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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

07
Mar09

Sem repararmos, a tinta das paredes da casa, há anos escolhida a preceito num catálogo de infinitas tonalidades, empalidece de dia para dia. As cortinas e os sofás, um dia imaculados num enxoval de expectativas, arruçaram-se do uso. Há uma torneira que de novo pinga e não veda. E o tapete qualquer dia também já vai a restaurar. Na caixa das memórias, as fotografias perdem cor, os bilhetes com sentimentos vividos, cartas e postais, ganham tons de pergaminho. São capítulos desta já antiga história.
O tempo implacável, tudo desagrega tudo corrompe. Habituámo-nos a festejar os aniversários dos miúdos todos os anos, sem contar que a existência passa, sem que a possamos pausar. Para abarcarmos definitivamente aquela pele imaculada e aqueles olhos fundos e tão grandes, brilhantes de surpresa e expectativa, tão cheios como o céu, como a vida.
Os tempos escamparam-se-nos por entre rituais. Vieram novos projectos, dias banais, muito trabalho e tantas estações. Com roupas de Verão e roupas de Inverno. Mas ressuscitámos sempre o amor, ainda mais quando o frio apertava. Fazendo das misérias as fortalezas, para não morrermos nem um bocadinho. Sempre atentos a juntar os pedaços, a compor e restaurar sempre o mesmo amor. Reinventando velhas harmonias, moldando uma obra divinal. Sem nunca desistir da grande utopia de vencermos o tempo e o mal. Sem nunca renunciarmos a ser felizes e gente maior.

 

Texto reeditado
 

 

24
Fev09
Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava de imediato um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar. As minhas mais remotas recordações do Carnaval referem-se à casa da Avenida, onde a minha bisavó Valentina imprimia ao evento uma marca particular, fruto da sua passagem pelo Brasil. Por exemplo, lembro-me de um grande boneco que nos aguardava, medonho, à entrada da casa de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória. O que me desagradava profundamente era que me mascarassem. Mesmo de Cowboy, figura heróica de todo o ano. Detestava que me pintassem com bigodes e patilhas de cortiça chamuscada, ou me espetassem com um chapéu de plástico que me caía continuamente da cabeça a baixo. Além disso ficava com uma intimidante “noção de mim”, era o fim da espontaneidade. O que eu gostava mesmo era dos lustrosos revólveres prateados e umas cargas de fulminantes para correr aos tiros atrás dos meus primos. No recreio da escola, a figura de Cowboy ainda valia o esforço de pôr a bata xadrez entalada para dentro das calças de ganga. Era o que bastava para me sentir um autêntico Cartwright. Mas isto nada tem que ver com o tema desta crónica. Carnaval para mim eram as semanas precedentes ao feriado, em que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba. Com cinco escudos possuíamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos. Nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, corríamos endiabrados à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer gandulos do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.
No Carnaval era a festa de anos do meu primo Manuel. Festas inesquecíveis, com muita criançada, em que acabávamos a tarde exaustos, enrolados em quilómetros de serpentinas, às escuras, a ver projectados desenhos animados Silly Symphonies de Walt Disney ou umas curtas-metragens do Charlot em Super 8. Na entrada da adolescência, no Liceu Pedro Nunes, por altura do PREC, quando qualquer divergência se resolvia democraticamente à pedrada, as partidas carnavalescas atingiam requintes de malvadez. Por pudor escuso-me a relatar algumas arbitrariedades por mim testemunhadas. Mas era comum detonar uma dessas poderosas bombas no “Metromijas”, o WC dos rapazes, umas instalações subterrâneas situadas no meio do pátio. Depois era esperar, após a estrondosa explosão, que as vítimas assomassem ao cimo das escadas, esquálidas e despenteadas… Chegados ao Entrudo, os excessos e a brincadeira estavam feitos e gastos. Então, sempre me pareceram patéticas as figuras daqueles miúdos mascarados em passeio com os seus babosos pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que infelizes aqueles repetidos “Zorros” e “campinos”, de bochechas pintadas e olhos tristes. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão passava-se o meu Carnaval. Mas afinal que bom que eram para mim aqueles cinco dias sem ir à escola!
Fotos: Daqui

 

Texto reeditado

19
Fev09

 

Sempre que necessito deslocar-me dentro de Lisboa, o meu transporte favorito, se por lá passar, é sem dúvida o Metro. Mas quando tal não é possível, o Táxi é uma solução bem eficiente, em certos casos até económica, se considerarmos os preços do estacionamento. Se com alguma sorte o motorista não for excessivamente intrusivo, esta alternativa torna-se até quase perfeita. Mais, quando algures na cidade procuro um Táxi, e se puder escolher, garanto-vos que escolho um Táxi "verde e preto", que é a cor verdadeira dos táxis. (quando era pequeno eu considerava por exemplo que a língua pátria era a “verdadeira”, e aquelas exóticas verborreias que assistia na televisão não passavam deficientes de tentativas de comunicação). Nesse tempo, um verdadeiro táxi era um Mercedes 180, verde e preto de bancos corridos e manete de mudanças no volante cor de marfim. Quanto muito nessa altura cheguei a admitir a modernice dos “Datsuns”, umas revolucionárias banheiras com rodas que apareceram nos anos 70… mas sempre na condição alegre e tradicional do “verde e preto”.
Depois, nos anos 90, umas luminárias cá do burgo (nunca entendi bem a verdadeira história) decidiram que se pintassem todos os táxis de "cor-de-burro-quando-foge”. Hoje, é com uma confortável satisfação que vejo crescer o número de táxis “verdadeiros” na minha cidade. Coisas minhas, coisas cá deste vosso incurável conservador.
 

Texto reeditado

09
Fev09

Afogueado pela correria, cheguei uns minutos atrasado à celebração da missa dominical. E como eu detesto chegar tarde, sujeito a ficar de pé ao fundo da igreja a abarrotar, e sem tempo para me concentrar comodamente lá à frente bem perto do altar, bem perto de Jesus!

Tomo então um recanto junto às pesadas portas que teimam em abrir e fechar com os outros retardatários. Aí permaneço de espírito inquieto tentando encontrar-me com os cânticos e orações, mas logo me distraio com o sotaque destoante do meu vizinho do lado: de pele escura e cabelo crespo, um homem baixo de cabeça inclinada e mãos postas, reza com fervor. Pela roupa e traços de expressão, adivinho-lhe condição humilde, uma vida dura e solitária.

No outro canto deparo-me com uma adolescente de roupa atrevida e piercing no nariz: ela não esconde o ar contrariado, de quem dormiu pouco e aqui está por obrigação. Na sua natural ambiguidade, na busca de si próprios, os jovens por sua vontade quase sempre se arrumam na extremidade do templo, não entram, não se entregam – penso eu com os meus botões. Depois, quando chega o Aleluia, chama-me à atenção um casal de negros que com voz forte e desinibida dá graças com uma invejável convicção, com uma franqueza que só pertence aos justos. Também estrategicamente colocado perto da porta, acomoda-se um pedinte de unhas sujas e ar miserável. Pergunto-me se é a fé que o move ou apenas se protege do frio cortante lá de fora?

Ao fundo da igreja juntam-se também as mães e os pais com as crianças travessas. Noto um casal que em desespero tenta entreter o seu irrequieto petiz a todo o custo. É pela altura da Consagração, momento de inusitada intensidade espiritual, que o miúdo atinge o auge da impaciência desatando aos guinchos, obrigando o acabrunhado progenitor a uma saída de emergência para o adro. Na sua saída ainda tenho tempo de lhe acenar um cumprimento solidário.

No fim acabo reconciliado com o meu destino, com esta experiência que me arrebatou aos meus hábitos e cómodos protocolos. O povo de Deus afinal descobre-se mais claramente nas franjas desta Igreja errante e peregrina a que eu pertenço. E desta maneira ganham mais sentido as palavras de Jesus Cristo que tanto nos alerta serem os últimos os primeiros.

 

Texto orginalmente publicado n'O Afilhado

06
Fev09

Ao contrário da Ana Vidal, eu gosto muito de futebol, já aqui o disse várias vezes. O futebol para mim é um ritual de tribo, em que solto as minhas emoções básicas até à rouquidão. No estádio ainda salto como se tivesse 12 anos, porque "quem não salta é lampião”, canto, assobio e insulto a mãe do árbitro, a quem sinceramente não quero mal nenhum. Mais, tenho muita pena que “a bola” em Portugal não leve mais público aos estádios, gostava mesmo de os ver sempre cheios e vibrantes como acontece em Inglaterra e nalguns recintos espanhóis. Mas somos um país atrasado e pobre, cujo povo tem outras prioridades; o mais das vezes sobram-lhe só uns cêntimos para o jornal Record, e prá licença da TV Cabo, sabe Deus como.
Com o futebol vivem-se tão vertiginosas quanto efémeras alegrias e tristezas, euforias e desilusões que se curam depressa, com uma boa noite de sono e um pouco de juízo. Ontem num zapping pelos canais do cabo, encontrei o José Peseiro, antigo treinador do Sporting, a quem o entrevistador perguntava se o tinham marcado aqueles quatro dias loucos em 2005, em que a sua equipa perdeu a final da Taça UEFA e o título de Campeão Nacional para o arqui-rival Benfica. Foram dias alucinantes: ainda hoje me arrepio com o turbilhão de sentimentos então vividos. Mas o pior para mim ainda estava para vir: por baixo do meu quarto (moro num 1º andar) fica um pub onde habitualmente se juntam benfiquistas aos urros... e nesse Domingo a canalhada festejou a noite inteira... e eu não preguei olho – uma verdadeira tortura. O problema não foram as dores de cabeça, foram as dores de cotovelo.
Ainda assim, sempre que há jogo e a minha vida o permite, faço-me à estrada com o meu enteado e rumamos a Alvalade, de cachecol verde ao pescoço na esperança daquela fugaz alegria, dum momento mágico que nos leve aos píncaros numa mágica comunhão tribal. Onde é que já se viu alguém desanuviar das tensões nervosas a ler “Em Busca do Tempo Perdido” ou a ver o Canal Parlamento?
De resto, parece-me que o que faz mal aos portugueses não é futebol a mais ou a menos, mas antes um proverbial atraso cultural e uma congénita irresponsabilidade da qual nem a Europa nem o ensino obrigatório nos conseguiram ainda libertar. Mas isso já é outra história.
 

30
Jan09

 

 Em matéria de informação, continuo fiel consumidor de notícias em papel, apesar de lhes dedicar cada vez menos tempo, disperso que estou com a Internet e os blogues. Não falando de livros, coisa que daria outra crónica, lá em casa, entre a sala e os quartos, passando pelo WC até ao “ecoponto” instalado na cozinha, alastra constantemente uma assustadora praga de papéis. Ele é revistas de decoração e catálogos de moda, jornais desportivos, diários, semanários, encartes, suplementos e revistas, especializadas ou generalistas. Para bem da paz doméstica o fenómeno é aceite pelas partes, apenas requerendo alguma gestão, por forma a salvaguardarmos a estética e a liberdade de movimentos, também ameaçada pelos brinquedos dos mais pequenitos, que têm vida própria e se espalham pelos sítios mais incríveis - os brinquedos, entenda-se!
De resto o esquema está montado, foram-lhes instituídos prazos de validade: os gratuitos valem por uma viagem (nem lá chegam a entrar), os semanários morrem ao domingo à noite, os diários duram até à manhã seguinte, os desportivos caducam ao almoço e as revistas aguentam uma semana. Para mal dos meus pecados estão por definir os prazos de validade dos magazines de decoração e alguns sofisticados catálogos de que a minha extremosa patroa é fã. Estas publicações acabam invariavelmente por perdurar meses na sala a ofuscar os meus belos e majestosos livros de mesa de que tanto me orgulho. Enfim, unidos pelo gosto de ler, lá assumimos essas irresolúveis questiúnculas, sem as quais já não saberíamos viver.

22
Jan09

Sou uma pessoa basicamente indisciplinada, logo bastante desorganizada. Quando era miúdo, lembro-me bem, só não perdia a cabeça porque ele me estava agarrada. E assim se manteve até hoje nem sei bem como. Nessa altura a minha carola voava, voava. Sempre fui um sonhador, um idealista, com traços de meio poeta. Focado numa qualquer paixão de circunstância, perdia-me facilmente. Estas características cedo me guiaram ao caos. Até ao liceu não me lembro de ter agendado um teste e estudado a fundo o que fosse. Cada vez que tinha um, era um susto apavorante  ao entrar para a aula. As minhas notas eram imprevisíveis. Era capaz do melhor e do pior. Vesti muitas meias desemparelhadas, perdi documentos importantes, cadernos, livros; e até deixei a minha mochila viajar sozinha de autocarro até ao Bairro Madre de Deus. Chegado ao auge da adolescência, com as experiências inerentes ao estatuto, com as borgas mais ou menos surrealistas, o caos chegou aos píncaros. Por essa altura experimentei uma precoce e traumática experiência laboral, como paquete de uma conhecida empresa de promoção de torneios desportivos. Resultado: depois de várias broncas e humilhações descobri que só havia uma maneira de sobreviver no mundo concreto e cruel: pousar os pés no chão. Foi duro e levou muito tempo.
Hoje, passada a tormenta, considero-me um homem feliz em grande parte graças à disciplina que afincadamente cultivo e aos muitos rituais a que sou fiel. Hoje, deixo o telemóvel no mesmo sítio todos os dias. A carteira só por uma catástrofe não estará no sítio certo. Doeu muito mas hoje sou surpreendentemente metódico, quase como um computador - a descoberta da informática foi determinante para a minha organização: o meu telefone e computador apitam sincronizados quando tenho ginásio ou uma reunião. Alertam-me quando um familiar ou amigo faz anos - desta forma ainda não falhei um aniversário de casamento. Raras vezes chego atrasado a algum sítio: com o tempo aprendi a dominar o tempo. deito-me a horas e levanto-me com as galinhas, pontualmente com um delicioso café. Com os múltiplos deveres familiares e um trabalho exigente e cansativo, levo afinal uma vida bastante previsível. Quando faço uma noitada fico dois dias doente: à meia noite transformo-me numa sensível abóbora.
Hoje sou o mais certinho dos seres vivos. Convicto e sem arrependimento: promovo animadamente variadas rotinas e rituais, como se fossem as linhas e as margens de um caderno onde escrevo a minha vida. Que inspiram e suportam um projecto de vida e a minha liberdade... Que me permite fugir à rotina e até falhar a algum importante ritual. 
 

Texto reeditado

03
Jan09

A benemérita comunicação social, está empenhada em serenar os receios do seu público com notícias actualizadas sobre o “pico da gripe”. Esta estranha epidemia propagou-se entre nós após o Natal e tem ocupado entusiasticamente as redacções dos jornais, rádios e televisões, assim como os farmacêuticos, bancos de hospitais, centros de saúde e a população em geral. Diz que tem sido um ver se t’avias. Até estranhei o presidente da república anteontem não ter feito referência ao caso.
Custa-me a entender a necessidade de tanto estardalhaço mediático, comunicados e avisos à população para não entupirem os bancos de hospitais, coisa que aliás não chegou a acontecer e que logo se tornou numa “não notícia” destacada e repetida em uníssono pelos telejornais do prime time.
A mim é que não me apanham no banco de hospital ou no centro de saúde por causa de uma gripe, mesmo que seja do tipo “pico”. Tenho para mim uma máxima que reza: “pagar, morrer e ir ao médico, quanto mais tarde melhor”. A mim só me apanham no centro de saúde para ministrar as vacinas às criancinhas, ou quando uma moléstia nos  pequenotes não se resolve com as fórmulas habituais. Eu explico: ao fim duns valentes anos de paternidade múltipla, qualquer pai, além de louco torna-se também médico um pouco. Conhece as propriedades milagrosas do xarope para a tosse, do paracetamol, do ibuprofeno, e à oitava otite ou amigdalite também já arrisca o antibiótico certo. Por exemplo para mim, que tenho duas constipações por ano e uma gripe (com febres, etc) aproximadamente nos anos bissextos ou assim, ir ao médico e ao centro de saúde só se for para sociabilizar, coisa que não apetece e menos se aconselha já que o recolhimento é meia cura. “Abafa-te e abifa-te” lá diz a sabedoria popular, a mesma que depois predispõe as nossas gentes a romagens massivas aos hospitais e centros de saúde a aviar uma receita de aspirina.  Não dá para entender...

31
Dez08

Em maré de crise, há que dar uso ao termo, gastá-lo até às lonas. Depois, comprei as Selecções do Reader’s Digest na caixa do Supermercado, uma garrafa de espumante e uma passas bem mirradinhas para passar a meia-noite calmamente em casa com os pequenotes a batermos com uma colher de pau nos tachos à varanda. Comprar a revista foi um acto de saudosismo: uma agradável leitura de casa de banho, com tradições na família – em casa da minha avó havia-as dos anos quarenta com publicidade às Fortalezas Voadoras Douglas e às telefonias Zénite. Depois saltou-me à vista o título em grandes parangonas: “Luxúria , Líbido e a CRISE da Meia-Idade” – irresistível, vi logo que aquilo era um assunto importante.
Eu que sempre sobrevivi e cresci de crise em crise: a dos dentes, a dos sete anos, a da pré-adolescência, a da propriamente dita e posteriores, esperava escapar a esta. Lendo o artigo, e depois de uma curta auto-análise, imediatamente reconheci em mim alguns sintomas  preocupantes: tenho 47 anos, "mudei de emprego recentemente", "frequento um ginásio" e estou a ficar velho e careca. A meu favor tenho o facto de não ter “comprado um descapotável”, de não sofrer de "Disfunção Eréctil" (So far so good!), e de não me babar boquiaberto perante uma mulher bonita (um esforço incessantemente renovado ao longo da minha vida - nunca o escondi), não ter “comportamentos temerários”, não fazer “compras extravagantes” (!) e não andar pr’aí na galderice a “fazer tatuagens” e assim. Na dúvida, procurei nas páginas seguintes um teste de cruzinhas que me esclarecesse bem. Em vez disso, encontrei os “Flagrantes da Vida Real” e logo se me desvaneceram todas as preocupações. Mesmo em crise, financeira ou outra, há coisas que, por se manterem imutáveis, nos acalmam o espírito: como é o caso das Selecções e uma passagem de ano sossegado em casa.

 

Um ano novo feliz para todos e não dêem demasiada importância ao calendário!

18
Dez08

As máquinas café expresso invadem as nossas casas, e a cada Natal que passa o perigo é redobrado. Cá para mim aquilo do Nespresso dá um café a saber a conservantes, acho que aqueles “preparados” têm uns aromas mais próprios para rebuçados. Sou eu que o digo porque já provei algumas daquelas "drageias" do Sr. George Clooney. O assunto já foi motivo de acesa discussão com amigos e em família, as opiniões divergem, mas aquilo definitivamente a mim não me apetece: além de sair cara cada pastilha, quando tomo café em casa, gosto daquele de saco, e se tiver visitas até o faço “de balão” que tem mais estilo. Cada coisa no seu sítio!
Depois, não me tirem o passeio para o café, na esplanada ou lá dentro, no Paredão ou na Garrett, com o jornal ou um bom livro, sozinho ou em boa companhia. Ir ao café é um ritual imprescindível para o meu equilíbrio, mesmo que seja “à pressa”, ao balcão. É uma boa maneira de começar o dia, comentar com o Sr. Camilo as últimas “da bola” ou do bairro. Nisto de máquinas (caras!) já me basta a Bimbi que geme estridente lá em casa, e por quem (!) eu morro de ciúmes. Aquela treta de mil euros, que só faz um litro de sopa de cada vez, agora domina a culinária doméstica, ninguém mais quer saber dos meus prosaicos petiscos artesanais calóricos e gordurosos. É ver a criançada fazer lasanhas e outras habilidades com molho branco e tomatada, todas contentes com a mãe babada a ver.
Com a Internet já podemos trabalhar e pagar os impostos a partir de casa. Mas não exagerem: depois do "cinema em casa" querem-nos vender cerveja de pressão e a bela da bica “em casa".E até já ouvi falar de uma companhia de teatro que “actua ao domicílio”. Enfim, com um montão de euros e boa tecnologia sempre podemos viver emparedados.

Mas eu gosto mesmo é de sair para ver o povo e respirar outros ares, por isso com a vossa licença termino, que vou lá abaixo tomar a “bica” e ver como param as modas.

 
Texto reeditado
 

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