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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

A urgência do final dum ciclo

João Távora, 04.05.09

Começo esta pequena crónica por uma "não notícia": após o longo bocejo que foi o campeonato de futebol que agora está prestes a terminar,  o Porto com todo o mérito prenuncia-se uma vez mais campeão nacional. Com falta de qualidade, competitividade e um calendário inaudito, em que pontificaram várias interrupções de duas e três semanas a quebrarem o ritmo e o interesse, o maior evento desportivo nacional está em perda consolidada de popularidade: tornado num espectáculo previsível e pouco emotivo, as bancadas perderam espectadores, e como consequência alguns clubes debatem-se com a eminente falência.
A primeira página do Público de ontem pareceu-me bem sintomática do diagnóstico que exponho: na sequência de uma jornada decisiva em que os dois grandes de Lisboa cumpriram (desastradamente) os seus jogos, o diário ostentava na capa uma grande fotografia alusiva à vitória do Barcelona ao Real de Madrid. Com a democratização da oferta de futebol espectáculo na TV (mesmo que desprovido da paixão clubista), o espaço para a mediocridade doméstica é cada menos sustentável. 
Assim parecem-me prementes algumas medidas para recuperar a espectacularidade do campeonato e estancar o seu progressivo divórcio com o público. Das mais óbvias destaco a promoção de um calendário de jogos racional, jogos à luz do dia e bilhetes mais baratos que incentivem as famílias a irem aos estádios. No entanto o problema maior está na incompetência da gestão dos clubes: nada funcionará sem que o campeonato recupere alguma competitividade e imprevisibilidade - a essência e o fascínio de qualquer espectáculo.

O anticlimax

João Távora, 19.03.09

A poucos dias da final no Estádio do Algarve, não sei o que passou pelas cabecinhas da organização da Taça da Liga para juntarem Nuno Gomes e João Moutinho, qual harmonioso casalinho, numa conferência de promoção do evento. Tratou-se duma descarada mariquice rematada no final com beijinhos e abraços entre as melenas do Nuno Gomes. Assim não vamos lá (ao estádio, claro).

Quer isto dizer que a Liga de Clubes não percebe nada da poda: para encher o estádio e pôr o país a roer as unhas com um derby entre os arqui-rivais Benfica e Sporting bastam umas provocaçõezitas e uns vitupérios brandidos por ambas as partes da contenda. O futebol fala grosso, pica na barba e é politicamente incorrecto. Deixem-se de tangas!

A face da vergonha

João Távora, 11.03.09

O resultado de 12-1 sofrido pelo Sporting na eliminatória da liga dos campeões contra o Bayern é uma vergonha. Acontece que ontem à noite, motivado às tantas por uma curiosidade mórbida, eu assisti ao desafio até ao final. E sou levado a concluir que para lá da tremenda incompetência e falta de brio revelada pelos jogadores da minha equipa em campo, está um treinador que responsável,  e que não possui mais condições para exercer o cargo. Porque a hecatombe tem que ter consequências: o vexame de Munique tem uma face, um nome, um responsável que se chama Paulo Bento. Esta humilhação jamais poderá ser considerada normal, sob o risco da “aculturação da mediocridade” por um clube supostamente “grande” e de matriz “vitoriosa”: esforço, dedicação, devoção e glória que eu saiba ainda é a sua assinatura!
Até hoje defendi até às últimas a inédita política de estabilidade proclamada por Soares Franco quanto à manutenção equipa técnica. Como pessoa conservadora que sou, considero meritórios tais intentos, mas parece-me que o principio esbarra com este descalabro.
Os pergaminhos do centenário Sporting Clube de Portugal exibem a vitória por 16-1 ao Apoel de Nicósia em 1963 como resultado recordista numa eliminatória europeia. Hoje ninguém nos livra dum novo recorde, uma nódoa indelével na história do clube que não deixará de condicionar a equipe e a sua liderança a curto prazo. Isto, alcançado por uma equipa em desnorte, sem carácter ou liderança: um aviltante desrespeito para com o clube, os seus adeptos, e a sua história.

 

 

Amanhã é dia de festa

João Távora, 20.02.09

Gostar de futebol a sério é viver a vertigem dum derby. É assumir uma apaixonada rivalidade. É agigantar as expectativas e atirar os foguetes todos, mesmo antes da festa. Desdenhar os rivais, arranjar lenha para nos queimar. É a desonestidade intelectual com antecipado perdão. É um jogo perigoso para uma eufórica glória... ou apenas uma efémera desilusão. Uma salutar criancice.

 

Texto reeditado

Vacaria nacional

José Mendonça da Cruz, 10.02.09

Contra a Suécia, muita vaca e leite novo.

 

Depois dos jogadores «a dar o litro» temos agora a Selecção Nacional como vaca. É Carlos Queirós a explicar, hoje, à reportagem de televisão, a convocação de jogadores estreantes: «Se nos sentarmos num banco a beber leite sem alimentar a vaca, a vaca morre», etc.

 

 

Gosto de bola não ocupa lugar!

João Távora, 06.02.09

Ao contrário da Ana Vidal, eu gosto muito de futebol, já aqui o disse várias vezes. O futebol para mim é um ritual de tribo, em que solto as minhas emoções básicas até à rouquidão. No estádio ainda salto como se tivesse 12 anos, porque "quem não salta é lampião”, canto, assobio e insulto a mãe do árbitro, a quem sinceramente não quero mal nenhum. Mais, tenho muita pena que “a bola” em Portugal não leve mais público aos estádios, gostava mesmo de os ver sempre cheios e vibrantes como acontece em Inglaterra e nalguns recintos espanhóis. Mas somos um país atrasado e pobre, cujo povo tem outras prioridades; o mais das vezes sobram-lhe só uns cêntimos para o jornal Record, e prá licença da TV Cabo, sabe Deus como.
Com o futebol vivem-se tão vertiginosas quanto efémeras alegrias e tristezas, euforias e desilusões que se curam depressa, com uma boa noite de sono e um pouco de juízo. Ontem num zapping pelos canais do cabo, encontrei o José Peseiro, antigo treinador do Sporting, a quem o entrevistador perguntava se o tinham marcado aqueles quatro dias loucos em 2005, em que a sua equipa perdeu a final da Taça UEFA e o título de Campeão Nacional para o arqui-rival Benfica. Foram dias alucinantes: ainda hoje me arrepio com o turbilhão de sentimentos então vividos. Mas o pior para mim ainda estava para vir: por baixo do meu quarto (moro num 1º andar) fica um pub onde habitualmente se juntam benfiquistas aos urros... e nesse Domingo a canalhada festejou a noite inteira... e eu não preguei olho – uma verdadeira tortura. O problema não foram as dores de cabeça, foram as dores de cotovelo.
Ainda assim, sempre que há jogo e a minha vida o permite, faço-me à estrada com o meu enteado e rumamos a Alvalade, de cachecol verde ao pescoço na esperança daquela fugaz alegria, dum momento mágico que nos leve aos píncaros numa mágica comunhão tribal. Onde é que já se viu alguém desanuviar das tensões nervosas a ler “Em Busca do Tempo Perdido” ou a ver o Canal Parlamento?
De resto, parece-me que o que faz mal aos portugueses não é futebol a mais ou a menos, mas antes um proverbial atraso cultural e uma congénita irresponsabilidade da qual nem a Europa nem o ensino obrigatório nos conseguiram ainda libertar. Mas isso já é outra história.