Deixem o jazz em paz

Proteger e dar destaque a artistas nacionais só porque são "nacionais" pode ser a melhor maneira de impedir que eles melhorem. Sendo certo que eu nada percebo de música, não deixo de ficar pasmado como é possível que o jazz português seja tão mau, com excepção, na minha modestíssima opinião de mero "consumidor", do saxofonista Carlos Martins e do pianista Bernardo Sassetti (que merecia ter ido viver e aprender para fora do País). Mas o que mais me espanta é o destaque dado, há anos, a cantoras como Maria João e Jacinta, para já não falar de um cortejo de outras menos conhecidas que vou tentando suportar quando estou sintonizado na excelente Rádio Europa (que no momento em que escrevo passa, por exemplo, uma soberba interpretação de "Someday My Prince Will Come", por Chick Corea) e que atravessa um momento brilhante graças, segundo me parece, a uma longa greve em França que impede aqueles noticiários que ocupam totalmente as noites e os fins de semana. Eu sei que o "glamour" do jazz atrai, que as canções são soberbas, mas realmente é preciso alguém dizer a essas cantoras para escolherem outros géneros menos exigentes, porque o jazz é impiedoso com os seus maus intérpretes,
Fui ontem ver o último concerto do Estoril Jazz deste ano, um grupo liderado pelo contrabaixista Christian McBride, e mais uma vez (entre tantas e tantas) fiquei admirado com a enorme qualidade destes músicos, só conhecidos por uma pequena parte da população, com o seu anti-vedetismo, as suas roupas e aspecto "normal" ,mostrando como para eles o que interessa é a música e não qualquer adereço de videoclip. Este contraste tinha ficado ainda mais evidente no primeiro dia do festival, com a apresentação do grupo de outro músico de excelência, o saxofonista James Cartes, no dia seguinte, segundo me lembro, à morte de Michael Jackson. Homenageando, nas suas palavras, o "King of Pop", tocou a fechar o concerto uma versão do "Never Can Say Goodbye", dos Jackson 5, uma das poucas coisas boas que Michael Jackson cantou ao longo da vida. Foi uma interpretação magnífica, cheia de improviso, ainda mais extraordinária por, segundo calculo, a música ter sido incluída à última hora, não fazendo parte do repertório habitual de Carter.