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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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República do Circo: Quando o Presidente Promete Vinhos, Ferraris… e Amor

José Aníbal Marinho Gomes, 17.11.25

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Na mais recente entrevista à SIC Notícias, Manuel João Vieira, músico, artista performativo e fundador dos irreverentes Ena Pá 2000 (responsáveis por algumas das mais provocadoras sátiras culturais do país), mostrou que a política portuguesa consegue sempre ultrapassar os limites da imaginação.

Munido de mais de 7.500 assinaturas e de um programa que faria corar qualquer guionista de comédia absurda, o pré-candidato promete vinho canalizado em todas as casas, um Ferrari para cada português, patinadoras russas para uns e dançarinos cubanos para outras. Tudo em nome do afecto — porque, segundo ele, aquilo que verdadeiramente oferece é amor. E para coroar a epopeia, declara: “Só desisto se for eleito.” Eis o mais recente milagre da República Portuguesa: transformar uma candidatura presidencial no maior espectáculo político do ano.

Este caso tão hilariante quanto preocupante revela uma verdade desconcertante. Nas repúblicas onde o Chefe de Estado é eleito por sufrágio directo, a chefia do Estado pode ser disputada por qualquer cidadão que reúna as assinaturas necessárias e uma boa dose de disposição para o protagonismo. A democracia abre as portas — e o circo instala-se.

Manuel João Vieira, com o seu humor de contracultura, mostra que o modelo republicano pode facilmente perder a gravidade que um Chefe de Estado deveria encarnar. Não está em causa a democracia — que também se encontra plenamente nas monarquias constitucionais — mas sim um sistema que transforma a mais alta magistratura da Nação num palco de espectáculo e frivolidade.

Se o processo eleitoral acolhe com entusiasmo promessas surreais e programas que roçam o disparate, então o problema não é o candidato, mas sim o mecanismo que o legitima. O absurdo, quando se torna viável, deixa de ser brincadeira e transforma-se em sintoma.

É precisamente neste contraste que a monarquia aparece como uma alternativa que, longe de ser arcaica, se revela de surpreendente sobriedade. Num sistema monárquico constitucional, o Chefe de Estado não precisa de recorrer a promessas extravagantes para conquistar popularidade, nem depende da espuma das redes sociais ou da viralidade momentânea. A sua função assenta na continuidade histórica, na neutralidade perante os partidos e na representação da unidade nacional. Enquanto um Presidente da República é empurrado para campanhas onde o espectáculo se sobrepõe à substância, um monarca cumpre a sua missão sem ter de transformar a dignidade do Estado num número de entretenimento.

A monarquia não precisaria de Ferraris para ganhar afeição pública, nem de canalizar vinho para mostrar proximidade ao povo. Existe para ser referência institucional, e não fenómeno de feira política. É um cargo que não depende da ilusão: depende da estabilidade. Uma estabilidade que a república se mostra incapaz de garantir quando qualquer eleição pode converter o Palácio de Belém num palco de humor que arrisca tornar-se perigoso. Enquanto na república se escolhe sempre alguém com algo a provar — seja por ambição, por ego ou, como neste caso, por sátira —, na monarquia o Chefe de Estado simplesmente representa o país de forma contínua, sem necessidade de cativar eleitores com absurdos.

Não que restaurar a monarquia seja processo simples. Há resistências ideológicas, entraves constitucionais e um hábito republicano já estabelecido. Mas há também um problema cada vez mais evidente: o regime actual já não consegue proteger a seriedade institucional que o cargo exige. A entrevista de Vieira funciona como um espelho cruel: se o país hoje pode ter um candidato presidencial cuja principal arma política é o humor, amanhã poderá ter um Presidente eleito da mesma escola — e aí já não haverá vinho nem Ferrari que disfarce o embaraço.

Com ou sem intenção, Manuel João Vieira prestou um grande serviço à discussão pública: ao ridicularizar o modelo presidencialista português, demonstrou o quão exposta está a república à banalização da autoridade do Estado. Lembrou-nos que, no actual sistema, a fronteira entre a política e o espectáculo é tão ténue que um passo em falso pode transformar o Chefe de Estado numa figura de riso nacional. E, convenhamos, quando a política se torna palhaçada, o país é que paga o bilhete da entrada.

Talvez esteja na hora de Portugal reflectir sobre que tipo de liderança quer no topo do Estado. Talvez devamos escolher entre o reinado da dignidade e o reinado do meme. E talvez a piada tenha chegado ao fim. Porque rir do Presidente é perigoso quando ele já nem precisa de estar lá para nos fazer rir.

 

A entrevista de João Cotrim de Figueiredo – o liberal que pediu ordem à desordem

José Aníbal Marinho Gomes, 12.11.25

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Há entrevistas que são um retrato fiel do entrevistado e outras que, sem querer, são um retrato do país. A de João Cotrim de Figueiredo à SIC, conduzida por Ana Patrícia Carvalho, foi as duas coisas. O antigo líder da Iniciativa Liberal falou com o rigor que lhe é próprio, com a calma de quem confunde serenidade com razão, e com a convicção de que a República pode ser reformada por dentro, como se a casa se pudesse arrumar sem tirar os alicerces. O resultado foi, portanto, uma conversa limpa, civilizada e lúcida — mas, como quase tudo o que é republicano, também um pouco ingénua.

Cotrim de Figueiredo acredita que basta vontade e competência para regenerar o Estado. Falou de transparência, de mérito, de liberdade, e de um país onde o cidadão é o centro da decisão. Tudo muito digno, e até nobre, não fosse o pequeno detalhe de estarmos num regime que trata a responsabilidade como uma abstração e a continuidade como um capricho. O liberalismo de Cotrim de Figueiredo é moralmente sério, mas estruturalmente ingénuo: quer instituições firmes numa ordem que vive de transições, quer estabilidade onde reina a alternância, e pede ao sufrágio a coerência que só a herança pode garantir.

Em vários momentos da entrevista, o candidato descreveu, sem o perceber, as virtudes de uma monarquia constitucional. Quando falou na necessidade de um chefe de Estado que não dependa de partidos, que se coloque acima da contenda política e que una o país sem o governar, falava, de facto, do que já tivemos — e perdemos. Portugal conheceu esse equilíbrio durante a monarquia constitucional: um rei que reinava, mas não governava; um poder moderador que garantia a continuidade e a dignidade das instituições, mesmo nos períodos de turbulência política. Foi essa ordem, construída lentamente ao longo do século XIX, que um golpe de Estado destruiu em 1910, precedido pelo crime político mais grave da nossa história — o regicídio de 1908, onde se matou não apenas um rei, mas a própria ideia de legitimidade. Desde então, a República tem tentado imitar, sem o conseguir, a estabilidade que nasceu dessa tradição.

Quando insistiu na importância de uma presidência de estabilidade e de princípios, descreveu precisamente aquilo que só a permanência dinástica podia assegurar. E quando evocou a ideia de uma “democracia adulta”, esqueceu-se de que a maturidade política de um povo não nasce do voto, mas da continuidade moral das suas instituições — aquela continuidade que a República, na sua ânsia de se afirmar moderna, trocou por um perpétuo ensaio de reinvenção.

O seu discurso, em tudo elegante e contido, teve momentos de verdadeira lucidez. Mas também alguns de uma certa secura liberal, onde o país real — o das pequenas esperanças, das hesitações, dos afetos — desaparecia atrás de gráficos e percentagens. Cotrim de Figueiredo tem o mérito de pensar o Estado como um engenheiro pensa uma ponte: quer solidez, eficiência e desenho limpo. Mas a política, sobretudo a presidencial, exige mais do que engenharia — exige alma. E a alma, ao contrário das pontes, não se calcula.

Ainda assim, há em Cotrim de Figueiredo um rigor que falta aos outros. Não houve na entrevista nem demagogia nem fingimento; apenas a convicção, talvez ingénua, de que a razão basta. E nisso, convenhamos, já é um avanço em relação à retórica inflamada de Ventura, à compostura performativa de Marques Mendes ou à exibição quase teatral de Gouveia e Melo — esse mesmo que, numa entrevista recente, achou graça a ironizar com os monárquicos, esquecendo que a coroa, mesmo ausente, pesa mais do que a farda. Cotrim de Figueiredo, pelo menos, respeita a gravidade das ideias.

Mas se o rigor o distingue desses, falta-lhe ainda a densidade que António José Seguro demonstrou — aquele raro sentido de Estado que não vem das sondagens, mas da consciência do cargo. Cotrim de Figueiredo é lúcido, mas não grave; preparado, mas não fundado. António José Seguro compreendeu a liturgia da presidência, Cotrim fala-lhe como se fosse um conselho de administração. Ambos são sérios, mas só um parece compreender o peso simbólico do poder.

O problema é que o país que o ouve já não acredita na gravidade de nada. Vive de promessas de mudança e desconfia da estabilidade como se fosse um vício. Por isso, o liberal que pede ordem à desordem acaba inevitavelmente a parecer um estrangeiro no próprio regime. A sua visão é a de quem quer dar à República a dignidade que ela não tem — e, paradoxalmente, é isso que o aproxima da tradição monárquica, sem nunca o admitir.

No fim, ficou uma impressão curiosa: a de um homem que quer restaurar o Estado, mas sem restaurar a ideia. Que fala de liberdade com sinceridade, mas esquece que a liberdade sem continuidade é apenas instinto. Que quer moralidade sem hierarquia, dever sem tradição, permanência sem tempo. Um idealista, portanto — e dos raros.

Talvez seja esse o destino dos melhores republicanos: descobrir, sem o admitir, que a verdadeira liberdade é filha da continuidade. Cotrim de Figueiredo parece querer salvar a República de si mesma — e, nesse gesto, acaba por lembrar que só há futuro quando há herança.

Ventura e os Três Salazares: Uma República de Fantasmas

José Aníbal Marinho Gomes, 27.10.25

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A entrevista de André Ventura a Clara de Sousa, transmitida na SIC, foi um curioso retrato daquilo em que a política portuguesa se tornou: um palco de afirmações inflamadas, desprovidas de substância histórica e mergulhadas num sentimentalismo autoritário mal disfarçado de patriotismo. Ventura, que se apresenta como defensor de uma ordem perdida, acabou por revelar, uma vez mais, que não compreende o significado da palavra ordem — nem no sentido moral, nem no institucional.

Quando, com ar grave, declarou que “não era preciso um Salazar, eram precisos três Salazares para pôr isto na ordem”, o país inteiro ouviu um eco distante de tempos sombrios. Mas o mais inquietante é que o próprio Ventura, que se diz “democrata”, parece ignorar que o salazarismo foi precisamente o regime que desfez a última esperança de restauração monárquica em Portugal. É uma ironia que um homem que se proclama defensor da “tradição” invoque o nome daquele que fez da República uma prisão dourada para os monárquicos — e que, diferentemente de Franco em Espanha, nunca quis que o Rei regressasse.

Salazar, com a sua frieza de economista e a sua prudência de seminarista, compreendeu que um Rei seria, por natureza, um poder mais legítimo do que ele próprio. Por isso, manteve o trono vazio, mas sob vigilância, como quem guarda uma relíquia perigosa. Franco, pelo contrário, preparou a restauração, educou o Príncipe e restituiu à Espanha a continuidade dinástica. Em Portugal, o Estado Novo acabou por trair a confiança dos monárquicos que, nas primeiras décadas do século XX, haviam visto em Salazar um possível restaurador. Mas o ditador nunca quis Rei: quis apenas silêncio. E esse silêncio custou a Portugal a sua continuidade histórica.

Enquanto em Espanha a prudência de Franco preparava o regresso da Coroa, em Portugal a obstinação de Salazar cavava um fosso entre o Estado e a História. O resultado foi um país órfão da sua tradição, habituado à obediência, mas incapaz de reverência — uma diferença que Ventura, com o seu autoritarismo ruidoso, parece também incapaz de compreender.

Durante a entrevista, Clara de Sousa, com a serenidade que o jornalismo exige, tentou por diversas vezes arrancar de Ventura uma resposta clara quanto ao papel que pretende desempenhar caso venha a ser eleito Presidente da República. O resultado foi um exercício de contorcionismo político: ora falava como chefe de governo, ora como líder partidário, ora como árbitro nacional — confundindo constantemente as funções de Presidente com as de Primeiro-Ministro. Disse querer “pôr o país na ordem”, “fazer reformas”, “mudar o sistema”, e “impor autoridade” — tarefas que pertencem, por essência, ao Governo, não à chefia de Estado.

Ora, um verdadeiro Chefe de Estado — e aqui falo como monárquico — não governa: reina. Representa, acima das facções e das querelas, a unidade da Nação. É o símbolo da continuidade, não o gestor das circunstâncias. Ventura, pelo contrário, quer ser tudo: Rei sem coroa, Primeiro-Ministro sem Parlamento, e Presidente sem República. A sua ambição parece mais próxima do caudilhismo ibérico do que da sobriedade régia portuguesa.

Talvez o mais revelador momento da entrevista tenha sido quando, questionado sobre o 25 de Abril, se demarcou da Revolução e disse que “não celebrará o regime que destruiu a autoridade em Portugal”. É curioso ouvir isto de alguém que se candidata à Presidência da República — isto é, à mais alta magistratura do regime nascido precisamente desse 25 de Abril. O que Ventura quer, ao que tudo indica, é usufruir das instituições republicanas sem aceitá-las. É como quem entra num mosteiro para pregar contra Deus.

Mas a incoerência maior não está apenas nas palavras, está no espírito. Um Rei, mesmo num sistema constitucional, sabe que o seu dever é ser o pai de todos os seus súbditos — dos que o amam e dos que o detestam. Ventura, em contrapartida, não quer ser o Presidente de todos os portugueses; quer ser o comandante dos seus. Divide o país entre “bons” e “maus”, “patriotas” e “traidores”, “puros” e “corruptos” — uma velha táctica dos aprendizes de tirano. Onde um Rei procura conciliar, Ventura procura combater; onde um Rei simboliza a continuidade, ele encarna a ruptura; onde um Rei reina com discrição, ele agita com estrépito.

Clara de Sousa, talvez consciente deste paradoxo, tentou expô-lo com subtileza. Perguntou-lhe, por exemplo, se acreditava que a força resolveria os problemas de Portugal. Ventura respondeu com aquele sorriso estudado que já se tornou o seu emblema mediático: “Não é força, é autoridade.” Mas a diferença entre ambas é apenas semântica quando dita por quem sonha com “três Salazares”. E assim, a entrevista transformou-se num espelho da República actual: um espaço onde o populismo confunde vigor com virtude, e onde a retórica da “ordem” mascara o vazio de ideias.

Os monárquicos, que há muito aprenderam a distinguir autoridade de autoritarismo, não podem deixar de ver nesta retórica um eco de tragédias passadas. Salazar prometeu estabilidade e entregou estagnação; prometeu moralidade e deixou um país miserável, amputado de futuro e de esperança. Ventura repete as promessas, mas ignora as consequências. E se Salazar, com toda a sua inteligência e frieza, soube manipular os símbolos nacionais, Ventura limita-se a usá-los como adereços de campanha.

No fim da entrevista, ficou claro que André Ventura não deseja reformar o regime, mas substituí-lo por uma caricatura de si mesmo. A sua “República de três Salazares” é o espelho distorcido de um país cansado, que já não acredita nem na República nem, lamentavelmente, na Democracia — valores que, bem entendidos, nunca foram incompatíveis com a ideia monárquica —, mas que também esqueceu a serenidade que só uma Monarquia pode oferece.

E é talvez esse o maior drama: Portugal é hoje um reino sem Rei e uma República sem rumo. Ventura, com o seu tom inflamado e o seu olhar justiceiro, não é a solução — é apenas o sintoma. E enquanto a política continuar a produzir fantasmas em vez de estadistas, a nossa velha Pátria continuará à procura de si mesma, perdida entre o eco de um ditador e a sombra de um trono vazio.

A entrevista de António José Seguro: isenção proclamada e a ausência do Rei

José Aníbal Marinho Gomes, 25.10.25

Esta segunda-feira, António José Seguro concedeu uma longa entrevista à jornalista a Clara de Sousa. Foi uma conversa pausada, mais sóbria e menos emotiva do que as de outros candidatos, marcada pela tentativa constante de afirmar uma imagem de equilíbrio e de suprapartidarismo. Seguro quis apresentar-se como um homem acima dos partidos, um candidato de todos os portugueses, e não apenas do Partido Socialista de onde provém.

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Como monárquico, observo estas entrevistas com um distanciamento peculiar. Não voto nas presidenciais, pois considero que a figura de Chefe de Estado, em Portugal, não pode ser plenamente representada por um Presidente eleito, sujeito a campanhas, alianças e cálculos políticos. O verdadeiro Chefe de Estado é o Rei — símbolo da continuidade nacional e garante da unidade. Ainda assim, é sempre útil ver de que modo cada candidato entende o exercício do cargo, o peso da História e a sua relação com os símbolos do País.

A entrevista de António José Seguro revelou um candidato mais articulado do que Henrique Gouveia e Melo e mais ponderado do que Luís Marques Mendes. Mostrou domínio dos temas e serenidade institucional. Porém, do ponto de vista monárquico, há um vazio de fundo que não pode passar despercebido: nem uma única vez foi mencionada a monarquia, e Seguro não se antecipou ao silêncio da entrevistadora para o fazer. Logo no início, insistiu na sua isenção, afirmando que a sua candidatura é suprapartidária e que pretende ser o Presidente de todos os portugueses. A frase soa bem, mas é uma daquelas declarações que, ditas com convicção, escondem uma impossibilidade prática. A isenção plena não se proclama — encarna-se. E só o Rei a encarna verdadeiramente.

Um Presidente, por mais íntegro e bem-intencionado que seja, é produto do sistema eleitoral e dos partidos que o sustentam. Um Rei, pelo contrário, não deve a sua posição a ninguém, e é justamente por isso que pode representar todos. A neutralidade real não depende de votos nem de mandatos. É anterior à política, e por isso mesmo está acima dela. Ao contrário do que sucedeu nas entrevistas de Gouveia e Melo e de Marques Mendes — em que, ainda que apenas no final, foi tocada a questão monárquica —, Seguro deixou o tema completamente de fora. Clara de Sousa não o introduziu, e o candidato não aproveitou a oportunidade para o fazer. Poderia ter dito algo de tão simples quanto:

«Serei Presidente de todos os portugueses, dos monárquicos e dos republicanos.»

Mas não o fez.

Essa ausência é reveladora. Denota uma visão restrita da Chefia de Estado — limitada à função política e administrativa, sem sensibilidade para a dimensão simbólica da Nação. Um candidato verdadeiramente consciente da história portuguesa reconheceria que a monarquia continua a representar, para muitos, o arquétipo da imparcialidade e da continuidade do Estado. Ao omitir completamente esse universo, Seguro confirma-se como produto integral da república: um homem de instituições, mas sem ligação à raiz simbólica do poder.

No plano temático, a entrevista decorreu de modo previsível. Seguro falou sobre imigração, afirmando ser fundamental disciplinar a imigração para que o país cresça economicamente; abordou a aplicação da Constituição, sublinhando que não há portugueses de primeira nem de segunda e que não tenciona ser apenas um notário, prometendo fazer perguntas e exigências. Falou ainda da necessidade de reformas e de criação de riqueza — «não podemos andar a brincar aos governos» — e rematou com uma nota pessoal: «Podia ficar sentado no sofá a gozar a praia da Foz do Arelho ou as minhas vinhas em Penamacor, mas julgo poder dar um contributo ao país. Sinto-me uma pessoa abençoada.»

São declarações de alguém que procura equilíbrio e autoridade. Contudo, falta-lhes elevação. Tudo é dito no registo da gestão e da funcionalidade, sem transcendência. Fala-se da Constituição, mas não da História; da governação, mas não da Pátria. Nenhuma palavra sobre a ideia de Nação, sobre os símbolos que unem o povo para além da política. Um Rei, se falasse, não precisaria de prometer isenção — representá-la-ia naturalmente.

Comparado com outros candidatos, Seguro surge mais sereno e institucional. Gouveia e Melo revelou-se mais emocional e menos preparado; Marques Mendes, embora experiente, preferiu a prudência calculada, o discurso neutro, quase burocrático. Seguro, entre ambos, destaca-se pela coerência e pelo domínio da linguagem institucional. Mas, como todos, permanece prisioneiro da limitação republicana: pode desejar representar todos os portugueses, mas não consegue encarnar a neutralidade que só o Rei possui.

Convém recordar, a este propósito, que a monarquia não é uma recordação pitoresca, nem um capricho sentimental. É uma forma histórica de continuidade. Durante séculos, os Reis de Portugal foram a encarnação da unidade nacional e da estabilidade política. D. João IV restaurou a independência; D. Pedro V simbolizou a modernidade e o dever cívico; D. Carlos manteve o sentido de Estado num tempo de crise. Mesmo no exílio, a Casa Real continuou a representar uma ligação viva entre o passado e o futuro do País.

A república, pelo contrário, substituiu a legitimidade histórica por uma legitimidade eleitoral, sempre efémera e sujeita à erosão dos partidos. O Rei não é eleito, não governa, não precisa de agradar — representa. A sua autoridade não vem de uma maioria momentânea, mas da própria continuidade da Nação. Seguro, que gosta de falar em isenção, poderia ter reconhecido esta diferença simbólica, sem pôr em causa o regime. Bastar-lhe-ia ter admitido que a Chefia de Estado deve ser de todos — inclusive dos monárquicos. Não o fez. E o seu silêncio não é inocente: revela a incapacidade da república em reconhecer a dimensão espiritual e histórica da Nação que pretende representar.

As entrevistas desta campanha têm mostrado, uma vez mais, a fragilidade da concepção republicana do poder. O Presidente é, inevitavelmente, um homem do seu tempo, das suas alianças, dos seus compromissos. A figura do Rei, ao contrário, é a permanência da Pátria no tempo. Representa a continuidade que nenhum sufrágio pode garantir. Seguro fala de neutralidade, mas a sua neutralidade é prometida, não vivida. A do Rei é natural e silenciosa, porque não precisa de se justificar. É a neutralidade que vem da linhagem, da tradição e do dever. É, em suma, o contrário da política.

A entrevista de António José Seguro foi sólida, ponderada e tecnicamente competente. Mas, vista de uma perspectiva monárquica, ficou aquém da verdadeira ideia de Chefia de Estado. Faltou-lhe verticalidade, consciência histórica e sentido simbólico. Falou-se de Portugal, mas não da Nação; falou-se de governo, mas não de realeza. Seguro esteve bem enquanto candidato — mas o trono da imparcialidade continua vazio.

A Incoerência do Apoio do PPM a uma Candidatura Presidencial

José Aníbal Marinho Gomes, 27.12.24

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O recente apoio do Partido Popular Monárquico (PPM) à potencial candidatura do Almirante Gouveia e Melo às eleições presidenciais de 2026 suscita um debate profundo sobre a coerência ideológica e a fidelidade aos princípios fundadores do partido. Como antigo filiado do PPM desde 1974, partido em que ocupei diversos cargos a nível nacional, designadamente o de Presidente da Comissão Executiva Nacional e membro da Comissão Política Nacional, sinto-me compelido a expressar a minha discordância com esta decisão inédita na história do partido.

Importa também referir que, em 1997, abandonei e desfiliei-me deste partido, por considerar que, apesar de o PPM ter desmitificado a ideia de Monarquia após o 25 de Abril, não fazia sentido continuar a existir um partido monárquico. Não apenas pelo facto de a monarquia ser suprapartidária, mas também porque a grande maioria dos seus dirigentes históricos abandonou o partido pelos mesmos motivos. No entanto, continuo a acompanhar com interesse o seu percurso.

O PPM, desde a sua fundação em 1974 por Gonçalo Ribeiro Telles, Henrique Barrilaro Ruas e outros destacados monárquicos, tem como objectivo primordial a restauração da monarquia em Portugal. Este princípio norteador distingue o partido no panorama político nacional, conferindo-lhe uma identidade única e uma missão clara. O apoio a uma candidatura presidencial republicana parece, portanto, contradizer a essência do partido, que sempre se posicionou em defesa de um regime monárquico.

O PPM apresentou como justificação para este apoio a integridade pessoal e a capacidade de liderança de Gouveia e Melo, destacando, entre outros, o seu papel durante a pandemia de COVID-19. Independentemente de o Almirante possuir ou não méritos individuais, o argumento de apoiar um candidato com base apenas nas suas qualidades pessoais não se sustenta dentro do contexto de um partido que defende a monarquia. Um partido como o PPM deve preservar os seus princípios acima de tudo, o que implica evitar apoiar candidaturas que reforcem o sistema republicano, independentemente das virtudes de qualquer candidato.

Outro argumento apresentado é a falta de alternativas viáveis que reflitam os valores do PPM. Este ponto demonstra uma falta de visão estratégica, já que a resposta adequada do partido deveria ser trabalhar para promover a discussão sobre a relevância da monarquia parlamentar em Portugal, em vez de se aliar a um sistema que é, em essência, antagónico à sua razão de ser. O apoio a um candidato presidencial é uma aceitação implícita da República como modelo de governação, algo que compromete a mensagem central do partido e aliena os seus apoiantes tradicionais.

Por fim, um outro argumento apresentado, é que esta decisão visa dar visibilidade ao PPM e reforçar a sua relevância no panorama político nacional. Embora seja compreensível que o partido queira ganhar protagonismo, isso não deve ser feito à custa dos seus ideais fundadores. Sacrificar a coerência ideológica em troca de visibilidade política é um erro que compromete irremediavelmente a credibilidade do partido e a sua missão a longo prazo.

Esta decisão inédita no PPM representa uma clara ruptura com a sua tradição de não se envolver diretamente em eleições presidenciais. Tal atitude pode ser vista como uma concessão aos valores republicanos e um abandono dos objectivos originais do partido. Além disso, o apoio a uma candidatura presidencial republicana pode confundir os eleitores e desvirtuar a identidade do partido, levando a questionamentos sobre o seu compromisso com a causa monárquica.

É fundamental que o PPM reavalie esta decisão e volte a concentrar-se na sua missão central: a defesa e promoção da monarquia parlamentar como uma alternativa credível para Portugal. Esta é a melhor forma de honrar a memória dos seus fundadores e de respeitar todos aqueles que, ao longo das décadas, dedicaram o seu tempo e esforço à causa monárquica.

O apoio a Gouveia e Melo, por mais bem-intencionado que seja, é um desvio preocupante do caminho traçado pelo PPM desde a sua criação. O partido deve voltar a ser fiel aos valores que lhe conferem identidade, em vez de procurar relevância através de alianças que enfraquecem a sua posição ideológica.

 

* O autor não escreve segundo o acordo ortográfico de 1990.

Verdade de la palisse

José Aníbal Marinho Gomes, 21.01.21

Vitorino Silva, candidato ao próximo leilão eleitoral, referiu ontem num encontro por videoconferência com jovens, que as candidaturas deveriam ser independentes e que os partidos não deviam meter “bedelho” nestas eleições, uma vez que o candidato vencedor vai ficar a dever favores a essas estruturas e não vão ser livres, por estarem hipotecados aos partidos.

Branco, mais branco não há!

Como temos vindo desde sempre a defender, o Rei é o único chefe de Estado supra-partidário, independente de partidos e interesses e como tal pode moderar de uma forma imparcial todos os poderes existentes, porque não é refém de partidos políticos, grupos económicos ou grupos de pressão. Não é refém de NINGUÉM! Contrariamente ao que acontece nas repúblicas, onde, não raras vezes, se assiste a pressões dos governos para que o chefe de estado (da mesma cor política) aprove ou compactue com determinadas posições.

image.jpgA representatividade do povo faz-se apenas através do rei, que é o representante máximo dos cidadãos de um país, por isso a monarquia gera estabilidade nas nações criando nos cidadãos a identidade nacional.

VIVA O REI!

 

A acutilância de José Paulo Fafe

Pedro Quartin Graça, 24.12.10

"O meu (não) voto

NUNCA, ATÉ hoje, deixei de votar. Neste, naquele, no outro, com maior ou menor convicção, em branco, mas sempre (sem excepção) votei... Mais: sempre considerei as eleições presidenciais um pouco como "a mãe de todas as eleições", aquelas em que mais obrigado me sentia em comparecer e expressar o meu voto. Votei Eanes contra Soares Carneiro; Salgado Zenha na primeira volta das eleições de 1985, contra Soares, Pintasilgo e Freitas do Amaral; branco na segunda volta, quando Soares foi pela primeira vez eleito; branco, cinco anos mais tarde; Cavaco quando este perdeu para Sampaio; branco na reeleição deste último, em 2001; e Soares há cinco anos, preferindo-o obviamente a Cavaco e a Alegre e talvez até em jeito de alguma "revolta" pela forma como vi o País tratar alguém a quem - quer se queira quer não... - devemos alguma coisa.

Vem tudo isto a propósito das próximas eleições, quando a 23 de Janeiro, se enfrentarem nas urnas Cavaco Silva, Manuel Alegre, Fernando Nobre, Francisco Lopes e um tal de Defensor de Moura. Aí, pela primeira vez na minha vida, vou abster-me, não vou sequer exercer o meu direito de voto... E faço-o na iminência da vitória de Cavaco, pelo seu desempenho nos últimos anos, tanto enquanto Presidente, quanto auto-intitulada "referência moral" do nosso País (para mim, para ser referência de qualquer coisa, porventura sê-lo-á lá do Poço de Boliqueime ou da Travessa do Possolo...) e onde colocou descarada e ardilosamente os seus interesses e ambições políticos à frente do compromisso que possuía perante quem nele confiou. Eu sou um dos que "torce" para que na noite do dia 23 de Janeiro, o prof. Cavaco não possua a legitimidade de se arvorar em "presidente de todos os portugueses", sou um dos que anseia que mais de metade dos portugueses com capacidade eleitoral (e muitos deles naturais eleitores do próprio Cavaco) saibam desta forma expressar inequivocamente o seu desagrado quanto à actuação matreira de quem, objectivamente, defraudou quem nele depositou alguma esperança."

 

In: José Paulo Fafe