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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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25
Fev19

Crónicas da Nau Catrineta


Sónia Ferreira

Parte 2

Uma questão de pobreza (e não é de espírito).

Sinto empatia por aqueles que nada têm. Sou enfermeira de formação e para mim a empatia é para o carácter, o que o citoplasma é para a célula.

Como qualquer outra mortal feita de carne, de sentimentos e alma perturba-me aqueles que dormem na rua e a quem a sociedade segregou. Questiono-me o que terá levado um ser humano ao fundo do fundo do poço, ao limite da pobreza.

 Que escolhas  terá feito, que decisões erróneas tomou, que passos o terão levado ali,  áquele átrio de escada ou áquele cartão fétido onde dorme…

Choca-me.

Quero estender a mão, libertar-me do ruído da cidade e escutar a história por de trás do indivíduo e perceber para tentar resolver.

E sim, a sociedade tem de ter estratégias e estrutura para actuar. É grave, não pode ser!

Mas há outras coisas que me chocam ainda mais. (será possivel, perguntais vós,  o que é mais chocante que a miséria… o fim da linha?)

O meu citoplasma agita-se e sim, há outros pobres que me deixam ainda mais incomodada.

Aqueles que se levantam da sua cama ás 5:30 da manhã para deglutir um café mal amanhado e apanhar o autocarro e depois o barco e o metro para chegar de forma pontual ao seu emprego, trabalham 10 horas e repetem a procissão há mais de dez anos e ainda assim… são pobres.

Aquelas que ás 6:00 conseguem tirar os dois filhos da cama depois de terem preparado os seus lanches e almoços repletos de hidratos de carbono, glúten e açucares saturados. Deixá-los na escola, ir trabalhar e voltar para os vir buscar com o melhor sorriso de mãe, perto das 20:00, a cheirar a lixivia ou a choco frito, fartas de trabalhar e ainda assim… são pobres.

Aqueles que investem numa profissão, têm uma carreira, orgulham-se de ser “formados” mas devem dois recibos da luz, sobra espaço no frigorífico e não se podem dar ao luxo de faltar quando vem a gripe A porque afinal até têm um canudo e… são pobres.

Preocupa-me aquela grávida que vem à consulta e diz que a partir do dia 10 de cada mês já não pode comprar fruta e vegetais frescos porque… é pobre.

Chocam-me aqueles que, trabalhando afincadamente são pobres.

Mantém a máquina a rodar, pilares da nossa sociedade, alicerces da nossa vida, classe média emagrecida que é: pobre.

Rotina diária, sem expectativa, trabalhar por trabalhar porque esta é a nossa vida.

Produzir mais e melhor para quê se vou ser pobre, sempre fui, sempre serei, mesmo que sue o sangue porque as lágrimas já se foram e ainda assim o despertador toca e não posso chegar atrasado..

E agora vem o Natal e o que é que vou dar às crianças…

E lá vem o senhorio, vou olhar para o lado…

E conta aí as moedas a ver se dá para o fiambre e diz que te esqueceste do cartão em casa…

E que é que vou inventar para dar de jantar hoje?

Choca-me.

 

A vida é dura para quem (não) é mole.

 

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