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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

07
Jan09

Era curto o caminho entre a pequena cidade e a quinta dos McGuff.

Quiçá pela distância ser assim, só dois passos de gigante, o sangue que escorria da cediça carreta que transportava os corpos era suficiente para unir os dois locais numa ininterrupta faixa escarlate.

 

O homem conhecido como Doud saiu do Saloon quando percebeu que nenhuma das prostitutas sabia dançar. Foi talvez por isso, com os olhos de quem conhece bem o sabor do desespero, que se reviu no olhar da criança que conduzia a funesta carroça.

O miúdo desceu aos solavancos, mal a marcha dos cavalos se deteve, parecendo mais velho do que qualquer ancião Cherokee com a pele curtida pelo sol.

Consumido, vomitou qualquer coisa acerca do desejo de matar todos quantos lhe violaram e esquartejaram a família.

O olhar atónito dos transeuntes foi apenas quebrado pelos passos zombeteiros do xerife local e da sua entente de rufiões, que se riram das lágrimas do miúdo com quantos dentes não tinham.

 

Doud encolheu os ombros, percebendo que afinal ninguém por ali sabia de facto dançar, à medida que as ruas se esvaziaram, deixando a pequena amostra de homem entregue à pressa dos gatilhos da trupe de cómicos, a mando do homem com estrela dourada e bafo a bourbon.

Menos violentas do que as frases acerca do cheiro do sexo da sua mãe e irmãs, as duas primeiras balas roeram as orelhas do garoto, que há muito tinha deixado de sentir fosse o que fosse.

 

Foi aqui que Doud impediu que um terceiro projéctil se misturasse com a massa cinzenta de onde brotavam os pensamentos de vingança do puto.

Poucos saberiam explicar que estranha dança fazia o pistoleiro enquanto servia generosas porções de chumbo aos homens que, entretanto, deixaram finalmente de rir.

Elegante, ele rodopiava numa valsa bruxuleante de violência. Um tango de morte, ritmado por trovões de cordite e pólvora, que renasciam sob a dádiva de sangue e dor.

 

A poeira assentou no palco maior da rua principal, ficando apenas a respirar o pistoleiro, o miúdo e o xerife das rótulas ensanguentadas.

Em posição de pliê, Doud entregou uma das Smith & Wesson fumegantes ao rapaz, afastando-se imediatamente para dar lugar ao pas de deux que se seguiria.

 

Reentrou no saloon e pediu ao pianista que tocasse.

Sorriu quando ouviu um tiro no exterior. Com jovens aprendizes como o mais novo dos McGuff, a sua arte encantaria as massas durante muitas e boas décadas.

 

©ND, 2009

 

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