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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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05
Jun19

Crónicas da Nau Catrineta


Sónia Ferreira

Parte 4

Lição de História

Isto de ter de educar pequenos seres humanos tem um revés. Às vezes são as crianças que nos ensinam qualquer coisa ou que nos mostram uma forma simples de olhar para questões complexas.
O meu filho pediu ajuda para estudar História. “Os Descobrimentos Portugueses são uma seca mamã.” Respirei fundo e pensei que tinha de dar a volta àquilo. Na geração do meu filho “tudo é uma seca” a menos que envolva botões, danças alienígenas e estímulo audiovisual. É, de facto, um problema ou simplesmente algo para o qual nos temos de preparar e adaptar.
Fechei-lhe os livros, desliguei-lhe o Ipad. Sentei-me com ele e expliquei-lhe de forma quase teatral o que foi para os homens daquele tempo meterem-se ao mar. Tentei fazer do discurso um relato de aventura com um ou outro toque Marvel, sem colar personagens históricas a um universo DC. Muito embora para uma criança de 11 anos heróis de capa e collants sejam bastante mais apelativos que marinheiros com escorbuto, temos de concordar.
Foi aí que me lembrei do “Mostrengo”. Sempre gostei do “Mostrengo”. É um poema que exalta as qualidades daqueles que tinham uma missão e que a cumpriram a custo próprio. É daqueles poemas que ainda hoje me arrepia sempre que o leio.
Arrisquei. Li lhe o Mostrengo e sem lhe dar hipóteses de entrar em modo “seca” passei à explicação.
- …E o capitão do barco olhou para a tempestade e pensou “Eu vou conseguir”. Pegou numa corda e amarrou-se ao leme. Alguns marinheiros cheios de medo esconderam-se no porão, mas outros fizeram o mesmo que o seu capitão e prepararam-se para passar o Cabo ou morrer ali.
- E não tinham medo, mamã?
- Tinham. Tinham muito medo. Mas naquela altura era assim. As pessoas tinham medo mas também tinham vontade. Tinham curiosidade de descobrir coisas novas, de levar histórias de locais diferentes para casa. Descobrir o mundo misterioso. Os portugueses eram assim, curiosos, destemidos e determinados. Descobriram muitas coisas e eram muito persistentes. Não desistiam de nada até lá chegar.
Os olhos do meu filho seguiam as palavras. Acreditei que tinha despertado a sua mente. Agora estava focado para estudar e olhar para os livros de outra forma. Missão cumprida, pensei. Mas ainda não tinha saído do quarto quando me voltou a chamar:
- Mamã…
- Sim filho.
- Onde estão estas pessoas? – questionou olhando para a imagem do livro que acabara de abrir. Eu percebi o que quis dizer. Afinal, é meu filho.
Suspirei profundamente. Depois uma ideia surgiu.
- Estão na Aliança. – Sorri e pisquei-lhe o olho.
Enfrentemos então, o Mostrengo.

 

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