(3), e a multidão, ao passar em frente ao referido colégio ao tomar conhecimento de que estava ali a estudar uma prima do Coronel Paiva Couceiro, ficou muito entusiasmada.

Os edifícios públicos já ostentavam a bandeira azul e branca, assim como muitas casas particulares onde também era possível ver iluminações.

À noite, pelas 21h00, na Praça de Camões, organizou-se um grande cortejo, com duas bandas de música à frente de uma multidão imensa, que percorreu as ruas da vila ao som do Hino da Carta, e de muitos foguetes, e do repicar dos sinos de todas as igrejas e capelas da vila, com vivas à Monarquia, a D. Manuel II, a Paiva Couceiro.

Às 16h30m, do dia 26 de Janeiro de 1919, chegou à Praça de Camões, o Sr. Governador Civil do distrito, Major Martinho Cerqueira, onde era esperado pela Banda dos Artistas desta vila, Associação dos Empregados no Comércio, Grémio Operário, Bombeiros Voluntários, Guarda Nacional, Grupo de Civis, funcionários públicos e um grande número de pessoas de todas as classes sociais.

O articulista do Jornal Cardeal Saraiva(4) escreve o seguinte: “Sinceramente dizemos que não nos recorda de ter assistido a tamanha demonstração de regozijo, manifestação essa que, sempre na melhor ordem e animação, se prolongou até cerca das 2 horas do dia seguinte, quando deixaram de tocar de festa os sinos e o relógio oficial”.

O Sr. Governador Civil dirigiu-se aos Paços do Concelho para dar posse ao novo administrador do concelho, o sr. Francisco de Araújo Mimoso e durante o percurso foi constantemente ovacionado pela população.

Após vários oradores usarem da palavra, no final desta cerimónia, o Sr. Governador Civil foi descerrar a Coroa que encimava as armas nacionais, retirada após a implantação da república, encaminhando-se posteriormente para o Colégio de Meninas da Rua Vasco da Gama, onde discursou da varanda, para uma grande multidão que se encontrava em frente ao edifício.

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Colégio de Meninas da Rua Vasco da Gama

Terminado este discurso dirigiu-se à Casa dos senhores Condes de Aurora, onde o esperava um aprazível copo de água, seguindo depois para a capital do distrito.

Acompanhavam o Sr. Governador Civil, as alunas D. Maria Armanda Pereira Dias de Oliveira Carvalho (filha dos Viscondes de Fraião) e uma prima do Coronel Paiva Couceiro, D. Maria Salette Vilardebó (Vila Dervo) de Matos.

Em telegrama enviado ao sr. Coronel Paiva Couceiro, o sr. Governador Civil, Major Martinho Cerqueira referia: “Foi uma significativa prova dos sentimentos monarquicos do povo d'aquela região, tão quente e calorosa, que a ofereço a V. Ex.ª como uma das mais brilhantes e patrióticas expansões do coração genuinamente português”.

Cumprindo o preceituado no Código Administrativo de 4 de Maio de 1896 (em vigor no tempo da Monarquia), a nova Comissão Administrativa Municipal de Ponte de Lima, tomou posse no dia 30 de Janeiro, como consta da acta da tomada de posse da Comissão Administrativa de Ponte de Lima, nomeada pela Junta Monárquica do Porto e por escrutínio secreto realizou-se a eleição do Presidente e Vice-Presidente, ficando assim constituída: 

Presidente - Dr. Francisco Casimiro de Abreu Pereira Maia; Vice-Presidente – Dr. Francisco Teixeira de Queiroz; Vogais: Dr. Alexandre de Sá Sotomaior, Dr. José de Sá Coutinho (Aurora), Dr. Francisco de Magalhães Barros de Araújo Queiroz, Padre António Luís Fernandes e Padre Manuel Martins Lobo.

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Dr. Francisco Casimiro de Abreu Pereira Maia

Alguns dos elementos desta comissão, que constam da acta da tomada de posse, são diferentes daqueles indicados pelo Dr. Francisco Teixeira de Queiroz, administrador do concelho, e citados pelo jornal Cardeal Saraiva. 

O Presidente, Dr. Francisco de Abreu Pereira Maia, fez um extraordinário discurso ao povo de Ponte de Lima e no final o relógio municipal tocou festivamente.

No dia 1 de Fevereiro de 1919 a câmara mandou celebrar, na Igreja Matriz, solenes exéquias por alma de D. Carlos I e D. Luís Filipe.

A 14 de Fevereiro de 1919 foi reimplantada a república em Ponte de Lima.

Sabe-se que o Dr. Francisco de Abreu Maia, partiu rumo ao exílio na vizinha Galiza, vivendo com algumas dificuldades na Corunha e em Santigo de Compostela, devido ao congelamento dos bens que integravam o património de sua casa, conseguindo apenas vender a antiga Quinta de Catezim, em Santa Maria de Rebordões, que lhe garantiu o sustento até ao seu regresso a Portugal nos começos do Estado Novo. O Dr. Francisco Teixeira de Queiroz, exilou-se na Holanda. O Dr. José de Sá Coutinho (Conde de Aurora) esteve exilado na Argentina, donde regressou em 1923.

As novas autoridades republicanas apressaram-se a suspender os seguintes professores, por terem acatado a junta governativa do reino: D. Justina de Melo Pereira de Sousa, Merícia Venusina de Brito e D. Rita de Melo da Gama e Vasconcelos, da escola central desta vila; D. Júlia de Araújo Magalhães, da de Souto; D. Isaura da Cruz Lopes e João da Cruz Lopes, da de S. João da Ribeira; D. Maria Azevedo Evangelista, da de Fornelos e António de Pádua Barbosa, da de S. Martinho da Gandra.

O republicano “Commércio do Lima”(5) na sua edição do dia 16 de Março escrevia o seguinte sobre esta suspensão: A notícia causou sensação, por a medida governativa se basear apenas no referido acatamento, o que de resto fizeram, se não todos, pelo menos quase todos os funcionários públicos no norte do país.»

 Notas  

* Este estudo tem por base a minha intervenção na tertúlia “Reais Conversas com”, 3.ª Edição, cujo tema era “Monarquia do Norte 100 anos…”, e que teve lugar no Auditório da Casa da Terra, em Ponte de Lima no dia 17 de Maio de 2019, na qual participaram os Professores Doutores Pedro Villas-Boas Tavares, Nuno Resende e Armando Malheiro da Silva, docentes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

(1) «Soldados!

«Tendes diante de vós a Bandeira Azul e Branca! Essas foram sempre as cores de Portugal, desde Afonso Henriques, em Ourique, na defesa da nossa terra contra os Moiros até Dom Manuel II mantendo contra os rebeldes africanos os nossos domínios em Magul, Coolela, Cuamato, e tantos outros combates que ilustraram as armas portuguesas. «Quando em 1910 Portugal abandonou o Azul e Branco, Portugal abandonou a sua história! E os povos que abandonam a sua história são povos que decaem e morrem.

«Soldados! o Exército é, acima de tudo, a mais alta expressão da Pátria e, por isso mesmo, tem que sustentá-la e tem que guardá-la nas circunstâncias mais difíceis, acudindo na hora própria contra os perigos, sejam eles externos ou internos, que lhe ameacem a existência. «E abandonar a sua história é erro que mata! Contra esse erro protesta, portanto, o Exército, hasteando novamente a sua antiga Bandeira Azul e Branca. «Aponta-vos Ela os caminhos do Valor, da Lealdade e da Bravura, por onde os portugueses do passado conquistaram a grandeza e a fama que ainda hoje dignifica o Exército de Portugal perante as nações do Mundo! «Juremos segui-la, soldados! E ampará-la com o nosso corpo, mesmo à custa do próprio sangue! «E com a ajuda de Deus, e com a força das nossas crenças tradicionais, que o Azul e Branco simbolizam, a nossa Pátria salvaremos!»

«Viva El-Rei D. Manuel II!»

«Viva o Exército! Viva a Pátria Portuguesa!»

(2)  Cardeal Saraiva, 23 de Janeiro de 1919.   

(3) Este colégio funcionou no edifício onde após o seu encerramento esteve instalado o Hotel Universal e, seguidamente a Assembleia Limarense, tendo posteriormente aqui se instalado a Escola Preparatória António Feijó. Actualmente encontra-se abandonado esperando por melhores dias.

(4)  Cardeal Saraiva, 30 de Janeiro de 1919.

(5) Commércio do Lima, 16 de Março de 1919.

Bibliografia Consulta:

Diário da Junta Governativa do Reino de Portugal, n.º 1, Porto, 19 de Janeiro de 1919.

Livro de Actas da Câmara Municipal de Ponte de Lima, 1918-1923.

Jornal “Cardeal Saraiva”, Ano VIII, n.º 363, 23 de Janeiro de 1919.

Jornal “Cardeal Saraiva”, Ano VIII, N.º 364, 30 de Janeiro de 1919.

Jornal “O Commércio do Lima”, 13.º ano, n.º 601, 16 de Março de 1919.

Manifesto "Instaurar a Democracia, Restaurar a Monarquia": homenagem a Henrique Paiva Couceiro

Pedro Quartin Graça, 09.02.12

 

«És monárquico? És republicano?(... )Não to pergunto.  

  Pergunto-te apenas se és português acima de tudo».

Henrique Paiva Couceiro, , in Profissão de Fé, 1944

 

No próximo dia 11 de Fevereiro passarão 68 anos desde a morte de um homem que nunca desistiu de Portugal: Henrique Mitchell de Paiva Couceiro.

 

Numa altura de desalento e frustração nacional será bom evocar alguém que sempre colocou o serviço ao seu País antes de si próprio; o que ele acreditava ser o bem comum antes dos interesses pessoais.

 

Exaltado pelos seus correligionários, respeitado pelos seus adversários, Paiva Couceiro é um herói português. Muitos outros houveram, felizmente; mas ninguém como o grande comandante dedicou toda uma vida a apenas um objectivo: o direito de escolher. Monárquico convicto, íntimo de El-Rei D.Carlos, foi o último dos resistentes à revolução republicana e que não fora a uma ordem superior a que teve contrariado de obedecer (pois tratava-se de ir proteger a família real), o destino do 5 de Outubro poderia ter sido outro.

 

Caída a monarquia, Paiva Couceiro fez da sua vida a batalha pelo plebiscito: monarquia ou república, ele aceitaria com honra qualquer uma, desde que o povo português fosse ouvido.

 

Morreu abandonado por quase todos, amigos e inimigos, depois de dois exílios impostos por Salazar. Mas sem nunca abdicar do que acreditava. Sem nunca ter desistido de Portugal.

 

Mais de sessenta anos passados a luta ainda é a mesma. E iremos evocar o exemplo de Paiva Couceiro num almoço a ter lugar dia  11, às .13 horas na Adega do Norte(Praça do Norte, Encarnação, Olivais Norte. Telefone :218517206). Convidamos todos os que queiram estar presentes a juntarem-se a nós. Serão lido mensagens da família de Paiva Couceiro, do historiador Filipe Ribeiro de Menezes e do coronel Fernandes Henriques.

 

Afonso Lopes Vieira escreveu: « "É cedo para falar de Paiva Couceiro. Circunstâncias do tempo e da fortuna não deixariam dizer tôda a verdade acerca do heroísmo e da glória da sua vida - do seu martírio também. Por agora apenas pudemos sentir o luto espiritual em que êle nos deixou. E êsse luto provém da convicção, ao mesmo tempo heróica e angustiada, de que êle foi - o ULTIMO!".

 

Não é cedo – é agora. E enquanto o exemplo perdurar, nunca será o último. Pelo menos para aqueles que não querem desistir de Portugal.

 

 

Inscrições para restauraramonarquia@gmail.com. Preço único (ementa completa):13 euros. Devido à capacidade da sala o número de inscrições é limitado a 70 pessoas.

 

Prazo limite de inscrições: até às 13 horas do dia 10 de Fevereiro.

 

O evento no Facebook aqui.