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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

13
Mar13

A escolha do Pastor Marco Feliciano para presidir à Comissão dos Direitos Humanos no Congresso brasileiro bem como a proposta de lei (PL 992/11) da autoria do deputado Feliciano Filho, que proíbe o uso e o sacrifício de animais em práticas de rituais religiosos no Estado de São Paulo, colocaram a nu a realidade atual brasileira em matéria de religião e política. O Brasil enquanto Estado de Direito começa paulatinamente a desaparecer dando lugar a uma teocracia evangélica. Basta olhar o Senado brasileiro, com a sua poderosa e expressiva bancada evangélica, os meios de comunicação social como a rede Record e a sua orientação teológica, e a escalada de violência evangélica sobre os cultos afro-brasileiros. 

O pior dos factos é que as declarações do Pastor Marco Feliciano não são caso isolado. Na verdade elas são parte integrante de um pensamento generalizado nos movimentos evangélicos face às religiões de matriz africana e indígena. O processo de alteridade nos casos vigentes são de extrema violência quer simbólica, quer psicológica quer mesmo física. Enquanto tais movimentos não parecem talhados para num futuro próximo passarem por um processo de reforma, o seu crescimento exponencial muito à base de um marketing aguerrido e uma teologia da salvação, da prosperidade e do demónio em cada esquina, tende a tornar o espaço público brasileiro saturado de religiosidade. À medida em que os espaços urbanos e rurais vão sendo ocupados com tais movimentos religiosos o tecido social tenderá a tornar-se pequeno fabricando tensões. Cidades, vilas e lugares serão espaços de tensões inter-religiosas, potenciadas pela missão clara de pastores de converter um determinado número de sujeitos e de fechar (nem que seja pela violência) com um número significativo de templos afro-brasileiros, a verdadeira encarnação do demónio no seu discurso teológico. 

O preocupante é que as tensões -- que tenderão a acabar em guerra civil quando os membros dos cultos afro-brasileiros atingirem um ponto de saturação e retaliarem -- não ocupam apenas o espaço público, ou melhor, elas ocupam o espaço público em função do garante de legitimidade oriundo do espaço político. Nenhum cidadão deve ser impedido de ter a sua religião. Por essa razão quem ocupa cargos políticos não deve estar interdito a ter a sua fé. O problema, naturalmente, não é esse. O cerne da questão é o plasmar de valores em nada democráticos e pacíficos em matéria de atividade política. É profundamente grave que o Pastor Feliciano tenha sido pensado (quanto mais escolhido) para tratar dos direitos humanos, uma pessoa homofóbica, racista e teocrática. No entanto, ele é apenas um dos muitos rostos que vêm conduzindo a política interna brasileira fazendo do país uma teocracia violenta. 

Há um vazio legal em matéria religiosa no Brasil, fator principal de toda esta guerra legitimidade. Seria fundamental que o Brasil observa-se a Lei da Liberdade Religiosa Portuguesa para daí extrair inúmeros ensinamentos. Se coisa há que Portugal se possa orgulhar em matéria legal a lei sobre a matéria religiosa é uma delas, sem dúvida a mais liberal da Europa e das mais liberais e coerentes do mundo. Não só garante o exercício livre da prática religiosa como contempla o abate sacrificial e a compreensão dos fenómenos religiosos num arco alargado. O problema brasileiro é o não-reconhecimento das religiões de matriz africana como "religiões" legalmente enquadradas. Tal falha gravíssima é inaceitável e anti-democrática. A partir do momento em que se promulgue uma lei de liberdade religiosa brasileira que contemple os cultos afro, ameríndios e outros como religiões oficialmente presentes no território nacional quaisquer atentados contra tais religiões serão violações à lei puníveis enquanto tal. O problema é que o Brasil deixou que a ação política evangélica ganhasse espaço em favor do poder económico subjacente. O que é inaceitável. Qualquer lei de liberdade religiosa irá colidir com esses interesses e tenderá a não ter sucesso. A bomba-relógio continua o seu tic-tac e o governo brasileiro, onde ainda é democrático, dorme um sono inaceitável.


[duplicado: http://www.joaoferreiradias.net/brasil-uma-bomba-relogio-em-materia-religiosa/]

18
Fev13

Para mim o princípio da Liberdade é o mais sagrado de todos, porque com a liberdade vem a dignidade, a autodeterminação e os garantes fundamentais como a saúde ou o ensino. Naturalmente que à liberdade não associo a ausência de regras mas antes o direito à absoluta autodeterminação, razão pela qual sou totalmente a favor da Eutanásia, verdadeira expressão de liberdade sobre si mesmo. O problema, contudo, reside na observação da ideologia em matéria de liberdade. A liberdade é, creio veemente, a-ideológica. É um princípio, não uma componente de um determinado modelo societário. A liberdade não estar sujeita a uma ideologia de governação. Os regimes autoritários não são modelos sobre a liberdade, mas desvios ideológicos.

É por defender a liberdade como um direito básico que sempre fui e serei a favor da eutanásia, do casamento gay e do aborto (não como método pós-conceptivo – tal constitui também uma alienação dos recursos, ainda que seja uma expressão de autodeterminação). Todavia, infelizmente há movimentos civis e partidos políticos que continuam a fazer da liberdade um fator ideológico.

O governo conservador de Pedro Passos Coelho, Paulo Portas, Miguel Relvas e Vitor Gaspar não está satisfeito com a liberdade trazida durante o governo de José Sócrates e ter-se-á fartado de que Portugal seja exemplo na matéria do casamento homossexual. Com a pressão da Opus Dei, através de João César das Neves, e outros segmentos ideológicos da sociedade portuguesa, PSD e CDS admitem um recuo na lei do casamento gay e do aborto. Quando a ideologia religiosa se impõe sobre a liberdade definição de uma sociedade entramos em matéria de autoritarismo. De resto não é que não estejamos já habituados. 

05
Mai09

Para sossego da clientela regimental e da letargia mental a que o português é tão atreito, o debate político está devidamente amestrado pela asfixiante agenda dominante. Só assim se justifica discrepância que encontramos nos temas abordados e debatidos nos meios tradicionais e na blogosfera.
Dou como exemplo a malquista “questão do regime”: a poucos meses do inicio das festividades do Centenário República, parece-me muito estranho e lamentável que esse relevante debate que encontramos amiúde em grandes blogues nacionais como o Insurgente, Portugal Contemporâneo,  o Corta-fitas e o Combustões (só para mencionar os mais populares e artigos mais recentes), não transpareça minimamente nos meios de comunicação tradicionais.

 

24
Abr09

Esta é uma reportagem especial feita pelo Jornal Portal Lisboa, da responsabilidade da jornalista Joana Domingues. Pedro Marques Lopes, Rodrigo Moita de Deus, Sara Medina, Adolfo Mesquita Nunes, Paulo Rosário e Ana Raquel Paradela - nenhum deles tem uma memória política do 25 de Abril, nenhum deles é de esquerda e todos eles têm uma visão diferente sobre a revolução dos cravos.

 

Ficam algumas frases para abrir o apetite:

 

 

Para Rodrigo Moita de Deus -“A ideia de ter defraudado as expectativas de Otelo Saraiva de Carvalho ou de Mário Tomé é algo que esta geração se pode orgulhar sem qualquer pudor”, embora acrescente com humor quando questionado sobre o interesse dos jovens por esta data – “Penso que os jovens estão especialmente desiludidos com o 25 de Abril. Este ano o feriado calha num Sábado.”

 

Pedro Marques Lopes

 

“Eu tinha 8 anos nessa data, era muito novo, mas a sensação que eu tive foi que estava a acontecer uma coisa fantástica. Que se tinha aberto uma janela qualquer, existia a sensação de que tudo poderia ser possível. Eu tenho um acontecimento que é muito marcante nesse dia. Eu vivia num terceiro andar e a minha família tinha uns amigos que eram nossos vizinhos. -relembra Pedro Marques Lopes- Infelizmente, a pessoa de quem vou falar já morreu. Esse homem estava exilado na Argélia. Era um homem ligado ao partido comunista português, nada mais distante do que a minha família era e do que hoje sou. Quando se deu o 25 de Abril eu lembro-me que a Isabel que era a mulher do Zé António que já morreu chegou a minha casa a chorar e a dizer: “O Zé António já pode regressar!”. E aquilo marcou-me, era o sinal que algo novo estava a acontecer.”
 

Adolfo Mesquita Nunes

 

“A desilusão com a democracia não constitui qualquer problema enquanto não corresponder à vontade de substituição da democracia por qualquer outro sistema que mitigue ainda mais as liberdades individuais. O que me parece mais preocupante é que os actores políticos tendam a reduzir o conceito de democracia ao socialismo mais ou menos evidente, afastando para as margens qualquer tentativa de superação desta crise que não passe pelo reforço dos poderes estaduais – os mesmos que falharam clamorosamente nos últimos anos.” – afirma Adolfo Mesquita Nunes acrescentando ainda a sua opinião sobre a necessidade de um novo Abril e de uma nova arma que não os cravos – “Existe sempre necessidade de intensificar a protecção das liberdades individuais sobretudo num tempo em que a sua mitigação ironicamente se faz em nome da democracia. E os cravos, ou qualquer outra flor, só não serão suficientes para essa intensificação se a classe política se esquecer do residual papel que lhe deve estar confiado.”

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