A entrevista de João Cotrim de Figueiredo – o liberal que pediu ordem à desordem

Há entrevistas que são um retrato fiel do entrevistado e outras que, sem querer, são um retrato do país. A de João Cotrim de Figueiredo à SIC, conduzida por Ana Patrícia Carvalho, foi as duas coisas. O antigo líder da Iniciativa Liberal falou com o rigor que lhe é próprio, com a calma de quem confunde serenidade com razão, e com a convicção de que a República pode ser reformada por dentro, como se a casa se pudesse arrumar sem tirar os alicerces. O resultado foi, portanto, uma conversa limpa, civilizada e lúcida — mas, como quase tudo o que é republicano, também um pouco ingénua.
Cotrim de Figueiredo acredita que basta vontade e competência para regenerar o Estado. Falou de transparência, de mérito, de liberdade, e de um país onde o cidadão é o centro da decisão. Tudo muito digno, e até nobre, não fosse o pequeno detalhe de estarmos num regime que trata a responsabilidade como uma abstração e a continuidade como um capricho. O liberalismo de Cotrim de Figueiredo é moralmente sério, mas estruturalmente ingénuo: quer instituições firmes numa ordem que vive de transições, quer estabilidade onde reina a alternância, e pede ao sufrágio a coerência que só a herança pode garantir.
Em vários momentos da entrevista, o candidato descreveu, sem o perceber, as virtudes de uma monarquia constitucional. Quando falou na necessidade de um chefe de Estado que não dependa de partidos, que se coloque acima da contenda política e que una o país sem o governar, falava, de facto, do que já tivemos — e perdemos. Portugal conheceu esse equilíbrio durante a monarquia constitucional: um rei que reinava, mas não governava; um poder moderador que garantia a continuidade e a dignidade das instituições, mesmo nos períodos de turbulência política. Foi essa ordem, construída lentamente ao longo do século XIX, que um golpe de Estado destruiu em 1910, precedido pelo crime político mais grave da nossa história — o regicídio de 1908, onde se matou não apenas um rei, mas a própria ideia de legitimidade. Desde então, a República tem tentado imitar, sem o conseguir, a estabilidade que nasceu dessa tradição.
Quando insistiu na importância de uma presidência de estabilidade e de princípios, descreveu precisamente aquilo que só a permanência dinástica podia assegurar. E quando evocou a ideia de uma “democracia adulta”, esqueceu-se de que a maturidade política de um povo não nasce do voto, mas da continuidade moral das suas instituições — aquela continuidade que a República, na sua ânsia de se afirmar moderna, trocou por um perpétuo ensaio de reinvenção.
O seu discurso, em tudo elegante e contido, teve momentos de verdadeira lucidez. Mas também alguns de uma certa secura liberal, onde o país real — o das pequenas esperanças, das hesitações, dos afetos — desaparecia atrás de gráficos e percentagens. Cotrim de Figueiredo tem o mérito de pensar o Estado como um engenheiro pensa uma ponte: quer solidez, eficiência e desenho limpo. Mas a política, sobretudo a presidencial, exige mais do que engenharia — exige alma. E a alma, ao contrário das pontes, não se calcula.
Ainda assim, há em Cotrim de Figueiredo um rigor que falta aos outros. Não houve na entrevista nem demagogia nem fingimento; apenas a convicção, talvez ingénua, de que a razão basta. E nisso, convenhamos, já é um avanço em relação à retórica inflamada de Ventura, à compostura performativa de Marques Mendes ou à exibição quase teatral de Gouveia e Melo — esse mesmo que, numa entrevista recente, achou graça a ironizar com os monárquicos, esquecendo que a coroa, mesmo ausente, pesa mais do que a farda. Cotrim de Figueiredo, pelo menos, respeita a gravidade das ideias.
Mas se o rigor o distingue desses, falta-lhe ainda a densidade que António José Seguro demonstrou — aquele raro sentido de Estado que não vem das sondagens, mas da consciência do cargo. Cotrim de Figueiredo é lúcido, mas não grave; preparado, mas não fundado. António José Seguro compreendeu a liturgia da presidência, Cotrim fala-lhe como se fosse um conselho de administração. Ambos são sérios, mas só um parece compreender o peso simbólico do poder.
O problema é que o país que o ouve já não acredita na gravidade de nada. Vive de promessas de mudança e desconfia da estabilidade como se fosse um vício. Por isso, o liberal que pede ordem à desordem acaba inevitavelmente a parecer um estrangeiro no próprio regime. A sua visão é a de quem quer dar à República a dignidade que ela não tem — e, paradoxalmente, é isso que o aproxima da tradição monárquica, sem nunca o admitir.
No fim, ficou uma impressão curiosa: a de um homem que quer restaurar o Estado, mas sem restaurar a ideia. Que fala de liberdade com sinceridade, mas esquece que a liberdade sem continuidade é apenas instinto. Que quer moralidade sem hierarquia, dever sem tradição, permanência sem tempo. Um idealista, portanto — e dos raros.
Talvez seja esse o destino dos melhores republicanos: descobrir, sem o admitir, que a verdadeira liberdade é filha da continuidade. Cotrim de Figueiredo parece querer salvar a República de si mesma — e, nesse gesto, acaba por lembrar que só há futuro quando há herança.