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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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SOPHIA: ENTRE O SOL E O ABATE DA TERRA

José Aníbal Marinho Gomes, 15.12.25

SOPHIA: ENTRE O SOL E O ABATE DA TERRA

Energia limpa ou cegueira territorial?

Painel solar sobre paisagem desmatada.png

O mega-projecto fotovoltaico Sophia, previsto para os concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, é apresentado pelos seus promotores como um símbolo de progresso e de transição energética. O nome escolhido — Sophia, palavra grega que significa sabedoria — parece prometer equilíbrio, ponderação e visão de futuro. No entanto, à medida que o projecto foi sendo conhecido em maior detalhe, essa promessa simbólica entrou em choque com a realidade concreta do território onde se pretende implantar.

Segundo informação divulgada pelo Público, pelo Jornal de Negócios, pela Euronews e por outros órgãos de comunicação social, o projecto prevê uma potência instalada superior a 800 MWp e um investimento na ordem dos 590 milhões de euros. Porém, os mesmos meios noticiaram também a dimensão dos impactos ambientais associados à sua implantação. De acordo com o Estudo de Impacte Ambiental colocado em consulta pública, a construção da central implicará a afectação directa de cerca de 1120 azinheiras e 421 sobreiros, árvores protegidas por lei e elementos estruturantes do ecossistema do montado. Ainda segundo esse estudo, mais de 1100 hectares de habitats naturais serão profundamente transformados, com decapagem de solos, fragmentação ecológica e perda de biodiversidade numa região já marcada por fragilidades ambientais e demográficas.

Granja solar e fauna ameaçada.png

Estes dados estiveram na origem de uma participação pública sem precedentes. O Jornal de Negócios referiu que a consulta pública do projecto Sophia bateu recordes de contributos, com milhares de participações críticas. A Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa emitiu parecer desfavorável, vários municípios manifestaram reservas sérias, e associações ambientais como a ZERO, a SPEA e outras denunciaram lacunas no estudo ambiental e a desproporção entre os benefícios anunciados e os danos irreversíveis no território.

Não se trata, como tantas vezes se tenta caricaturar, de uma oposição à energia solar. Trata-se de uma crítica à escala, à localização e ao modelo de ocupação do território. A Beira Baixa arrisca transformar-se num espaço de extracção energética intensiva, onde decisões tomadas à distância se impõem sobre comunidades locais, paisagens históricas e sistemas ecológicos construídos ao longo de séculos.

Para além da destruição directa do coberto vegetal e da artificialização extensiva do solo, o projecto constitui uma ameaça séria à fauna selvagem que subsiste neste território. A ocupação contínua do espaço por painéis solares, vedações e vias técnicas compromete corredores ecológicos essenciais e agrava o risco de mortalidade da avifauna.

Espécies protegidas e particularmente sensíveis, como a águia-imperial-ibérica, a cegonha-preta, o abutre-preto, o sisão e o cortiçol-de-barriga-branca, dependem de vastas áreas tranquilas para alimentação, reprodução e deslocação. A perturbação permanente e a perda de habitat colocam em risco a sobrevivência local destas espécies, com consequências irreversíveis para o património natural nacional.

Aviário solar vazio e terreno árido.png

Foi neste contexto de forte contestação pública e de crescente atenção mediática que surgiu um outro dado, amplamente noticiado por órgãos de comunicação social independentes, entre os quais o oRegiões e o Lobo Media. Segundo essas informações públicas, João Pedro Pinto Salazar Marques Mendes, filho de Luís Marques Mendes, surge como accionista da empresa Lightsource Renewable Energy Portugal (HoldCo), Lda., sociedade que detém a Coloursflow – Unipessoal, Lda., entidade directamente ligada à promoção do projecto fotovoltaico Sophia. A gestão executiva da empresa está atribuída a outros responsáveis, facto igualmente referido nas mesmas fontes.

É também neste enquadramento que ganha relevo uma coincidência de natureza simbólica: Sofia é o nome da mulher de Luís Marques Mendes, hoje candidato à Presidência da República. A coincidência, por si só, não tem qualquer significado político directo nem constitui qualquer prova de envolvimento pessoal. Ainda assim, num projecto que se tornou um dos mais polémicos investimentos energéticos alguma vez propostos em Portugal, essa sobreposição nominal tornou-se inevitavelmente objecto de comentário público.

É fundamental sublinhar — e fazê-lo com clareza — que não existe qualquer acusação pública de ilegalidade, favorecimento ou interferência política neste processo. A menção destas ligações é estritamente factual e assenta em dados societários e jornalísticos tornados públicos. Ainda assim, em democracia, a transparência não é um ataque: é uma exigência. Quando um projecto de enorme impacto ambiental e territorial envolve interesses empresariais ligados, ainda que indirectamente, à esfera familiar de um candidato presidencial, é legítimo que se coloque a questão do escrutínio público e que se espere uma clarificação serena por parte do próprio.

Talvez por isso a ausência de uma posição pública clara de Luís Marques Mendes sobre o projecto Sophia tenha sido notada. Não para imputar responsabilidades que não estão demonstradas, mas para compreender que visão tem um candidato à Presidência da República sobre o ordenamento do território, a protecção ambiental e os limites éticos entre o poder político e os grandes investimentos privados.

É neste ponto que a figura de Gonçalo Ribeiro Telles se torna incontornável. Arquitecto paisagista, pensador do território e defensor incansável do mundo rural, Ribeiro Telles sempre alertou para os perigos de um desenvolvimento cego, guiado apenas por indicadores económicos ou tecnológicos. Para ele, o território não era um vazio disponível para ocupação intensiva, mas um organismo vivo, onde natureza, agricultura, paisagem e comunidades humanas formam um todo inseparável.

Se estivesse vivo, dificilmente Ribeiro Telles aceitaria um projecto que implicasse o abate de centenas de sobreiros e azinheiras em nome de uma ideia abstracta de sustentabilidade. Provavelmente lembraria que a verdadeira transição ecológica não se faz substituindo ecossistemas vivos por infra-estruturas industriais, ainda que “verdes”. Defenderia soluções descentralizadas, a integração da produção energética em áreas já artificializadas e um planeamento que respeitasse a identidade da paisagem e das populações locais.

O caso do Sophia expõe, assim, uma contradição profunda do nosso tempo: invocamos a urgência climática para justificar projectos que, na prática, fragilizam o território e ignoram princípios elementares de prudência ecológica. Chamaram-lhe sabedoria, mas talvez tenha faltado precisamente isso — a sabedoria de ouvir, de respeitar e de reconhecer que nem todo o sol justifica a sombra que se lança sobre a terra.

Quando o habitat desaparece, a vida também.png