Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

O partido Vox volta a anexar Portugal ao mapa espanhol, a propósito do Dia da Hispanidade

José Aníbal Marinho Gomes, 13.10.21

O Dia da Hispanidade celebra a chegada de Cristóvão Colombo à Ilha Guananí, no arquipélago das Bahamas, em 12 de Outubro de 1492 e é considerado por alguns historiadores como o primeiro contacto entre a Europa e a América, motivo pelo qual, no país vizinho, é feriado nacional, instituído pela lei 18/1987, o qual, de acordo com o Boletín Oficial del Estado (BOE), simboliza “o acontecimento histórico em que a Espanha, prestes a concluir um processo de construção do Estado com base na nossa pluralidade cultural e política, e integração dos Reinos de Espanha na mesma monarquia, inicia um período de projeção linguística e cultural para além dos limites europeus”.

FBe9jRUX0AA87MS.jpg

No dia 12 de Outubro de 2021 o partido nacionalista espanhol VOX publicou na rede social Twitter um cartaz alusivo ao Dia da Hispanidade que ontem se comemorou, aparecendo Portugal como parte de Espanha, bem como alguns Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP’s) - Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Brasil.

A acompanhar o mapa-mundo, o partido nacionalista escreve a seguinte mensagem: “A Espanha tem muito a comemorar e nada do que se arrepender. Num dia como hoje, há 529 anos, Colombo descobriu a América e começou a Hispanidade, a maior obra de geminação realizada por um povo na história universal“.

E na parte superior do mapa há uma bandeira do período filipino, com as armas de Portugal e de Espanha, lado a lado, usada durante o período de anexação, pela força das armas, de Portugal por Espanha (1580-1640).

Infelizmente, esta atitude por parte do Vox, de anexar Portugal ao mapa espanhol, já não é nova, uma vez que no dia 5 de Janeiro de 2020, também na rede social Twitter, este mesmo partido, numa publicação destinada a convocar os espanhóis para manifestações a realizar no dia 12 de Janeiro, em frente às Câmaras Municipais de Espanha exigindo ao governo que respeite “nuestra soberania”, tinha anexado, no mapa apresentado, o nosso país, demonstrando total falta de respeito pela soberania portuguesa, numa atitude provocatória e arrogante para com Portugal. E só a 7 de Janeiro, dois dias após esta publicação e mercê da forte pressão exercida nas redes sociais, é que Portugal foi retirado daquele mapa.

Mapa usado pelo partido na convocatória para a ma

Caro Santiago Abascal, se não sabe, Portugal, como nação independente, tem 878 anos de existência, com a fronteira mais antiga e estável do território europeu, e, como tal, é um dos países mais antigos do mundo, pelo que lhe é devido respeito por todos, quer se trate de líderes políticos ou países.

Como desconhece a nossa Grandiosa História, convém referir que Portugal tem existência como país independente desde o Tratado de Zamora, assinado entre D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, e Afonso VII de Leão e Castela no dia 5 de Outubro de 1143, pelo qual se reconhece Portugal como reino independente, tendo o Papa Alexandre II confirmado esse estatuto jurídico a 23 de Maio de 1179, através da bula Manifestus Probatum.

De igual modo, é importante não esquecer que no final da tarde de 14 de Agosto de 1385 as tropas portuguesas comandadas por D. João I de Portugal e pelo condestável D. Nuno Álvares Pereira, derrotaram o exército castelhano, liderado por D. Juan I de Castela, que pretendia usurpar a coroa portuguesa, pondo fim à crise de 1383-1385, e à consolidação de D. João, como Rei de Portugal, o primeiro da dinastia de Avis, dinastia esta que permite que Portugal seja uma nação politicamente estável e possibilitando o início dos Descobrimentos.

Luís Vaz de Camões, na epopeia “Os Lusíadas”, chama aos filhos de D. João I e de D. Filipa de Lencastre “Ínclita geração, altos Infantes”. Foi devido a um dos seus filhos, o Infante D. Henrique também conhecido como “Henrique o Navegador”, que as nossas caravelas cruzaram os mares, navegando até África, ao Oriente e ao continente sul-americano.

A 21 de Agosto de 1415, sob o comando de D. João I, Portugal conquista Ceuta, marcando o início da expansão territorial marítima portuguesa e a era da globalização.

Em 1418 é descoberta a Ilha de Porto Santo e em 1419 a Ilha da Madeira. Os Portugueses chegam aos Açores em 1431 (?) e em 1434 Gil Eanes dobra o Cabo Bojador, proeza esta que foi um dos marcos mais importantes da navegação portuguesa, permitindo a entrada em mares até então desconhecidos. Bartolomeu Dias em 1488 dobra o Cabo da Boa Esperança, que permitiu a ligação entre o oceano Atlântico e o oceano Índico. Em 1498 Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia.

E tudo isto antes de 12 de Outubro de 1492…  a data em que vocês celebram como “Dia da Hispanidade”.

Contudo não ficamos por aqui: Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil em 1500. Em 1508, os portugueses chegam a Oman, à Malásia em 1511, a Timor em 1512, à China em 1513 e ao Japão em 1543, abrangendo, por esta altura, o império Português três partes de mundo.

Mas no séc. XVI, com a morte do Cardeal-Rei D. Henrique, a coroa fica vaga, e foi ocupada através da força, pela dinastia filipina, numa união pessoal, que durou 60 anos, até que, no dia 1 de Dezembro de 1640, um grupo de heróis Portugueses, conhecido como os “40 conjurados”, expulsaram os espanhóis, restaurando a independência de Portugal, com um rei legítimo e Português, D. João IV.

Foi a partir do exemplo dado por Portugal que Espanha e França, se lançaram à navegação e exploração do Oceano Atlântico.

Domingos_Teixeira_(1573).jpg

Mapa de Domingos Teixeira que representa o Império Português em 1573

Portugal foi primeiro império global da história, espalhando-se ao longo de um amplo número de territórios que hoje fazem parte de 53 países distintos, abrangendo quase seis séculos de existência, a partir da Conquista de Ceuta, em 1415, até a devolução da soberania sobre Macau à China, em 1999.

Sr. Abascal, a história de Portugal em nada é inferior à de Espanha, e, para a narrarem, os Portugueses não precisam de anexar países terceiros.

E se algum português ou algum movimento, publicasse numa rede social, no dia 10 de Junho, “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, um mapa de Portugal, onde por exemplo, Madrid, fizesse parte do mesmo, recordado a sua ocupação, a 28 de Junho de 1706, pelas tropas portuguesas, comandadas por António Luís de Sousa, Marquês das Minas, ainda que apenas durante 40 dias, será que o Senhor Abascal gostaria?

Ah, já me esquecia! Uma vez que é um defensor acérrimo da soberania, seja um dos promotores, junto dos seus pares, da devolução de Olivença a Portugal, ilegalmente ocupada por Espanha, e apresente um pedido formal de desculpas ao Povo Português, deixando-se de uma vez por todas de tiques expansionistas!