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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

06
Ago13

George Steiner, na sua conferência em terra das tulipas, afirmou «A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo». A acrescentar a tais lugares, recordo-me dos marcantes cafés/pubs de Edimburgo e Dublin, coloridos, clássicos, intemporais e com enorme encanto, que albergam todas as gerações, ao final de cada dia, constituindo-se espaços de socialização por excelência, marcas incontornáveis da vida da cidade, onde se vive, respira urbanismo e momentos de dolce fare niente. A Europa é, pois, feita de espaços culturais, de cafés,livrarias e bibliotecas. A Europa das tertúlias, do teatro, da ópera, dos concertos, dos lounge

A História da Europa é tão feita de momentos - das guerras, dos acordos, da moeda única, dos impérios, da Idade Média, do Iluminismo - quanto de espaços. Lugares múltiplos de partilha, comunhão, diálogos, discórdias, conspirações, prazeres vários. Espaços das letras, da música, do cinema. Do Arc de Triomphe, da Pariser PlatzLa RamblaPiazza Navona, e tantos outros.

 

[também ali]

01
Jan13

Caros amigos,

 

Foi com honra e orgulho que aceitei o convite do nosso amigo Pedro Quartin Graça, para partilhar alguns textos e experiências que tenho escrito e vivido nestes últimos tempos, num País à beira mar arruinado. Tenho dedicado quase em exclusividade todas as minhas energias a um assunto que a todos concerne e preocupa... o mau estado do Património Edificado, tendo visitado e fotografado perto de um milhar de ruínas em solo nacional...

O "Projecto Ruin'Arte", que iniciei em 2008, fez-me enriquecer em todos os sentidos (excepto o financeiro), muitas pessoas conheci, locais e suas histórias, e acima de tudo, fez-me pensar e sentir de uma forma diferente e muito mais profunda.

 

Por sentido civico e patriotismo, irei continuar esta demanda, com o ritmo que a vida me permitir, sem desisitir.

 

Este meu primeiro "post", é uma dissertação sobre uma das maiores lacunas que nos tem atrasado como povo civilizado, e pertendo alertar todos os portugueses (inclusive os governantes), para esta questão que tem sido tratada com desdém há já muitas gerações: A CULTURA!
A Cultura é em si, um termo demasiado vasto para entendido como um simples conceito, e pode ser sucintamente definido como a acumulação de conhecimento e experiências... mas não é apenas isso, é muito mais.
Podemos falar sobre cultura pessoal, cultura geral, cultura popular, cultura de um País... mas afinal o que é cultura e que falta nos faz?? Podemos viver sem ela?? Sem dúvida, mas leva-nos todos os dias à ruína...
A sua etimologia transporta-nos à Roma antiga, onde esta ilustre palavra "colere" significava literalmente cultivar, no sentido fazer de crescer, levando-me a concluir que a Cultura é uma coisa que nos torna maiores como seres humanos, pois faz-nos crescer.
É precisamente este conceito que pretendo aqui abordar, o tornamos-nos melhores sempre que crescemos espiritualmente e intelectualmente, pois "os Homens não se medem aos palmos", e não é só em altura que se pode crescer.
É como que se nos valorizássemos cada vez que adquirimos conhecimentos, ficamos muito mais ricos do que se nos saísse um "totomilhões", porque esse tipo de riqueza é efémera e não a levamos quando partimos para outro plano...
A Cultura dá-nos sensibilidade para apreciar a vida de uma forma muito mais requintada, pois um boi a olhar para um palácio é sempre uma cena lamentável... e quantas vezes fazemos nós esse papel?
A Cultura não é apenas uma palavra cara que nos extrapola para um mundo de erudição, onde Professores e Doutores trocam diplomas em cenários solenes com cerimónias encantadas e requintadas.
A Cultura está ao alcance de todos nós e é movida pela curiosidade. Como é evidente não basta ser curioso, temos de satisfazer também a curiosidade e procurar respostas a todas as questões que nos surjam, só assim poderemos compreender a própria vida.
Compreender é  perceber mais do que o óbvio, é ver mais além e conseguir conjugar os conhecimentos com a realidade para chegar a uma solução... há sempre novas soluções e só as podemos equacionar se tivermos conhecimentos... isto é Cultura!
Num momento de profunda crise financeira que todos nós atravessamos, podemos perguntar até para que nos serve a Cultura, se com ela não satisfazemos os nossos apetites primários, mas se a soubéssemos aplicar poderiam ser evitadas muitas crises e sair delas com estilo... pois o passado deu-nos valiosas lições.
Tudo aquilo que estamos neste momento a passar como nação, não é nada comparado com muitos outros episódios que já nos maltrataram e muitas mazelas deixaram, tais como várias epidemias, invasões e guerras civis, perda de soberania e de privilégios, autênticas derrotas financeiras, bélicas, sociais e morais...
Felizmente este povo de "alma lusitana" nunca sucumbiu e sempre conseguiu ultrapassar todas as dificuldades, e ainda hoje resiste a uma furiosa intempérie que o castiga diariamente... será isso uma forma de Cultura? A nossa remediada Cultura é uma Cultura do "desenrasca", é a verdadeira "Coltura" que todos os dias nos conduz a uma  eminente ruína.
É essa "Coltura" a verdadeira culpada de toda a nossa crise social, pois se valorizássemos os nossos conhecimentos e património, muitas aberrações teriam sido evitadas e teriam sido estabelecidas prioridades.
Exemplos infelizmente não nos faltam, desde supérfluas auto-estradas, catedrais de futebol, shoppings e mega stores às moscas, centros "colturais" e "impresariais" que não cumprem nem sequer com os motivos que lhes deram vida... se todos estes investimentos tivessem sido direccionados para a Cultura, algo poderia ter mudado no nosso País.
Confunde-se muitas vezes Cultura com espectáculo e entretenimento, tal como também confundimos Cultura e arte. Embora  possamos dizer que uma expressão artística é uma forma de Cultura,  a meu ver não é bem assim...

A Cultura não é um objecto sem vida numa galeria, Cultura seria conhecer esse objecto antes de o ver, ou tentar saber mais sobre ele depois de o conhecer ao vivo e a cores.
A Cultura não tem forçosamente que ser história, filosofia, música clássica ou outro assunto tido como erudito. Qualquer informação ou aprendizagem que nos faça crescer é sem dúvida Cultura, poder-se-ia dizer também que a Cultura é a anti-futilidade, pois esta faz-nos estagnar.
Cultura é tudo aquilo que fica do que se aprende, e leva-nos a ser permeáveis à arte dilatando a nossa sensibilidade. Uma pessoa mais sensível é por conseguinte uma pessoa mais civilizada, ponderada e evoluída, tornando-se mais bonita e interessante em todos os sentidos.
Há quem diga que a Cultura não é mensurável no ponto de vista financeiro, pois a Cultura não tem taxas de juro, spreads, cotação na bolsa e outros importantes factores económicos... nunca estiveram tão enganados!!!
O que seria de países como França, que absorve mais de 50% do turismo  mundial, de Itália, Inglaterra, Holanda, Índia, Japão... se não mantivessem, investissem e incentivassem a Cultura?? Certamente que não se afirmariam com a mesma força nem teriam protagonismo que têm.
Todos os países civilizados apostam na Cultura, ciência e artes, pois sabem que a própria evolução dela depende... despromover a Cultura é condenar um País a um limbo social, suprimindo a sua identidade.
A Cultura não é instrução... é tudo o que sobra da mesma !! Nem sempre ter um "canudo" é apanágio de se ser culto. As escolas e universidades são apenas veículos que temos ao nosso alcance para nos instruirmos, é a vida e o sumo que dela tiramos que nos dá Cultura, dá-nos também atitude, responsabilidade, dinâmica e empreendedorismo, inteligência e nível de vida, espelhando-se e espalhando-se em todo o ambiente.
As ruínas que tanto nos incomodam, são testemunhas de falta de Cultura, de sensibilidade, inteligência, empreendedorismo, visão e respeito por todos nós!!!
É indesculpável o estado a que chegou boa parte do nosso património histórico, e a falta de interesse por ele demonstrado ao longo de muitas gerações.
Não é só o valor artístico e histórico que estão em causa, é essencialmente a nossa Cultura que definha sem que alguém sequer note a falta que ela nos faz... e se nos cultivássemos mais?

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