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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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A entrevista de Jorge Pinto — a utopia da República e os limites da imaginação política

José Aníbal Marinho Gomes, 14.11.25

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Jorge Pinto, deputado do partido LIVRE e apoiado oficialmente pelo mesmo partido, apresentou-se na SIC como o rosto de uma mudança radical, alguém que declara querer libertar Portugal das estruturas partidárias e das convenções institucionais que, segundo ele, limitam a participação cidadã. Na entrevista conduzida por Ana Patrícia Carvalho, falou de igualdade, cidadania activa, poder popular e democracia directa — conceitos que soam progressistas, sedutores e em sintonia com a agenda ecologista a que se vincula. Porém, por mais nobres que sejam essas intenções, a chefia do Estado exige algo mais do que entusiasmo transformador: exige continuidade, autoridade moral e uma capacidade de representar o país para além de ciclos eleitorais, slogans ou euforias momentâneas.

O candidato propõe uma presidência próxima do cidadão comum, sem hierarquias nem formalismos. Essa ideia poderá parecer fresca e inclusiva, mas denuncia um desconhecimento profundo do que sustenta a estabilidade política. A horizontalidade absoluta que sugere implicaria um Presidente sujeito à pressão da emoção pública e à volatilidade do momento, sem o distanciamento institucional que garante ponderação e sobriedade. A República que idealiza dependeria da improvisação do presente, da boa vontade popular e de uma constante mobilização — um modelo que pode motivar, mas dificilmente sustenta o Estado quando surgem crises, conflitos sociais ou rupturas inesperadas.

Ao contrário disso, a Monarquia Constitucional — como a que Portugal conheceu e como existe ainda em várias democracias avançadas — demonstra que liberdade e participação podem florescer dentro de uma estrutura duradoura. A Monarquia mantém viva a memória e a continuidade das instituições, serve de símbolo de unidade nacional e representa moralmente o país para além das alternâncias partidárias. Não se trata de rejeitar evolução política, mas de garantir que a mudança não apaga as raízes que seguram o edifício institucional.

Jorge Pinto identifica, com razão, uma falha sentida do regime republicano contemporâneo: o afastamento crescente entre o poder político e a sociedade. Mas a sua solução — dispersão do poder, ausência de hierarquia e modelo inteiramente participativo — ignora que a ordem não é inimiga da liberdade. A História mostra justamente o contrário: quando tudo é volátil e improvisado, são os próprios cidadãos que perdem referências, e direitos tornam-se facilmente negociáveis. A Monarquia Constitucional oferece um equilíbrio essencial: inovação com estabilidade, participação com responsabilidade, mudança com memória. É uma estrutura que protege a democracia de si própria — dos seus excessos, dos seus entusiasmos descontrolados, das suas modas passageiras.

A crítica que faz aos partidos, à política tradicional e às elites instaladas é compreensível; e o seu compromisso ambiental e social deve ser reconhecido. Contudo, a construção de um Estado sério e duradouro não se faz apenas de intenções generosas, de urgências ecológicas ou de discursos motivacionais. Exige instituições sólidas, valores que atravessem gerações e líderes que compreendam que o papel do Presidente da República não é o de activista, mas o de garante — garante da continuidade e da integridade do Estado.

Jorge Pinto é expressão sintomática de uma crise republicana mais ampla: confunde participação com legitimidade, convoca a mudança como sinónimo automático de progresso, e acredita que entusiasmo basta para substituir gravidade institucional. A República que imagina é leve — demasiado leve para sustentar o peso de uma Nação. A Monarquia Constitucional, em contraste, garante precisamente o que ele ignora: um fio condutor entre passado, presente e futuro, onde liberdade, responsabilidade e tradição não se anulam, antes se equilibram e fortalecem mutuamente.

No final da entrevista, surge como um idealista vibrante, consciente de causas urgentes e animado por um profundo desejo de justiça social e ambiental. Mas permanece sem densidade institucional, sem o sentido de permanência que o cargo exige. Um homem de ideias, mas não ainda um homem de Estado. Um discurso cheio de impulso, mas carente de raiz. E Portugal, como a sua própria História atesta, precisa mais de raiz do que de impulso — mais de instituições estáveis do que de entusiasmos passageiros; mais de solidez do que de improviso.