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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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19
Mar13

trabalho a preço de saldo


Sofia de Landerset

 

Há uns bons 20 anos atrás, não havia em Portugal muita gente a fazer o trabalho que eu fazia: a criação de imagens e vídeo com base em modelos tridimensionais virtuais de edifícios.

Nessa altura, cobrava um mínimo de 120 contos para criar uma moradia, pequena e de linhas simples. Os projectos maiores facilmente atingiam preços na casa dos mil contos.

Estes valores justificavam-se por várias razões. Desde logo, porque havia bastante procura e pouca oferta deste tipo de serviço. Depois, não havia formação nenhuma em Portugal, os softwares eram caros, os computadores tinham de ser potentes e eram caríssimos - tudo isto encarecia o produto final.

E tantas vezes, os projectos eram para submeter a concurso, os prazos apertadíssimos; faziam-se autênticos milagres.

Passados 10 anos, começou a vulgarizar-se este tipo de trabalho. Surgiu formação em Portugal, a pirataria de software tornou-se 'normal', os computadores tornaram-se mais acessíveis e mais rápidos. Apareceram estudantes que queriam fazer uns trocos nas horas vagas, dispostos a trabalhar por uma fracção dos preços que as empresas e os freelancers cobravam.

Os clientes, na sua maioria, começaram a optar por serviços mais baratos, muitas vezes menos bem executados. Quantas vezes me foi dito que fulano tinha um sobrinho que "também sabe fazer coisas destas".

E assim se transformou uma actividade altamente especializada, rentável e - para mim - fascinante e gratificante, num trabalho comum, mal pago e que hoje em dia, com a crise no imobiliário e na publicidade, praticamente deixou de existir.

Raramente me ocorre partilhar tristezas pessoais em público. No entanto, leio as declarações de Belmiro de Azevedo e não consigo deixar de pensar nos "miúdos" que invadiram a minha área de trabalho e desataram a baixar preços, na ânsia de ganhar uns trocos.

Esses mesmos "miúdos", como eu lhes chamava, inundaram o mercado com mão de obra barata, sem necessidade nenhuma, pois os clientes teriam pago os valores que estavam habituados a pagar.

Desvalorizaram o seu próprio trabalho, sem a ajuda de troikas ou de governos descomandados.

Os senhores Azevedos desta vida lembram-me estes miúdos - excepto que o senhor Azevedo não é miúdo nenhum e devia saber (desconfio que sabe, mas convém-lhe fazer de conta) que desvalorizar o trabalho, tanto na prática como em declarações aos media, é uma manobra que tarde ou cedo se vira contra ele.

E contra todos nós.

 

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