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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

20
Set14

 Em 2012 Portugal ocupava o terceiro lugar no ‘ranking’ dos países onde ter um emprego não é garantia de poder pagar as contas ao fim do mês (à nossa frente encontravam-se a Bulgária e a Roménia). Em 2013 a Cáritas Portuguesa e a Cruz Vermelha Portuguesa confirmaram a tendência: um elevado número de pessoas com emprego a tempo inteiro já não conseguem pagar as contas e meter comida na mesa.

Pessoalmente conheço imensos casos destes e inclusive de pessoas em estado de pobreza com rendimentos mais elevados que os do ordenado mínimo nacional - que em termos europeus é miserável e terceiro-mundista, coisa que aparentemente não incomoda nem os nossos governantes nem o nosso patronato.

Ora bem, se o triunfo do capitalismo neo-liberal se deve, em teoria, à premissa de que só os preguiçosos que não querem trabalhar não conseguem acumular riqueza (teoria muito querida da direita portuguesa, não importa qual a sua cor ou representatividade, e inclusive de alguma esquerda intelectual rendida aos benefícios do capital) o que é que está a correr mal?

Podemos sempre escudar-nos do aumento constante do custo de vida, afinal Portugal tem os bens de primeira necessidade (água, luz, gás e – sendo modernista – internet) mais caros da Europa, preços equiparados ou inclusive mais caros que os países do norte da Europa onde o ordenado mínimo é, em média, o TRIPLO do nosso. Sobem também os impostos, o preço da comida, do combustível (também dos mais caros da Europa), em suma: sobe tudo excepto o ordenado dos portugueses, por mais produtivos e assíduos que sejam.

Mas o grande elefante que toda a gente ignora, por mais que tropecem nele, não é tanto que os portugueses ganhem 500 euros mensais mas que metade ou mais de metade desse valor sirva para pagar o empréstimo à habitação, o empréstimo do carro, ao consumo ou algum empréstimo de estudante. Resumindo: a geração quinhentista vive falida porque, em termos práticos, trabalha para aquecer entregando aos bancos o fruto desse trabalho, já em si mal pago. E o que fazem os bancos com o dinheiro que tão arduamente lhes entregamos? Vão à falência e depois são salvos pelo Estado. Hoje nem vamos tocar na vaca sagrada dos preços loucos, irrealistas e inflacionados das habitações nem do arrendamento urbano nas grandes cidades, essa é outra luta embora faça parte deste mesmo problema.

[Pubicado no semanário O Diabo a 12 de Agosto de 2014]

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