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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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República do Circo: Quando o Presidente Promete Vinhos, Ferraris… e Amor

José Aníbal Marinho Gomes, 17.11.25

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Na mais recente entrevista à SIC Notícias, Manuel João Vieira, músico, artista performativo e fundador dos irreverentes Ena Pá 2000 (responsáveis por algumas das mais provocadoras sátiras culturais do país), mostrou que a política portuguesa consegue sempre ultrapassar os limites da imaginação.

Munido de mais de 7.500 assinaturas e de um programa que faria corar qualquer guionista de comédia absurda, o pré-candidato promete vinho canalizado em todas as casas, um Ferrari para cada português, patinadoras russas para uns e dançarinos cubanos para outras. Tudo em nome do afecto — porque, segundo ele, aquilo que verdadeiramente oferece é amor. E para coroar a epopeia, declara: “Só desisto se for eleito.” Eis o mais recente milagre da República Portuguesa: transformar uma candidatura presidencial no maior espectáculo político do ano.

Este caso tão hilariante quanto preocupante revela uma verdade desconcertante. Nas repúblicas onde o Chefe de Estado é eleito por sufrágio directo, a chefia do Estado pode ser disputada por qualquer cidadão que reúna as assinaturas necessárias e uma boa dose de disposição para o protagonismo. A democracia abre as portas — e o circo instala-se.

Manuel João Vieira, com o seu humor de contracultura, mostra que o modelo republicano pode facilmente perder a gravidade que um Chefe de Estado deveria encarnar. Não está em causa a democracia — que também se encontra plenamente nas monarquias constitucionais — mas sim um sistema que transforma a mais alta magistratura da Nação num palco de espectáculo e frivolidade.

Se o processo eleitoral acolhe com entusiasmo promessas surreais e programas que roçam o disparate, então o problema não é o candidato, mas sim o mecanismo que o legitima. O absurdo, quando se torna viável, deixa de ser brincadeira e transforma-se em sintoma.

É precisamente neste contraste que a monarquia aparece como uma alternativa que, longe de ser arcaica, se revela de surpreendente sobriedade. Num sistema monárquico constitucional, o Chefe de Estado não precisa de recorrer a promessas extravagantes para conquistar popularidade, nem depende da espuma das redes sociais ou da viralidade momentânea. A sua função assenta na continuidade histórica, na neutralidade perante os partidos e na representação da unidade nacional. Enquanto um Presidente da República é empurrado para campanhas onde o espectáculo se sobrepõe à substância, um monarca cumpre a sua missão sem ter de transformar a dignidade do Estado num número de entretenimento.

A monarquia não precisaria de Ferraris para ganhar afeição pública, nem de canalizar vinho para mostrar proximidade ao povo. Existe para ser referência institucional, e não fenómeno de feira política. É um cargo que não depende da ilusão: depende da estabilidade. Uma estabilidade que a república se mostra incapaz de garantir quando qualquer eleição pode converter o Palácio de Belém num palco de humor que arrisca tornar-se perigoso. Enquanto na república se escolhe sempre alguém com algo a provar — seja por ambição, por ego ou, como neste caso, por sátira —, na monarquia o Chefe de Estado simplesmente representa o país de forma contínua, sem necessidade de cativar eleitores com absurdos.

Não que restaurar a monarquia seja processo simples. Há resistências ideológicas, entraves constitucionais e um hábito republicano já estabelecido. Mas há também um problema cada vez mais evidente: o regime actual já não consegue proteger a seriedade institucional que o cargo exige. A entrevista de Vieira funciona como um espelho cruel: se o país hoje pode ter um candidato presidencial cuja principal arma política é o humor, amanhã poderá ter um Presidente eleito da mesma escola — e aí já não haverá vinho nem Ferrari que disfarce o embaraço.

Com ou sem intenção, Manuel João Vieira prestou um grande serviço à discussão pública: ao ridicularizar o modelo presidencialista português, demonstrou o quão exposta está a república à banalização da autoridade do Estado. Lembrou-nos que, no actual sistema, a fronteira entre a política e o espectáculo é tão ténue que um passo em falso pode transformar o Chefe de Estado numa figura de riso nacional. E, convenhamos, quando a política se torna palhaçada, o país é que paga o bilhete da entrada.

Talvez esteja na hora de Portugal reflectir sobre que tipo de liderança quer no topo do Estado. Talvez devamos escolher entre o reinado da dignidade e o reinado do meme. E talvez a piada tenha chegado ao fim. Porque rir do Presidente é perigoso quando ele já nem precisa de estar lá para nos fazer rir.