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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

07
Jan09

Estricnina vivia a suspirar pelos cantos, desiludida com a vida e desgastada por uma solidão interminável. Há muito tempo já que sentia na pele a injustiça do mundo, gravada a ferro e fogo na expressão triste do olhar. Há muito tempo, também, que desistira de argumentar sobre a sua inocência perante mentes desconfiadas e ignorantes, que insistiam em chamar-lhe venenosa. Só ela sabia como era inofensiva, apesar do véu de calúnias que resultara do episódio de um único, triste e breve noivado com um namorado temperamental, com quem se tinha visto grega. Tinham ambos personalidades fortes, é verdade, mas fora ela a beber a última gota do cálice, e não ele. Por isso tinha ficado sozinha. 

 

Tudo por culpa da Aspirina, aquela sonsa que toda a vida lhe roubara os namorados sem qualquer cerimónia. E eles gostavam, os palermas. Tinham o que mereciam, afinal: uma allumeuse inconsequente que lhes oferecia um reinado passageiro e no fim os desiludia sempre, trocando-os por um novo papalvo igualmente iludido pela pirotecnia estéril das suas actuações. Não percebiam que a irmã não tinha qualquer densidade, e que aquela evidente leveza mascarava apenas uma total ausência de substância. Já a outra irmã, a Penicilina, era uma snob sem remédio: convencida de que tinha um estatuto especial na família, guardava-se só para grandes partidos e não dava confiança a candidatos que considerasse menores, por muito sofrimento que lhes visse.

 

Mas, um dia, a sorte mudou para Estricnina. Por causa de um problema doméstico, teve que chamar a casa um técnico, e a verdade é que - fosse pela longa solidão ou pelo olhar hipnótico do desconhecido - ela sucumbiu à poderosa química do potente Cianeto (era esse o nome do rapaz)  logo à primeira tentativa de conquista. A fusão não foi pacífica e ambos acusaram, de novo, o choque de personalidades. Foram várias as explosões, mas derretiam-na sempre os ramos de beladonas, papoilas e dedaleiras (as suas flores preferidas) que ele lhe levava, quando queria fazer as pazes.

 

Viveram um amor tóxico, belo e arriscado, como todos os amores que ficam para a história. Quem ficou a perder foi a prima Morfina, que teve de deixar de viajar para fazer companhia às suas irmãs, ambas sozinhas e já em fase de arrastadeira... 

 

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