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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

26
Fev09

Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado...

Eu não sei o que sou.
Não sei se sou o sonho
Que alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa história que um deus está relendo...

 

Fernando Pessoa

25
Fev09

"Quem escreve quer morrer, quer renascer

num ébrio barco de calma confiança.

Quem escreve quer dormir em ombros matinais

e na boca das coisas ser lágrima animal

ou o sorriso da árvore. Quem escreve

quer ser terra sobre terra, solidão

adorada, resplandecente, odor de morte

e o rumor do sol, a sede da serpente,

o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,

o negro meio-dia sobre os olhos. "
 

António Ramos Rosa

24
Fev09

"É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer."

 

Eugénio de Andrade

23
Fev09

Este texto já está há muito para ser escrito, pelo menos já foi pensado, provavelmente idealizado e só nunca passou a texto, efectivo como é óbvio, por falta de tempo e inspiração. Por falar de inspiração e antes que o mesmo gere confusão, assumo perante o tribunal confessional da escrita, que nasce em parte como consequência da leitura atenta do “Elogio do Amor”, publicado no Expresso, pelo Miguel Esteves Cardoso. Do pouco que conheço da técnica de escrita, sei que ao começar assim este “manifesto”, o faço mais desinteressante. Então, óptimo. Parto agora do princípio que só o irá ler quem estiver efectivamente interessado nesta glosa.


Durante os últimos tempos, tenho vindo, por força da escrita e ainda mais da vida, a pensar sobre o que é o amor. Até agora nada de novo. Quem nasce português e é educado na cultura lusitana, vem formatado, como se de um computador se tratasse, para ser uma criatura eminentemente romântica. Pelo menos assim era. Basta fazermos um périplo pela literatura, com um especial enfoque para a poesia, portuguesa de sempre – o escritor português é aquele que ama da forma mais bonita, correndo o risco do pleonasmo: mais romântica. Haverá amor mais belo do que o provocado pela tristeza, pela dor, pela perda e pelo amor impossível?


O que seria de um Camilo Castelo Branco se não houvesse “amor de perdição”, o que seria de Florbela Espanca sem a loucura do desejo e dos afectos, o que seriam das Cantigas de Amigo? Faria sentido um Antero de Quental sem a pólvora do suicídio? A quem gritaria Eugénio de Andrade que “é urgente o amor, é urgente um barco no mar”? Tudo no amor, pelo menos literário, deixaria de fazer sentido sem a doce tragédia e tristeza do romance. O pior é que o amor deixou de ser literário. Passou a ser real, momentâneo, descartável, oportunista e fútil, terrivelmente fútil, ignóbil, medíocre e calculista. E porquê? Por causa da crise.


O país está em crise, leiam os analistas, vejam os jornais, vasculhem os blogues e os folhetins de esquerda distribuídos às portas das fábricas. Percorram as ruas e vejam como as pessoas estão tristes, as esplanadas vazias, as árvores parecem despidas e não. Não me digam que é por ser Outono. Tudo isto acontece por causa da crise. Acontece que quem manda na crise é o governo e quem manda no governo são os políticos, que por sua vez são mandados pelos gestores, pelos capitalistas, pelos sindicalistas, pelos economistas, pelos jornalistas, pelos ginecologistas e por muitos outros “istas”, que provocaram deliberadamente esta crise.


Começo a ficar irritado. Cheguei hoje da Catalunha e lá também se fala da crise. Dizem até que todos os governos mundiais estão a privatizar os bancos. E daí? Que eu saiba todos os bancos da Av. da Liberdade, do Rossio, da Av. da Igreja e do Jardim da Parada são do estado. Alguém se preocupou com isto até agora? Acho que a crise, a ser mundial, tem que ter um culpado. Esperem, acho que agora estamos a chegar a um ponto óptimo de raciocínio. Conhecem alguma coisa tão universal como a crise? Vá pensem, não custa nada. Acendam um cigarro e descalcem os sapatos, é fácil caramba! Não há nada mais universal do que o amor.


A falta de amor trouxe a crise ao mundo. Por favor não me julguem ingénuo ao ponto de acreditar que existe algum elemento mais influenciador de uma crise do que o amor. Podem-me dizer que é a guerra, então e o que provoca a guerra? Talvez a falta de amor. Então e o terrorismo? Talvez a falta de amor. Mas esperem, e a exploração do homem pelo homem? Talvez a falta de amor. E a corrupção nos mercados mundiais? Talvez a falta de amor. E o tráfico de mulheres, de drogas e armamento? Talvez a falta de amor. E o capitalismo desenfreado que só vê o lucro pelo lucro? Talvez a falta de amor. Querem resolver mesmo a crise? Então resolvam primeiro o problema da falta de amor.


Então e que há a fazer? Muita coisa meus amigos, muita coisa. Assassinem os ministros, os banqueiros, os gestores e os jornalistas. Todos, um por um. Agora contratem poetas, escritores, pintores e músicos para governarem o mundo. Proíbam as leis, os juízes e os advogados, incendeiem as gravatas no Rossio e fechem tudo o que vá da Fontes Pereira de Melo até à Avenida da Liberdade. Decretem greve nas fábricas e distribuam chocolates e flores pelas ruas. Vistam os polícias de branco, fechem os aeroportos, as fronteiras e ponham fim à televisão. Mais importante do que isto e citando o MEC, decretem guerra aos “romanticidas”. Quero lá saber do Bin Laden, do Saddam, da ETA e das FLAMA. Esses “romanticidas” sim são terroristas. Ponham-nos a todos no Campo Pequeno, ou cerquem-nos  no quartel do Carmo e se quiserem até os podem atirar ao Douro. Mas acabem com essa raça. Agora estou a ser racista é? Muito bem, admito: sou um puro xenófobo anti-romanticidas.


Sejamos realistas, nada disto é possível. Até a escrita está interdita a estes pensamentos anarquistas, que só pecam por serem verdade. Façamos pelo menos um esforço, do género Primavera de Praga do amor, Revolução dos Cravos da paixão, Revolução de Veludo do romance e vamos da República Checa a Portugal, restaurar o amor no mundo. Um género de transição pacífica.


Vamos começar por uma Lei simples, melhor, um texto constitucional, que condene todos os romanticidas. Considera-se pois decretado:

 

Art. 297º da C.R.P.


1º Está proibido o amor, namoro, noivado, união de facto ou casamento, por parte daqueles que não reconheçam a sua pureza, a sua loucura e a sua eloquência.


2º Estão proibidas as relações sem rosas, chocolates, estaladas, berros, discussões e lágrimas, muitas lágrimas.


3º Está proibido o amor sem poesia, mesmo que má, de rima fácil e trato imberbe. Da mesma forma, estão obrigadas as cartas de amor, os versos roubados aos autores do costume, as citações de outrora e sempre, os bilhetinhos por baixo das carteiras, os piscares de olhos por entre a multidão, as dores de barriga no primeiro beijo e as bochechas rosadas ao primeiro piropo.


4º Está proibido o amor do “vamos tomar um café”, pelo que se institui o amor do beijo à chuva, do carro mal estacionado por entre o mato, das viagens pelo mundo, pela cidade e pela vida. Decreta-se assim a instituição do amor louco, em que se diz ao mundo que se pode morrer amanhã por falta dele.


5º Está proibido o mais condenável dos amores: o amor segundo plano. Desta forma que se prendam perpetuamente aqueles que pretiram o amor em função do trabalho, da faculdade, da família, do dinheiro, ou até mesmo de outro amor. A prioridade passa a ser o amor.


6º Torna-se desta forma obrigatório amar. Ao jovem e ao velho, ao homem e à mulher, ao rico e ao pobre, enfim: a todos. Que as ruas sejam invadidas pelo romance do antigamente, pela paixão louca e pelo amor. E fim, acabou a crise. De que importa ela em relação ao amor? 

 

(Texto reeditado)

23
Fev09
"Alberga o meu corpo como um velho
Leviano. Dobrado em espasmos,
De carne dura e áspera e seca.
 
Não o queiras. Não o tenhas. Não o gozes.
Na recolha dos destroços que já é.
Faz dele verbo. Faz dele prosa.
Poema sem abono.
 
Este é um corpo emigrante.
Que não admite colono."
Filipa Martins
30
Nov08

Lisboa, História Física e Moral é um livro fascinante. O seu autor, José-Augusto França, aos 86 anos, oferece-nos esta obra memorável através da qual narra as crises e as glórias da capital, o comportamento, as vaidades e as devoções dos lisboetas. O emérito historiador, crítico de arte e olisipógrafo apresenta um livro com 850 páginas onde se cruzam urbanismo, economia, política e cultura e que nos levam desde os movimentos da Placa Ibérica ao longo do período jurássico até ao início do século XXI.

28
Nov08

Este Natal, seja maximalista, ofereça dois livros enormes, em tamanho («tijolos», ambos) e em grandeza. Devem ser oferecidos ou lidos em par. A Vida e o Destino, de Vassily Grossman, (aqui, à esquerda) faz-nos viver na Rússia estalinista - a vida, a política, a guerra, o cerco de Estalinegrado - dentro de várias famílias cujas vidas se entrecruzam. As Benevolentes, de Christopher Littell, (em baixo, à direita) envolve-nos na Alemanha nazi - a vida, a política, a guerra, o cerco de Estalinegrado do outro lado da trincheira - com um oficial das SS, ocupado na tarefa burocrática de exterminar judeus e untermenschen, e suas relações, amigas, casos, camaradas, superiores como Himmler, Heydrich, Speer, Hitler.

Os dois livros são escritos de forma admirável, com uma pintura de cenários e situações, um retrato de personagens absolutamente ímpares. Ambos lidam com a condição humana em situações extremas. Interpelam-nos e perturbam, ambos, porque a cada opção de carreira, cada pensamento, cada gesto, cada triunfo, cada drama, nós estamos lá e pensamos: «Que faria eu?» Ambos os livros têm um efeito secundário: todos os outros parecem menores durante as semanas a seguir.

Para Grossman e Littell, para quem nos convida assim ao desassossego e à inteligência, nunca haverá prémio bastante. Obviamente, nenhum ganhou o Nobel.

28
Nov08

 

Este Natal, seja minimalista, surpreenda com um livrinho de 70 páginas e 433 versos que tem a vida toda lá dentro. N` A Terra Sem Vida (The Waste Land), de T.S.Eliot, os sonhos, os medos, os nojos, as esperanças, o amor, o desespero, mais íntimos - aqueles que nem a nós próprios confessamos e mal conseguimos formular - estão à sua espera para o agarrar pela alma, e apanhá-lo-ão com um arrepio. Tive o melhor conselho antes da leitura: «Leia umas onze vezes sem preocupação de entender. Depois as coisas começam a aparecer.» Se não quer andar por livrarias a ouvir que «de momento não temos», «isso está esgotado», «julgo que daqui a duas semanas sim», vá direito à Poesia Imperfeita, na Rua Cecílio de Sousa, 11, em Lisboa, e fale com Mário Guerra. Se é fluente em inglês, já sabe, amazon.com.

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