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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

25
Dez08

(na continuação da leitura do post da Ana Vidal, lembrei-me de partilhar convosco este pedacinho de um texto que escrevi há tempos e que está no meu livro «Viagens Sentimentais». É um dia na vida de um andarilho, o meu ofício, neste caso nas montanhas dos Himalaias)

 

Do que mais gostei na subida foi de entender o que importa na vida dos sherpas: ter um prato de comida, pernas para andar e acabar o dia com um abraço a alguém que amamos e uma oração sincera por aqueles que nos querem mal. De Pangboche, o retrato de sépia: aldeola com casas de tecto plano, bandeiras de oração e sacos de esterco deitados ao sol como panquecas ou velhas gordas; no cimo da aldeia, ergue-se um pequeno gompa (mosteiro) com um telhado curvo e dourado sobranceiro ao rio – que aqui corre docemente – e ao penhasco que parece uma colmeia. No socalco mais próximo do rio dorme um iaque tresmalhado. As coisas mais efectivas são as mais simples e directas. Noutra aldeia do trilho, à porta das casas (cavernas embutidas na montanha), as mulheres espreitam quem passa, de olhos minguados pela falta de luz. Atrás, há uma ponte pênsil guardada por soldados desocupados. Pastores guiam rebanhos que pastam em moitas violeta. o rugido do rio afoga qualquer outro som. Acordamos na Primavera e deitamo-nos no Inverno. A neve cobre suavemente o mundo, a luz côa as montanhas ocre de um branco cintilante. Há neve na erva suspensa e nas margens pedregosas do lago. O único sinal de vida é a sombra escura e curvada de um iaque. Sinto o silêncio e a solidão, dois meios-irmãos inseparáveis. A melhor parte do dia será a tarde de descanso nas pastagens de altitude. Deslaçar a sacola, fazer posições de praia no capim e gozar a borla da paisagem com uma chapati de queijo coalhado e um termos de chá de menta. Sopro então como um fole para dentro das mãos frias. Um gaiato, escondido atrás das pedras do chorten (monumento tibetano às leis naturais), aparece de supetão com a oferenda de uma bolacha e um caracol de canela (como os há por ali melhores do que na pastelaria Suíça). o velho carregador, um velho muito velho com cara de pergaminho, sorri com um sorriso de dois dentes.

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