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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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28
Dez13

Lisboa, luz e lixo


Sofia de Landerset

 

Gosto muito da minha terra. 

Passei 35 anos da minha vida com uma inveja horrível de quem, chegado o Natal ou as férias grandes, carregava o carro para além do razoável e ia "à terra", de onde regressava semanas mais tarde, com o carro ainda mais carregado, geralmente com couves gigantescas, garrafões de azeite artesanal e sacas de batatas.  

Alfacinha de gema, ficava a olhar para aquele ritual e roía-me toda, sem "terra" para onde me escapar, sem couves nem azeite nem sacas - sacas! - de batatas.  

35 anos mais tarde, deixei a minha "terra", e ganhei não apenas uma "terra" nova, que a custo aprendi a amar, mas também o ritual de regressar a Lisboa para passar o Natal em família. Não trago couves nem azeite nem sacas de batatas quando volto para o Algarve, mas mato saudades da família, dos amigos e das rotinas de bairro que marcaram grande parte da minha vida. 

Lisboa é a minha casa, a minha "terra". É uma cidade com uma luz única, uma cidade que está na moda, uma cidade que mudou imenso nesta década e picos desde que de lá saí. Sempre que regresso, há novidades para ver; este ano, fomos visitar o Mercado de Campo de Ourique, recentemente reaberto, renovado, e que bem que ficou! Vivi alguns anos no bairro, nasceram lá os primeiros quatro filhos, e foi um gosto ver a feirinha de Natal no Jardim da Parada e comer umas queijadas no Ás de Comer, abrindo assim as 'hostilidades' gastronómicas da semana. 

Deixei a minha "terra" esta manhã, navegando entre pilhas de sacos de lixo à beira dos passeios, e pirâmides de lixo nos separadores centrais que ainda não chegam a ter a altura das que vi em Maputo, mas a continuar assim, lá para quarta-feira ganham com vantagem. 

As ruas estão cobertas com um tapete de folhas que a chuva dos últimos dias transformou numa superfície viscosa e escorregadia. E mesmo assim, agradeci esta chuva, que lavou as ruas, salvando-me do mau cheiro que pairava no ar quando fui "à terra" no verão, quente e seco e sem ruas lavadas como antigamente. 

Não trouxe comigo couves, nem azeite, nem sacas de batatas. Mas trago o coração pesado, a alma triste, e uma última imagem miserável de Lisboa que me vai acompanhar durante um ano, até que chegue novamente o tempo de carregar o carro para além do razoável e ir "à terra". 

E mesmo suja, mal tratada e mal cheirosa, gosto tanto da minha terra.

 

 

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