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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

28
Mai09

Já repararam como está sol? As ruas estão cheias e há sorrisos, não que as pessoas tenham um motivo especial para sorrirem, para aparentemente estarem contentes - mas as pessoas reagem a impulsos, a estados de alma e estão felizes, estão felizes por e simplesmente porque está sol. Não será estranho?

As notícias dizem que há guerra, que há crise, que há tristeza, que não há dinheiro e que não há amor. E as pessoas? As pessoas respondem com um sorriso, com a força do sol e com a magia de uma Primavera que foge engolida por um Verão que chega. Depois vem o calor e mais calor, a família, as férias, a praia, o descanso e tudo o resto que o sol nos dá. Mas não há Verão sem um Outono que nos rouba a felicidade e também o calor, que já vimos são no fundo a mesma coisa.

Gosto do calor e da felicidade. Mais do calor, esse há sempre - pelo menos no Verão.

26
Mai09

Ponto prévio: tenho para mim que o amor estará condenado à partida quando for um fim em si próprio. O que não impede que possamos ter uma "relação" fantástica sem muito amor, ou até nenhum. O ciúme pode excitar a “relação” mas liquida o amor. Enaltecer  o ciúme é como exaltar a desavença na perspectiva que esta acarreta uma lúbrica reconciliação. Ao amor feliz o que menos faz falta são efeitos especiais, sensações bombásticas, pólvora seca ou surround em 5.1.
O amor feliz exige desprendimento, dádiva, e um conhecimento mutuo profundo. Que cada um conheça os caminhos do outro, as curvas e contracurvas, os poros, tonalidades, texturas e odores, todas as nuances da alma e do corpo. Tudo isto carece de tempo, muito tempo, e... confiança! Exige uma entrega incondicional, o sacrifício dos segredos mais profundos, vaidades e fraquezas. Exige muito amor.
O ciúme é a parte da história em que o amor sucumbe à proeminência dum umbigo, quando vence em nós um predador ferido. O ciúme é presunção, ilusão de paixão, prenúncio de vazio: um paliativo existencial que oculta uma mortal solidão. O ciúme está sempre onde deveria estar mais amor. Como escreveu David Mourão Ferreira, um amor feliz não tem história. E no fundo, no fundo, isso até pode ser bom, não pode?

 

Como prometido, esta é uma sincera provocação ao João Gomes e ao seu "ciúme" aqui em baixo.

 

 

25
Mai09

O ciúme é tão antigo como amor - e ninguém sabe como e quando foi descoberto o amor, logo o ciúme também não. Toda a gente o tenta explicar sem nunca obter uma resposta - ficam as dúvidas, as suposições e as acusações - mas respostas nada.

Paul Láutaud dizia que "o amor sem ciúme não é amor", eu concordo. É como que uma faca que nos atinge no peito, é como que sangue que jorra sem doer, no fundo, trata-se de uma dor que nos torna impotente. Provavelmente é a única ferida que o amor abre e que nunca sabemos como estancar. O ciúme passa com o tempo, até lá não podemos fazer nada e o peito continua a doer, é uma picada que nos mói por dentro e que nos mata, como um cancro que não sabemos curar.

O romântico é por norma ciúmento, ninguém tenha dúvidas disso. Talvez por isso as mulheres não gostem de românticos. Talvez por isso as mulheres não gostem de ciúmentos. Se o amor fosse uma equação, o ciúme seria uma variável. Nunca gostei de matemática e por isso nunca percebi nada de equações. Sempre fui um romântico e como tal ciúmento. Será defeito? Será virtude? Será feitio? Prefiro pensar que é um misto empolado pelo amor. 

Para os ciúmentos como eu lanço um desafio: vamos criar uma associação, ou uma federação, ou uma confederação, ou ainda um sindicato, um clube recreativo ou qualquer outra coisa. Talvez o melhor seja criarmos grupos de reflexão e partilha de experiências, uma coisa do género Ciúmentos Anónimos: "Olá eu sou o João e sou ciúmento desde que me conheço. Não procuro a cura, porque junto a este mal a maior das virtudes: amar". Paul Láutaud tinha mesmo razão.

23
Fev09

Este texto já está há muito para ser escrito, pelo menos já foi pensado, provavelmente idealizado e só nunca passou a texto, efectivo como é óbvio, por falta de tempo e inspiração. Por falar de inspiração e antes que o mesmo gere confusão, assumo perante o tribunal confessional da escrita, que nasce em parte como consequência da leitura atenta do “Elogio do Amor”, publicado no Expresso, pelo Miguel Esteves Cardoso. Do pouco que conheço da técnica de escrita, sei que ao começar assim este “manifesto”, o faço mais desinteressante. Então, óptimo. Parto agora do princípio que só o irá ler quem estiver efectivamente interessado nesta glosa.


Durante os últimos tempos, tenho vindo, por força da escrita e ainda mais da vida, a pensar sobre o que é o amor. Até agora nada de novo. Quem nasce português e é educado na cultura lusitana, vem formatado, como se de um computador se tratasse, para ser uma criatura eminentemente romântica. Pelo menos assim era. Basta fazermos um périplo pela literatura, com um especial enfoque para a poesia, portuguesa de sempre – o escritor português é aquele que ama da forma mais bonita, correndo o risco do pleonasmo: mais romântica. Haverá amor mais belo do que o provocado pela tristeza, pela dor, pela perda e pelo amor impossível?


O que seria de um Camilo Castelo Branco se não houvesse “amor de perdição”, o que seria de Florbela Espanca sem a loucura do desejo e dos afectos, o que seriam das Cantigas de Amigo? Faria sentido um Antero de Quental sem a pólvora do suicídio? A quem gritaria Eugénio de Andrade que “é urgente o amor, é urgente um barco no mar”? Tudo no amor, pelo menos literário, deixaria de fazer sentido sem a doce tragédia e tristeza do romance. O pior é que o amor deixou de ser literário. Passou a ser real, momentâneo, descartável, oportunista e fútil, terrivelmente fútil, ignóbil, medíocre e calculista. E porquê? Por causa da crise.


O país está em crise, leiam os analistas, vejam os jornais, vasculhem os blogues e os folhetins de esquerda distribuídos às portas das fábricas. Percorram as ruas e vejam como as pessoas estão tristes, as esplanadas vazias, as árvores parecem despidas e não. Não me digam que é por ser Outono. Tudo isto acontece por causa da crise. Acontece que quem manda na crise é o governo e quem manda no governo são os políticos, que por sua vez são mandados pelos gestores, pelos capitalistas, pelos sindicalistas, pelos economistas, pelos jornalistas, pelos ginecologistas e por muitos outros “istas”, que provocaram deliberadamente esta crise.


Começo a ficar irritado. Cheguei hoje da Catalunha e lá também se fala da crise. Dizem até que todos os governos mundiais estão a privatizar os bancos. E daí? Que eu saiba todos os bancos da Av. da Liberdade, do Rossio, da Av. da Igreja e do Jardim da Parada são do estado. Alguém se preocupou com isto até agora? Acho que a crise, a ser mundial, tem que ter um culpado. Esperem, acho que agora estamos a chegar a um ponto óptimo de raciocínio. Conhecem alguma coisa tão universal como a crise? Vá pensem, não custa nada. Acendam um cigarro e descalcem os sapatos, é fácil caramba! Não há nada mais universal do que o amor.


A falta de amor trouxe a crise ao mundo. Por favor não me julguem ingénuo ao ponto de acreditar que existe algum elemento mais influenciador de uma crise do que o amor. Podem-me dizer que é a guerra, então e o que provoca a guerra? Talvez a falta de amor. Então e o terrorismo? Talvez a falta de amor. Mas esperem, e a exploração do homem pelo homem? Talvez a falta de amor. E a corrupção nos mercados mundiais? Talvez a falta de amor. E o tráfico de mulheres, de drogas e armamento? Talvez a falta de amor. E o capitalismo desenfreado que só vê o lucro pelo lucro? Talvez a falta de amor. Querem resolver mesmo a crise? Então resolvam primeiro o problema da falta de amor.


Então e que há a fazer? Muita coisa meus amigos, muita coisa. Assassinem os ministros, os banqueiros, os gestores e os jornalistas. Todos, um por um. Agora contratem poetas, escritores, pintores e músicos para governarem o mundo. Proíbam as leis, os juízes e os advogados, incendeiem as gravatas no Rossio e fechem tudo o que vá da Fontes Pereira de Melo até à Avenida da Liberdade. Decretem greve nas fábricas e distribuam chocolates e flores pelas ruas. Vistam os polícias de branco, fechem os aeroportos, as fronteiras e ponham fim à televisão. Mais importante do que isto e citando o MEC, decretem guerra aos “romanticidas”. Quero lá saber do Bin Laden, do Saddam, da ETA e das FLAMA. Esses “romanticidas” sim são terroristas. Ponham-nos a todos no Campo Pequeno, ou cerquem-nos  no quartel do Carmo e se quiserem até os podem atirar ao Douro. Mas acabem com essa raça. Agora estou a ser racista é? Muito bem, admito: sou um puro xenófobo anti-romanticidas.


Sejamos realistas, nada disto é possível. Até a escrita está interdita a estes pensamentos anarquistas, que só pecam por serem verdade. Façamos pelo menos um esforço, do género Primavera de Praga do amor, Revolução dos Cravos da paixão, Revolução de Veludo do romance e vamos da República Checa a Portugal, restaurar o amor no mundo. Um género de transição pacífica.


Vamos começar por uma Lei simples, melhor, um texto constitucional, que condene todos os romanticidas. Considera-se pois decretado:

 

Art. 297º da C.R.P.


1º Está proibido o amor, namoro, noivado, união de facto ou casamento, por parte daqueles que não reconheçam a sua pureza, a sua loucura e a sua eloquência.


2º Estão proibidas as relações sem rosas, chocolates, estaladas, berros, discussões e lágrimas, muitas lágrimas.


3º Está proibido o amor sem poesia, mesmo que má, de rima fácil e trato imberbe. Da mesma forma, estão obrigadas as cartas de amor, os versos roubados aos autores do costume, as citações de outrora e sempre, os bilhetinhos por baixo das carteiras, os piscares de olhos por entre a multidão, as dores de barriga no primeiro beijo e as bochechas rosadas ao primeiro piropo.


4º Está proibido o amor do “vamos tomar um café”, pelo que se institui o amor do beijo à chuva, do carro mal estacionado por entre o mato, das viagens pelo mundo, pela cidade e pela vida. Decreta-se assim a instituição do amor louco, em que se diz ao mundo que se pode morrer amanhã por falta dele.


5º Está proibido o mais condenável dos amores: o amor segundo plano. Desta forma que se prendam perpetuamente aqueles que pretiram o amor em função do trabalho, da faculdade, da família, do dinheiro, ou até mesmo de outro amor. A prioridade passa a ser o amor.


6º Torna-se desta forma obrigatório amar. Ao jovem e ao velho, ao homem e à mulher, ao rico e ao pobre, enfim: a todos. Que as ruas sejam invadidas pelo romance do antigamente, pela paixão louca e pelo amor. E fim, acabou a crise. De que importa ela em relação ao amor? 

 

(Texto reeditado)

14
Fev09

 

 

- Ó Pituxa, sabes que hoje é o Dia dos Namorados?!

- Sei!

- E vamos namorar?

- Tenho mais que fazer!

- Oh!...

- No Dia do Trabalhador, trabalhas?...

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