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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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03
Jun14

...

Fernando Sá Monteiro

 

A ABDICAÇÃO DO REI JUAN CARLOS DE ESPANHA

 

O anúncio da abdicação do monarca espanhol vem alimentar a velha questão referendária acerca da manutenção da Monarquia ou a sua substituição por uma nova República.

Não é nova a questão, nem sequer inocente. Mas tentarei ser coerente comigo e tentar explicar a minha visão PESSOAL acerca da matéria.

Todos os Povos têm o direito de escolher e decidir o seu futuro e a forma como pretendem ser governados, bem como a forma de representação da sua Chefia de Estado.

Independentemente da minha posição como monárquico, não posso, nem irei contestar esse direito, nem a lógica dum referendo acerca da matéria. Se isso sempre defendi e defendo no caso português, seria estranho e contraditório que tivesse uma posição contrária na análise do caso espanhol.

Não se diga que nada temos a ver com o que se passa com uma questão que é meramente espanhola. Os nossos dois países, até pela secular relação histórica e obviamente pelo posicionamento estratégico e geográfico não nos pode ser indiferente. Bem diferente é qualquer tipo de pressão externa para uma decisão que somente ao povo espanhol diz respeito pronunciar-se.

Mas entendo que esta pode ser uma hora histórica e que Espanha poderá tomar uma decisão importante que fortaleça a legitimidade da Monarquia no país vizinho.

Têm sido muitos os escândalos que ultimamente têm prejudicado a imagem da Família Real espanhola. Alguns passaram pelo próprio rei Juan Carlos de Borbón (o célebre e mal tratado caso da caçada ao elefante no Botswana, ainda que contado de forma marcadamente política e nada “inocente”).

O seu casamento com Sofia da Grécia foi sempre marcado por anunciadas infidelidades e casos amorosos, alguns melhor escondidos, outros publicamente publicitados por uma imprensa anti-monárquica.

E ninguém sequer se lembra que Juan Carlos foi obrigado a abdicar do amor da sua juventude, Maria Gabriela, filha de Umberto de Itália, que conhecera no Estoril, por tripla imposição: a de Franco, que dizia ser Umberto maçon; a do conde de Barcelona, que alegava ser a jovem italiana aristocrata sem trono; a de Gabriela, que não queria ser rainha.

E até ao escândalo dos negócios do genro Iñaki, ao qual a Infanta Cristina está associada na sua qualidade de coproprietária da empresa Aizóon e de dirigente da Fundação Nóos, e pelo qual foi constituída arguida por duas vezes, ainda que posteriormente sem efeito, debilitaram a imagem da coroa.

Creio sinceramente que Espanha ganharia com um referendo neste momento histórico, que poderia não só fortalecer a legitimidade da monarquia como deitar por terra todos os argumentos dos republicanos e, ao mesmo tempo, demonstrar que a maioria do povo espanhol defende a manutenção desta Chefia de Estado e as suas vantagens para a estabilidade e a unidade nacional.

Os argumentos contra são conhecidos e não são diferentes dos que com uma dose irritante de populismo muita gente defende em Portugal. Mas também por isso, nada melhor do que ouvir a voz do Povo e aceitar a sua decisão. Mesmo que ela se venha a provar ser tremendamente errada e até trágica. E Espanha conhece bem na carne a experiência de tempos em que se lutou por uma República e as suas consequências devastadoras.

Aos espanhóis caberá decidir. Mas que decidam em paz e pensando bem nos prós e contras que qualquer das decisões implicarão. Bem sei que na vida nada é irreversível (Paulo Portas que o diga...) excepto a morte. Mas uma decisão agora acerca do caminho a trilhar no futuro pode facilitar uma pacificação imprescindível da qual, de resto, o próprio Juan Carlos foi protagonista principal e de coragem inquestionável após a morte de Franco.

E que viva Espanha!

 

 

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