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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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03
Jan09

Se professor é quem ensina (a andar, falar, pensar…) a minha avó Vessadas é a primeira e grande mestra da minha vida. Julgo nunca ter dito isto assim, em nota pública, mas esta minha avó – que está prestes a entrar no restrito grupo dos nonagenários – foi (é) a pessoa mais importante no meu tirocínio. Antes de sentar o rabo num banco de escola, lembro-me de ir com a minha avó Vessadas para o Campo de Santa Clara, onde ela dava aulas da 1ª classe. Eu ficava à retaguarda, nos bancos dos fundos, ao lado de um calmeirão (para mim, o miúdo era do tipo elefantino). Como era o neto da "stôra" olhavam para mim de lado, mas com o tempo (fui lá umas poucas de vezes), acabei por ser incluído e ganhei mesmo a alcunha de Tintim graças a um redemoinho que perdurou até aderir ao semblante heavy-metal na adolescência. Nessa altura, os professores não eram apedrejados por fazerem destas coisas ultrajantes, como levar os netos para a escola antes sequer deles terem idade para isso. Nas aulas da avó Vessadas aprendi o bê-á-bá (e as linhas de caminhos-de-ferro e os rios e a tabuada) como os mais velhos costumam dizer “à moda antiga” (com açoites de régua e demais ensinamentos). No ano seguinte, quando comecei a escola primária no Bairro de São Miguel, em Lisboa, nas aulas da professora Maria Olinda parti em vantagem o que em vez de ser um feito tornou-se penoso. Alguns dos coleguinhas de turma, julgavam-me uma ave rara, um sobredotado ou assim e olhavam outra vez para mim de lado. Para mim e para a Zara, não a filha do empresário do vestuário, mas uma belíssima goesa, também ela proscrita graças à idade avançada de 8 anos. Por solidariedade marginal, iniciámos um amor infantil e mantivemo-lo até ela debandar para Bombaim (o nome bizarro para uma criança fixei-o, porque ainda guardo a última carta dela, em que me chamava “peixinho”)

 

No Liceu, comecei por ser aluno do Rainha D. Leonor e daí só recordo um professor de Ginástica com bigodes de piaçaba que me deu um 5 à custa de fazer pinos de acrobata chinês e esparregatas como as meninas do ballet. No fim do primeiro período mudei-me para o Liceu de S. João do Estoril e aí tive o insuperável professor Joaquim Paiva, a quem devo os melhores puxões de orelhas, e o mais preciosos, superados apenas na importância pedagógica pelos da Maria Augusta Silva, minha editora no Diário de Notícias. O professor Paiva era aquilo a que se chama em rigor “uma sumidade”. Estava no Liceu encarregado do Português mas podia estar no Olimpo, ao lado de Séneca ou do Luís Vaz. Uma das primeiras aulas depois de me recambiarem para S. João foi a do professor Paiva. Era aula de teste, Os Lusíadas a debate e uma pergunta apenas, para desenvolver, sobre a Ilha dos Amores, que se teria passado entre tripulantes e ninfas? Estaria ali o busílis para a afamada miscigenação? Todo eu amoroso, dissertei então (de improviso) sobre as virtudes do Sol dos Trópicos no intumescimento (e enrubescimento) dos marujos do Gama e de como tal apanágio da lusa obra (e do pau para toda ela) ditou o nosso azar futuro. Fi-lo em poesia de pacotilha e não me teria dado mal na demanda, não fosse a provocatória observação do professor Paiva que me perguntou se só havia “intumescidos” na ilha. Então e as “engurgitadas”, não eram filhas de Deus? Dessa lição de sexologia quinhentista conservo as melhores impressões e apesar do chumbo, da admoestação e do ralhete por semelhante palavreado, guardo até hoje a mais saudosa memória do aprendizado do professor Paiva.

  

Depoimento escrito para o Jornal de Letras sobre "Os professores da minha vida" a pedido da ilustre jornalista Maria João Martins

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