Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

25
Dez08

 

Ao ler aqui em baixo esta passagem de Natal do Evangelho (uma das que o João  Távora nos deixa aqui, regularmente, num acto de uma certa coragem e de  verdadeira liberdade de expressão) constato uma vez mais que, embora a minha fé deixe muitíssimo a desejar, não conheço nenhuma outra mensagem nem outro exemplo de vida tão sublimes como os de Jesus Cristo: "(...) um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura". Simplicidade, humildade, insubmissão, coragem, grandeza interior num exterior sem afectações. E a reflexão que esta leitura me suscita lembra-me uma acesa e proveitosa conversa entre amigos, ainda não há muitas semanas.  Dois desses amigos eram budistas convictos, os outros, católicos esclarecidos e mais ou menos praticantes. A discussão centrava-se nas comparações entre o Cristianismo e o Budismo como filosofias de vida, como orientação de conduta para os seus seguidores. Diziam os budistas que o Budismo não é exactamente uma religião e que, por isso mesmo, é, em teoria, compatível com a prática de outras religiões (incluindo a cristã). E que a busca incessante do aperfeiçoamento pessoal, ao longo de uma vida, é a melhor forma de conquistar a tal santidade de que falam os cristãos e de contribuir para um mundo melhor e mais pacífico. Diziam os católicos, pelo seu lado, que o Budismo obriga a uma espécie de reclusão espiritual que é impraticável no Ocidente e quase impossível nos dias que correm, a não ser em ambientes preservados de quase toda a agitação e solicitações normais da forma de viver ocidental, ao passo que o Cristianismo é aplicável em sociedade, e torna essa sociedade mais humana e fraterna.

 

Mas as diferenças da prática não são o mais importante, para mim. Há uma certa matriz comum que me agrada e tranquiliza, a mim que sou totalmente pelo ecumenismo.  Assim como existem diferenças estruturais, evidentemente, das quais a menor não será certamente a crença na reencarnação. Mas é na essência de ambos - Budismo e Cristianismo - que eu vejo afinal a maior clivagem, e é nessa essência que a mensagem do segundo me parece de uma beleza e de um alcance incomparavelmente maiores. Por muita simpatia que eu tenha pelos preceitos budistas - e tenho, sobretudo pela ideia da conquista da serenidade para enfrentar os desafios dum mundo cada vez mais difícil de compreender - e mesmo reconhecendo que há em ambos a mesma exortação ao despojamento de bens e de hábitos que nos prendem ao que é material e nos afastam da espiritualidade (a distorção que os homens fizeram da mensagem de Cristo não a desvaloriza em nada, apenas a desmerece), a diferença fundamental está no objecto de atenção e na direcção do olhar: o Budismo convida-nos olhar para o interior de nós, a virarmo-nos "para dentro". O Cristianismo, pelo contrário, convida-nos a esquecermo-nos de nós próprios e a centrarmo-nos nos outros, ou seja, a virarmo-nos "para fora".

 

Se imaginarmos um mundo ideal em que esses preceitos fossem seguidos à regra por todos, teríamos bem visível essa diferença: num mundo budista, cada ser humano cuidaria da sua própria felicidade e não impediria ou ameaçaria a dos outros, que fariam o mesmo. Uma exigente espiral de auto-conhecimento e espiritualidade evoluiria naturalmente, a caminho da perfeição, e o bem-estar de cada um dependeria exclusivamente de si próprio; num mundo cristão, cada ser humano se preocuparia com os seus semelhantes e se esqueceria de si próprio, cuidando da felicidade e bem-estar dos que o rodeavam e sabendo, sem que tivesse de pedi-lo, que alguém faria o mesmo consigo.

 

Sendo ambas as visões de paz e harmonia, a segunda é francamente mais solidária e por isso a prefiro. Voltando ao princípio, repito que a minha fé deixa muito a desejar. Gostaria de preocupar-me muito mais com os outros do que comigo própria. Gostaria de aprofundar muito mais a minha espiritualidade. E gostaria de ter ainda aquela credulidade limpa de desconfianças que há nos olhos das crianças felizes, e que fui perdendo com o tempo. Estou a anos-luz de alcançar algum desses planos, e tenho plena consciência disso. Talvez um misto de Budismo e Cristianismo seja o segredo para a harmonia do mundo, não sei. Mas o supremo e dificílimo desafio de uma entrega incondicional, como aquela de que Cristo foi exemplo, constitui, para mim, um objectivo muito mais alto e belo do que a minha própria perfeição.

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Publicidade

Comentários recentes

  • Anónimo

    Exmo. Senhor;Gostaria de saber se possível, o loca...

  • Ribeiro

    Parabéns pelo texto, coragem e frontalidade, apoia...

  • Anónimo

    Perfeito todo este artigo!!!

  • Anónimo

    O acto da "escolha" de um Rei, em sim mesmo, é men...

  • José Aníbal Marinho Gomes

    Resposta da Senhora Deputada Dr.ª Ilda Maria Arauj...

Links

_EM DESTAQUE

_RISCOS ASSUMIDOS

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D