Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Repor a “Praça da Rainha” ou Praça da Rainha D. Teresa” é Honrar Ponte de Lima — Não é Apagar a História

José Aníbal Marinho Gomes, 10.07.25

DTeresa-topo.jpg

Monumento à Rainha D. Teresa

A proposta de devolver o nome “Praça da Rainha” ao espaço central de Ponte de Lima não é um gesto ideológico, nem uma provocação. É, antes de mais, um acto de justiça histórica, de recuperação da memória local e de respeito pela continuidade identitária de uma vila que, a 4 de Março de 2025, assinala 900 anos desde a outorga do foral régio por D. Teresa, documento fundador da sua autonomia municipal e marco essencial na sua longa trajectória como comunidade organizada.

O nome “Praça da Rainha” vigorou legitimamente até 1910. Foi nesse ano que, com a implantação do novo regime, se procedeu à substituição toponímica para “Praça da República”. Não houve debate, nem consulta à população. Foi uma imposição directa e ideológica, típica de um tempo em que o apagamento da herança anterior era prática corrente. Essa alteração nunca foi ratificada pela vontade popular, nem correspondeu a uma exigência local. Foi, pura e simplesmente, um corte arbitrário com a história.

A verdade é que em 2025 celebramos 900 anos de história municipal, alicerçada num acto régio que marcou profundamente a identidade da vila. A República, por seu turno, completa este ano 115 anos desde a sua implantação. Sem negar o significado político desse acontecimento, é desproporcionado colocá-lo acima de um marco que lançou as fundações de Ponte de Lima como comunidade organizada e reconhecida pelo poder régio.

A iniciativa foi apresentada pela maioria da Câmara Municipal, e procura restituir um nome que acompanhou durante décadas a vida da vila e da sua população. Apesar de alguma polémica gerada em torno desta decisão, importa sublinhar que o vereador Dr. José Nuno Vieira de Araújo, propôs uma alternativa igualmente legítima: que a praça passasse a chamar-se “Praça da Rainha D. Teresa”. Trata-se de uma sugestão com a qual estou de acordo, pois reforça, de forma mais clara e inequívoca, a homenagem à Mulher que concedeu a Ponte de Lima o seu primeiro foral — um gesto fundador que moldou a identidade e o percurso da comunidade ao longo dos séculos.

Repor esta designação, seja na sua forma tradicional ou com a referência directa a D. Teresa, não é apagar o presente, mas valorizar o passado. Não é reabrir divisões, mas reconhecer uma continuidade. Não se pretende reescrever a história, mas preservá-la. E preservar a história de Ponte de Lima é também respeitar aqueles que, geração após geração, contribuíram para construir uma vila com memória, com identidade e com sentido de pertença.

Captura de ecrã 2025-07-14 000449.png

Recuperar o nome, seja em que forma for, não significa apagar nada — significa repor o que foi apagado. Significa reconhecer que a nossa história não começou em 1910 e que há continuidade, memória e legado muito para além do século XX. A própria população nunca deixou de manter viva essa designação — de forma oral, afectiva e tradicional. A identidade toponímica não se impõe por decreto; constrói-se com o uso e a ligação à terra.

A toponímia não é, nem deve ser, imutável. Quando a mudança se faz em nome da verdade histórica, da memória colectiva e do respeito pela identidade local, ela representa um sinal de maturidade cívica e não um capricho político.

Veja-se, como exemplo eloquente, o caso da actual Avenida 5 de Outubro. Originalmente chamada Avenida Dom Luís Filipe, foi assim baptizada em honra do Príncipe Real que visitou Ponte de Lima e inaugurou aquela via no dia 8 de Outubro de 1901. Poucos anos depois, em 1908, ele e o seu pai, o Rei Dom Carlos, foram assassinados por radicais republicanos em Lisboa. Com a implantação da República, apagou-se o nome do príncipe e impôs-se o novo — “5 de Outubro”. Contudo, até hoje, a maioria dos limianos continua a referir-se a esse espaço como “Avenida Dom Luís Filipe” ou “Avenida dos Plátanos”. A memória real sobreviveu à mudança forçada.

Neste contexto, parece igualmente inadequado dar o nome de “Praça da República” à nova praça em construção frente ao Teatro Diogo Bernardes. Esse espaço, de cariz artístico e cultural, mereceria uma designação ligada à criação, à representação e às artes performativas. E nenhum nome se impõe com maior justiça do que o de Tarquínio Vieira, actor limiano de prestígio nacional, que integrou a Companhia do Teatro Nacional D. Maria II e actuou por diversas vezes no palco do nosso teatro. Seria um tributo digno e profundamente coerente com o lugar que se pretende nomear.

É verdade que o referido actor, já tem uma rua com o seu nome, que poderia receber o nome de “Rua da República”, libertando a nova praça para ser dedicada a Tarquínio Vieira. Desta forma, preserva-se a diversidade toponímica sem sacrificar a memória histórica.

Se a intenção for preservar a designação “República” noutro espaço urbano, isso poderá fazer-se com serenidade, de forma sensata e equilibrada. A toponímia não é estática, e é sempre possível encontrar soluções que respeitem a diversidade de memórias e de sensibilidades. Mas o essencial é isto: encontrar uma solução ponderada que preserve a memória histórica sem imposições, respeitando o passado e a identidade da vila.

municipio-minNew_1_1900_2500.jpg

Em suma, não está aqui em causa o regime político vigente, mas sim a verdade dos factos e o respeito pela continuidade histórica de Ponte de Lima. Restaurar o nome “Praça da Rainha” ou então “Praça da Rainha D. Teresa” é devolver à vila um pedaço do que lhe pertence por direito, por tradição e por afecto. É reconhecer a importância de D. Teresa, cuja ação fundadora marcou decisivamente a identidade de Ponte de Lima. A proposta recentemente apresentada pelo Dr. José Nuno Vieira de Araújo, merece, por isso, consideração e apoio: trata-se de honrar a memória de quem, com visão e autoridade, lhe concedeu o foral e a inscreveu na história nacional.

Porque só os povos que respeitam o seu passado merecem construir, com firmeza, o seu futuro.