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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

19
Jul09

Já em pequeno me diziam ser uma "porcaria" andar de mãozinhas sujas. No entanto, apesar de as estranhar nas vacas, jamais reconheci mãos aos porcos. Com os porcos é mais "pezinhos", de preferência de coentrada. Também me diziam que a anatomia dos porcos é chocantemente parecida com a dos homens. Por isso parecia-me natural que o bicho fosse um omnívoro, mesmo sem entender porque lhe tiravam o h.  Vem isto a propósito das regras profilácticas contra a gripe suína que por aí se anunciam, num fervoroso desígnio de adiar a inevitável epidemia: trinta segundos a ensaboar as mãos parecem-me um exagero. A vida é muito curta. Contrariado, aceito que me escapem as mais aprazíveis delícias do lar por ter de trabalhar como um camelo para lhe conferir um estatuto e existência condigna - agora desperdiçar a vida a lavar as mãos durante trinta segundos entre uma ida ao Multibanco e a contorção duma maçaneta de porta, definitivamente isso é de mais. Prefiro apanhar a dita gripe, que agora entendo porque lhe chamavam "dos porcos": é porque as suas vítimas não “guardaram” um metro de distância dos perdigotos da recepcionista do hotel em Cancun, e porque não lavaram convenientemente as mãos, bem fundo nas palmas e nos sovacos dos dedos, onde se escondem os mais perigosos germes.

Quando era pequeno e acordava de manhã em férias, parecia-me um interminável aborrecimento os minutos que me demorava a vestir, nomeadamente a apertar os atacadores, antes de me precipitar na brincadeira com os primos ou amigos: havia toda uma vida a esvair-se enquanto eu me atrasava com tão supérfluas tarefas. Lavar a cara e os dentes era um castigo ainda maior. Enfim, uma grande porcaria.
Talvez por isso e por escrever estas bacoradas, e apesar de me ter tornado um cidadão honesto e medianamente asseado, me arrisque a cair de cama (não sei se é por ser hora da sesta mas soa-me bem a expressão) como que vítima de um castigo divino. Mesmo sem sair do distrito de Lisboa.
Mas desculpem-me a insistência: tenho verificado com estranheza como os media dos povos bárbaros, os britânicos por exemplo, teimam em chamar gripe suína (swine flu) à maleita, apesar da sábia deliberação da OMS em mudar-lhe o nome. Chissa que a Velha Albion não aprende! Nisto os portugueses são bons e obedientes rapazes. Disso deveremos nós sentir orgulho: desde a manhã seguinte ao comunicado nem o mais rebelde redactor de jornal se atreveu a desacatar a ordem. Imagino-os nas redacções todos a beber café em copos de plástico, a assomarem-se uns aos outros em distâncias higiénicas e a fazerem bicha para os lavabos. Eu por mim tenho mais que fazer.   

 

05
Jul09

Cheguei aos blogues há pouco mais de três anos pela mão do Duarte Calvão que me convidou a integrar o  Corta-fitas, um blogue de profissionais da escrita, maioritariamente jornalistas, que veio a tornar-se uma das referências da blogosfera nacional. Foi com eles que desenvolvi o gosto por esta vertiginosa escrita e por isso ficar-lhes-ei para sempre grato: prezo-lhes não só a coragem de me terem acolhido, mas o escorreito estilo com o qual tentei aprender. Assim, a blogosfera proporcionou-me o prazer de opinar, de dizer livremente o que me passava na alma, quantas vezes arriscando no arame os limites da exposição pessoal. Um risco por vezes mal calculado devido ao carácter imediatista deste meio e o bichinho exibicionista que afinal anima o meu irrequieto espírito. 

Como me acontece na leitura, na música e em tantas coisas na vida em que sou lento a envolver-me, na escrita tendo a mastigar hesitante a forma e o conteúdo antes de publicar, coisa que na Internet está à curta distância duma tecla. Jamais deixei de tremer ao carregá-la: mais do que a um suposto perfeccionismo, tal deve-se em parte à minha insegurança, sentimento que definitivamente constitui um traço do meu carácter. O facto é que quando nos aceitamos como somos, conquistamos o mais valioso património humano: a liberdade. 

De resto, a idade não me aligeirou as paixões, os medos ou as dores, só me ensinou a aceitá-las e resolvê-las com mais e mais rapidez: nas minhas actividades, como profissional ou chefe de família, sou hoje impiedosa e profusamente chamado a agir e decidir muito mais do que alguma vez julguei ser possível. E quem me conhece não adivinha os tumultos por que perpassa a minha alma. Para sobreviver, com a graça de Deus, fiz-me bom aluno da vida... e conquistei o amor duma mulher maravilhosa e uma família de que me orgulho e sou pertença a tempo inteiro. É desse meu mundo que vem a energia e a vontade de continuar a abordar reagir com todo o fôlego contra o curso da história, que qual imensa rocha se mantém naturalmente imutável e insensível ao meu protesto. Resta-me a esperança de que tanta exigência e inconformismo tenham-me ajudado a aperfeiçoar a mim próprio,  e que o leitor seja comigo bem mais benevolente e menos severo. 

 

 

25
Jun09

 

É como uma arrepiante viagem no tempo, ouvir o som desta flauta do Paleolítico Superior descoberta em escavações no sudoeste da Alemanha e que vem comprovar que a música já era uma prática cultural à cerca de 35.000 anos.
Salvo as devidas distâncias, é uma sensação parecida quando escutamos esta gravação do Big Ben em 1890 com que nos brindou o Miguel Castelo Branco no seu blog, no final do ano passado. A este propósito, li em tempos numa crónica de Eurico de Barros no DN que vários registos sonoros de D. Carlos e D. Manuel II foram “inadvertidamente” destruídos na Emissora Nacional na voragem do PREC. Uma dor d’alma...
Sei bem como uma imagem vale mais do que mil palavras, mas neste caso não me refiro à semântica, mas aos sons em “carne e osso”. Estranho como o comum das pessoas, na ânsia de fixar vivências e memórias, afinal vulgarizaram o registo fotográfico e tão pouco valorizam a memória sonora, cujas técnicas hoje são tão acessíveis: possuo fotografias da minha infância, de férias e festas familiares, mas não tenho meio de recordar a voz do meu Avô, apesar de ela me soar sólida na minha memória. E que tamanhos afectos não carregam as vozes e timbres com que convivemos diariamente? Quantas vezes não lamentei não ter um gravador à mão para registar algumas expressões e onomatopeias dos meus filhotes quando eram pequenos? Não é o som um testemunho tão rico quanto a imagem? 

16
Jun09

Para aqueles que de forma sobranceira me perguntam quais as motivações para esta minha teimosa militância pela monarquia, que aspirações me movem para tão exótica causa, tão incómoda e excluída da “agenda politica”, eu respondo que o faço por uma questão de responsabilidade: a responsabilidade que me cabe para com a continuidade desta “utopia” no seu sentido mais nobre: o sonho dum Portugal com futuro.
Conheço alguns ilustres “compagnons de route” que optaram por “congelar” o seu ideal monárquico, imbuídos dum pseudo-realismo e embrenhados na espuma dos seus projectos pessoais, políticos ou profissionais. Tenho pena: eu sei como é difícil apregoar esta ingrata causa que não favorece carreiras ou comendas. Reconheço que a mensagem embate numa implacável “agenda mediática” que emerge do espectáculo popularucho e da mesquinha contenda política, das conveniências corporativas e interesses imediatos.
Não nego a evidência que hoje os grandes males de que Portugal padece são profundos e estão a montante da questão do regime. Como em 1910 as instituições estão descredibilizadas e não funcionam. Os portugueses, habituados ao assistencialismo e pouco atreitos a responsabilidades, parecem conformados com um medíocre destino, cuja perspectiva não passa do amanhã. E temos a merdização do debate político, com a gestão da rés pública ao nível do chão.  Deste modo e dentro das minhas limitações, não prescindo de intervir de dentro do sistema em favor da minha comunidade e pelo futuro do meu país, com a liberdade que esta república me proporciona. Mas não me passa pela cabeça hipotecar as minhas mais profundas convicções.
Acredito profundamente na monarquia, na instituição real como a solução mais civilizada para a chefia dum Estado europeu e quase milenar como é o nosso. Num tempo de relativização moral, de fragmentação cultural e enfraquecimento das nacionalidades, creio mais que nunca na urgência duma sólida referência no topo da hierarquia do estado: o rei, corporização dum legado simbólico identitário nacional,  garante dos equilíbrios políticos e reserva moral dum povo e dos seus ideais. O rei, primus inter pares, é verdadeiramente livre e por inerência assim será o povo.
Sou modesto: espalhar a doutrina e "fazer" mais monárquicos é o meu único objectivo. Que floresça nas mentalidades o sonho duma nação civilizada e de futuro, ciosa da sua identidade e descomplexada da sua História. De resto, o seu curso é sempre imprevisto e, quem sabe um dia, num instante tudo poderá mudar.

 

Também publicado aqui

01
Jun09

À conta da latente depressão de um exército de inadaptados e excluídos sociais patrocinados pelo inefável regime do sucesso, das aparências e do consumo, vive uma incomensurável trupe de profissionais da psiquiatria e psicologia clínica. No topo da pirâmide social, nesta nova classe de obscuros feiticeiros tribais, há-os para todos os gostos e maleitas, sejam da telha, da pila ou da falta dela. Com a árdua tarefa de justificar o inexplicável, normalizar a excepção, declaram-se cientistas especializados num variado menu  de complexos e manias. Eles ncontram facilmente um manancial de freguesia, as vítimas do materialismo predatorial, do socialismo niilista vigente: um regime promotor do mais forte, do mais hábil, do chico mais esperto e da legalíssima ausência de valores.

Com mais ou menos resultados, com mais ou menos psicanálise, com mais ou menos químicos e drogas legais, com mais ou menos internamentos, suicídios e demais efeitos secundários, esta pseudo-fidalguia regimental pulula nos mais inúteis institutos e organismos estatais. São os novos inquisidores da nação, moralistas e carniceiros das almas, oráculos pós-modernos, que se dedicam esmeradamente a debitar as regras da nova moralidade nos órgãos oficiais de comunicação. Encontramo-los a verberar vulgaridades e redundantes lugares comuns sempre politicamente correctos na mais selecta revista feminina ou encarte de entretenimento dominical, ao lado da rubrica de astrologia, num qualquer jornal, rádio ou televisão. Sempre em benemérita promoção das mais radicais e estimáveis minorias. Estes novos e populares cientistas da existência, emitem despudoradamente um discurso sempre redundante e vazio, que não é mais do que a imperativa fórmula de segurar as suas mais suculentas franjas do mercado. Afinal somos todos “porreiros” desde que paguemos a conta da consulta, seja privada ou através da previdência social. Jamais mordas a mão que te dá de comer...
Tragicamente vi passar pelas mãos destes “feiticeiros da psique” gente boa que nunca mais foi gente, gradualmente enterrada em químicos ou relativismos alienantes, psicoterapias e demais placebos. Ironicamente tive a sorte de constatar o seu sucesso na intervenção terapêutica em gente que sempre me parecera saudável. E como tal resistiram úteis cidadãos. Apesar de tudo.
 

A reedição deste meu texto, publicado em tempos no Corta-fitas,  foi  inspirada pela incrível crónica da Marta Crawford no jornal i onde a senhora se insurge contra a possibilidade reorientação terapêutica da homossexualidade indesejada. De resto, o que me preocupa seriamente é o poder que esta gente tem hoje em dia.

 

26
Mai09

Ponto prévio: tenho para mim que o amor estará condenado à partida quando for um fim em si próprio. O que não impede que possamos ter uma "relação" fantástica sem muito amor, ou até nenhum. O ciúme pode excitar a “relação” mas liquida o amor. Enaltecer  o ciúme é como exaltar a desavença na perspectiva que esta acarreta uma lúbrica reconciliação. Ao amor feliz o que menos faz falta são efeitos especiais, sensações bombásticas, pólvora seca ou surround em 5.1.
O amor feliz exige desprendimento, dádiva, e um conhecimento mutuo profundo. Que cada um conheça os caminhos do outro, as curvas e contracurvas, os poros, tonalidades, texturas e odores, todas as nuances da alma e do corpo. Tudo isto carece de tempo, muito tempo, e... confiança! Exige uma entrega incondicional, o sacrifício dos segredos mais profundos, vaidades e fraquezas. Exige muito amor.
O ciúme é a parte da história em que o amor sucumbe à proeminência dum umbigo, quando vence em nós um predador ferido. O ciúme é presunção, ilusão de paixão, prenúncio de vazio: um paliativo existencial que oculta uma mortal solidão. O ciúme está sempre onde deveria estar mais amor. Como escreveu David Mourão Ferreira, um amor feliz não tem história. E no fundo, no fundo, isso até pode ser bom, não pode?

 

Como prometido, esta é uma sincera provocação ao João Gomes e ao seu "ciúme" aqui em baixo.

 

 

22
Mai09

...que acompanho desde o seu início, é de que este se parece com uma pequena “revista” diária, com uma qualidade acima da média e um grafismo requintado. Ora, acontece-me que a sua leitura, que considero agradável, me deixa "atravessado", não "mata" o meu desejo de procurar um periódico, digamos, “clássico”; com o tradicional noticiário de política, sociedade, local e desporto; com calendário, tabelas classificativas e o diabo a sete. De resto, gosto particularmente da edição de fim-de-semana, não só porque tenho então mais tempo para lê-lo, mas por causa da supimpa revista colecionável que traz - aguardo com curiosidade algum tema pelo qual eu nutra maior afinidade.
Após o célebre recrutamento on line de um ilustrador, o aspecto que mais me desiludiu foi a ausência de Banda Desenhada digna desse nome: no i, não encontramos nem um gag, nem uma tirazinha, nem uma caricatura, para além daquela inusitada rubrica ilustrada nas páginas centrais. Tanto espaço para tão pouco...
Para além de eu considerar esta forma de expressão artística tão ultrapassada quanto os próprios jornais, tenho para mim que são estes ainda o seu suporte por excelência, e que a Nona Arte, em conjunto com outros conteúdos gráficos, pode proporcionar cativantes momentos de puro entretenimento. Parece-me que a maior parte dos editores dos jornais não tem sensibilidade alguma para o assunto: quando publicam “bonecos” não importados, mesmo dirigidos aos mais pequenos são sempre estranhíssimos, meio impressionistas ou “alternativos” com pretensões intelectuais. Eu para puxar pelo intelecto vou ao Museu do Chiado e ando a ler o Em Busca do Tempo Perdido, que ainda não cheguei a meio. 
De resto esta é quanto a mim uma lacuna generalizada na imprensa portuguesa, que continua sem conseguir seduzir as gerações mais jovens e que se recusa entreter os mais velhos com coisas saudáveis. Que eu saiba em muitas casas ainda se consome histórias aos quadradinhos. Talvez não sejam exemplo, mas os meus miúdos ainda se divertem a ler um “patinhas”, um Tintim ou uma tira do Calvin, actividade que constitui uma salutar alternativa ao computador e à televisão.

09
Mai09

A telefonia foi para mim durante muito tempo uma inestimável companhia e uma janela para o mundo, principalmente o da música. Tenho uma leve reminiscência da primeira que me fez companhia: foi um pequeno “transístor” forrado a cabedal castanho oferecido pelos meus avós no final dos anos sessenta. Foi através da rádio que ouvi passar a música, as modas, os acontecimentos. Até a revolução e as "inventonas". Na minha telefonia, confesso, passaram também muitos domingueiros relatos de futebol, pois não havia outra forma de acompanhar a jornada desportiva. Com aquela histérica verborreia do locutor, emocionado, eu roía as unhas todas.
Criado no meio de uma família grande e com muitos irmãos, foi com a música e com os livros que delimitei o meu espaço e preservei minha empreendedora solidão. De olhar fisgado numa qualquer luzinha do aparelho passei deliciadas e indolentes horas. Era assim que os meus sonhos mais secretos voavam leves.
De ouvido na telefonia privei intimamente com muitos mais ou menos simpáticos locutores. Do Igrejas Caeiro ao Carlos Cruz, passando pelo Luis Filipe Barros, do João David Nunes à Maria José Mauperrin, passando pelo Jorge Perestrelo. Foram muitas as vozes para as quais inventei caras, sempre tão diversas das reais. Que nunca se nos deveriam ser desvendadas para evitar desilusões maiores. Olhe-se bem a figura que nos saiu da simpática voz do Nuno Markl!
Em pequeno, lá em casa na sala de estar havia um velho aparelho Grundig por debaixo da televisão. No chão, eu sentava-me de pernas cruzadas, esperando ansioso por algum sinal de vida, algum som, enquanto as válvulas aqueciam. Tudo começava quando uma pequena barra luminosa se enchia com uma estranha e líquida luz azul que assinalava a plena sintonização da frequência. Normalmente o aparelho estava sintonizado no programa 2 da Emissora Nacional (pelo meu pai), donde eu mudava para o Rádio Clube Português, que me parecia bem mais animado. Era nesta estação que ouvia umas cançonetas e com sorte apanhava a emissão dos Parodiantes de Lisboa que desesperadamente galhofavam trivialidades que eu mal entendia. Tudo isto com o patrocínio da casa Sol, na Rua da Vitória.
Carregando-se nuns botões beje marfim do grande rádio, trocavam-se os mundos que soavam como apitos díspares, sirenes várias ou misteriosos sinais de morse. E orações muçulmanas. Mas aquele rádio já tinha “frequências modeladas” e eu sentia com gosto a diferença no troar da orquestra no grande altifalante. O horário imperialista da televisão cedo acabou com estas veleidades radiofónicas.
À noite no aconchego do quarto, no meu “transístor” tocava o Quando o Telefone Toca, entre um livro da Condessa de Ségur e um álbum de Spirou em luta contra o terrível Zorglub. Foram os meus tempos de infância ao som dos Beatles, de Angie, dos Procol Harum, de Mammy Blue ou de José Cid...
Mais tarde, depois da revolução e durante o PREC, em FM (um pouco para lá dos 108 MHz), podia-se espantosamente sintonizar as transmissões da Polícia Militar. E testemunhar assim todo um mundo louco que se desconstruía. Enquanto medrava a minha ansiosa adolescência, veio o rock n’ roll do Programa 4 da RDP. O João David Nunes, o Punk Rock, o programa Dois Pontos com os álbuns inteirinhos, o Em Órbita para ouvir música antiga e… as tabelas de “tops”. Foi nessa época que descobri a MPB nos Cantores do Rádio do José Nuno Martins. Tudo isto em FM Estéreo, transmitido com os emissores de Bornes, Braga, Faro, Gardunha, Guarda, Lamego, Lisboa, Lousã, Monchique, Porto e Valença (!). Era a gloriosa alvorada do FM num país que, arquivada a revolução e a aventura marxista, despertava para o mundo. Virou-se então a vida da rádio para o Rock em Stock, com um Pão com Manteiga ao Fim-de-Semana, e o rock em português. Já entrados nos anos 80, às vezes de noite ouvia o Café Concerto de Maria José Mauperrin. Foi então que descobri as margens da cultura musical urbana, Brian Eno, Ryuichi Saakamoto e os Telectu de Jorge de Lima Barreto, entre outras doces intelectualices.
Finalmente por alturas do “boom” da liberalização da rádio, ainda me deixei cativar pela Correio da Manhã Rádio. Uma fantástica rádio digitalmente programada que me fornecia musica às toneladas. Sem palavras, sem parar. Para gravar, namorar ou estudar. Foram os meus tempos de Lloyd Cole, The Smiths e das luzidias pérolas da editora 4 AD.
Em 1988, numa trágica e inesquecível manhã de Agosto, com o Chiado em chamas, descobri a TSF. A notícia em rajadas, tipo matraca, que por muitos anos consumi com gosto.
De então até hoje oiço a rádio quase exclusivamente para fins informativos, no automóvel. Ouvir música tornou-se um ritual mais raro e quase solene. Momentos especiais arrancados à rotina familiar e com música escolhida com o meu critério e dependente da minha disposição. Mas é certo que continuo um aficionado da boa telefonia que no meu carro por momentos ainda descubro.

 

 

Texto reeditado

17
Abr09

 

   A mais genuína crónica sobre a célebre excursão dos blogers a Bruxelas em 2009
 
 

Se não sabem onde está a Primavera, digo-vos eu que está em Bruxelas. Além disso, há muito tempo que este vosso humilde escriba não era tão bem tratado: honra seja feita ao deputado Carlos Coelho e ao Duarte Marques que acolheram este grupo de blogers como autênticos monarcas. Tratou-se de uma bem engendrada acção de Relações Públicas para com alguns dos blogers mais influentes (claro que eu que não influencio ninguém e a Bárbara Baldaia que foi como jornalista, éramos verdadeiros outsiders).

Hospedados num simpático hotel no centro da cidade, em que o magnífico pequeno-almoço colmatava qualquer falha de serviço, intervalámos um intenso programa de colóquios e entrevistas (bem testemunhadas aqui pelo Leonel Vicente) com deliciosas incursões gastronómicas, algumas das quais impressionariam certamente o nosso Duarte Calvão. O Rui Castro, proeminente jurista e “garfo” também, cuidou de abordar a visita sob esse prisma aqui. Por mim, já hoje estive no ginásio a penar pelos milhares de calorias extra a que fui incapaz de resistir durante a jornada.

A par das comezainas, o grupo não menosprezou o convívio. Depois de, desconfiados, nos beliscarmos uns aos outros, rapidamente nos caíram as peneiras e o ambiente tornou-se são e fraternal. Sim: escrevi fraternal – a Isabel Goulão e a Carla Quevedo, distintíssimas senhoras estão aí e não me deixam mentir. Por exemplo, foi uma bela oportunidade para privar com um Blasfemo que não blasfema, o Gabriel Silva; conversar com um simpático republicano e ateu da cidade dos Arcebispos, o Pedro Morgado e de trocar uns cromos do Tintim com o André Abrantes do Amaral nos intervalos.

De tal forma as coisas correram bem que está em congeminação o "Clube de Bruxelas", um grupo de pressão (que é o que está a dar) e excursionista (que é a melhor parte). Eu próprio que sofro do dilema de Grouxo Marx (a quem não agradavam Clubes que o aceitassem como membro) estou entusiasmadíssimo. A minha Maria é que não vai achar piada nenhuma – certamente não gostará que eu me envolva demais na política. Mas como muito bem escreveu o Pedro Lomba, Os políticos são iguaizinhos a nós. Os políticos, em rigor, não existem. Existe o sr. João e o sr. Avelino. Políticos esforçados e relapsos, aconselháveis e desaconselháveis. Não os julguem em grupo mas sim um a um.


Depois houve os encontros com os eurodeputados, dos quais destaco um divertido almoço com João de Deus Pinheiro, que, de forma cativante e entusiástica, abordou a inócua estratégia geopolítica europeia. E o simpático deputado grego do Partido Socialista Europeu Stavros Lambrinidis (vice-presidente da Comissão de Liberdades Públicas), que versando sobre os limites da vigilância anti-terrorismo em confronto com as liberdades e garantias individuais, afirmou que quem argumenta que "não tem nada a esconder" (no que respeita à vídeovigilância e registo de dados de telecomunicações) deverá arranjar uma vida… “Get a life!”. Ainda agora ando a matutar quão fascinante e aventurosa será a vida dele: ser de esquerda deve ter as suas vantagens...


De resto, aquilo da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu em Bruxelas é absolutamente fabuloso - a minha inveja: um mundo que faz vários centros comerciais Colombos e estádios do Benfica em betão, políticos e eurocratas que comem, dormem e consomem. Que bom que seria para a economia portuguesa uma coisa daquelas em Coimbra ou assim: num país de "eventos" como o nosso, só em caterings e alojamentos resolvíamos o desemprego e o nosso deficit externo duma vez para sempre. Mas a vida é injusta: a ideia da Europa não foi nossa, vivemos na periferia e chegámos atrasados como sempre.


Uma confissão final: fui a Bruxelas e não visitei o Manneken Pis. Em vez disso, fui a uma loja do Tintim ao pé da Grand-Place, onde não resisti a comprar um fabuloso submarino em forma de tubarão do Segredo de Licorne, que repousa agora altivo numa estante lá em casa. Valeu a pena.
 
Ah, é verdade: não vos preciso de explicar que sem a União Europeia há muito que estávamos bem tramados, certo? Tratem mas é de votar no próximo dia 07 de Junho e não sejam ingratos.

 

13
Mar09

Quando menos esperamos, o significado de uma velha e batida palavra ganha conotações malditas sendo logo proscrita do linguajar engagé ou oficial. Por exemplo, dificilmente eu cometeria o pecado de chamar “criadas” às empregadas dos meus avós. Mesmo que de facto tivessem sido criadas naquelas casas e de lá saído verdadeiramente formadas para uma vida melhor.

A minha filha pequena que está a dar os primeiros passos nesta existência complicada, depois de uma saudável aula de cidadania e solidariedade (nunca por nunca dizer “Caridade” - s. f., amor ao próximo; benevolência; bondade; compaixão; beneficência) já me veio dizer que afinal “não há pretos, pai”. "Todos diferentes todos iguais" pensei eu que até vejo com bons olhos o reforço da escola laica à nossa educação cristã. De seguida a miúda esclareceu-me que “eles não são pretos, são castanhos, pai; e os brancos também não são brancos, são cor-de-rosa, pai”. Fiquei na dúvida se tanto preciosismo cromático cairá bem socialmente. Eu, por mim, se possuísse ambições políticas ou tivesse que escrever “a sério” um artigo sério sobre negros, escolheria a palavra “africanos”. Omite-se a cor para lhe tirar importância... e amenizar os nossos complexos de culpa.
É como o "doente" num hospital que afinal se chama “Utente”. Corrigiram-me tantas vezes quando por lá andei... “Doente”, não: o estatuto de “Utente” tem muito mais decência e é o melhor placebo para qualquer terrível maleita. E evita que alguém de má fé nos aponte o dedo, e nos mande para o... hospital.
De resto, é o que eu sempre disse: "o verdadeiro cego é aquele que não quer ver". Sei-o há muito tempo, mas percebo agora que os outros, os cegos involuntários, são apenas “invisuais”. Ou melhor, “Pessoas Portadoras de Deficiência”, não vá a boca fugir para a verdade a algum malandro que o designe de forma indecorosa.
Daqui por uns anos já não haverá mais “velhos”, aquele incómodo e degradado Ser que passa o dia a jogar dominó ou a dar milho aos pombos nos nossos jardins. No futuro seremos todos respeitáveis e dinâmicos “Seniores” cheios de auto-estima e de PPRs. Velhos nunca, que é aí que a morte se esconde.
É nesta estonteante espiral reformadora da realidade que o Governo em boa hora extinguiu a Comissão Para a Igualdade e Para os Direitos das Mulheres e instituiu a revolucionária Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Eu por mim nunca mais vou “fazer género” com qualquer um... Promiscuidades é que não!
Estranhas modernices estas, quando se recusa a mentira mas tolera-se a "inverdade", pecadilho próprio de políticos e de outros inimputáveis. E da IVG que não oculta a tragédia do aborto nem quero mais falar, para não azedar esta crónica.
É com esta sempre renovada linguagem se reinventam os tabus e o regime promove a sua semântica instrumental, anódina e igualitária, à qual a implacável realidade se manterá indiferente.

 

Texto reeditado

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