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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

11
Jan13

No meu postal infra sobre a doutrina social da Igreja um dos nossos estimados leitores expressou surpresa por eu escrever em acordo com a ortografia moderna da língua portuguesa. Antes de mais impera afirmar que não sou fundamentalista, nem neste assunto nem noutro qualquer, inclusive no futebol, exceção feita ao direito à liberdade e à dignidade, matérias nas quais não abro mão. Tal facto implica aceitar as visões contrárias como legítimas. 

Naturalmente que a nostalgia que habita em mim prefere "actor" a "ator", "acção" a "ação", por exemplo, mas também "Pharmacia" a "Farmácia". Ora, de "Pharmacia" ninguém falava, pelo simples facto de já ter caído em desuso faz tempo. Tal significa - e este ponto é importante - que a grafia portuguesa não se manteve estanque e a forma como os meus pais aprenderam a grafar algumas palavras é diferente daquela que aprendi, trinta e tal anos depois. Portanto, a razão da recusa do acordo ortográfico por parte de inúmeros cidadãos portugueses não deverá residir num apego à originalidade da língua, porque se for essa a razão estamos mal, afinal a grafia pré-acordo é já uma degeneração do português arcaico, por exemplo, porque ou muito me engano ou já ninguém escreve nos seguintes moldes:"Razoões desvairadas, que alguuns fallavam sobre o casamento delRei Dom Fernamdo".

Desta forma, só consigo vislumbrar uma razão simples para que o Acordo Ortográfico seja visto como uma abominação - o facto de ser um acordo com o Brasil. Sendo assim, o problema nada tem a ver com a grafia mas reside antes em recantos da xefonobia e do preconceito, resultantes de processos civilizacionais mal resolvidos. 

Mas porque sou eu a favor do acordo ortográfico e o adotei? Em primeiro lugar sou um apologista da ideia de Lusofonia partilhada, que é como quem diz uma construção coletiva e não a exportação cultural do Império das naus. Considero, pois, a Lusofonia e a CPLP um lugar fundamental para a geopolítica dos seus países, como um instrumento de barganha e como uma alternativa em matéria de relações internacionais para Portugal. De resto José Adelino Maltez tem feito também ele a apologia disto mesmo no seu mural no Facebook nos últimos tempos. Com um Portugal decadente e com Angola e particularmente o Brasil em apogeu, é fundamental que as pontes construídas sejam em matéria de cooperação sólidas. A questão da língua é fundamental. Claro que poderíamos permanecer na mesma e manter a cooperação. Todavia o Brasil tem afirmado o seu lugar no mundo não-polar (Haass) e a rutura com a língua portuguesa para a afirmação da língua brasileira estaria eminente. Portanto, não vejo mal nenhum em chegar a um acordo em matéria de grafia da língua em favor de acordos política, económica e culturalmente mais proveitosos. 

No fundo as minhas razões prendem-se mais com a realpolitik do que com apego nostálgico? Em boa medida assim é, mas não totalmente. Afinal dentro do espaço da Lusofonia acredito em partilhas culturais mais válidas e que permitam superar traumas e corrigir erros do passado, e não é com eventos pontuais que isso se faz. Não chega Caetano cantar o fado e Tiago Torres da Silva escrever uns sambas. A própria História precisa ser reescrita. É preciso sairmos dos nossos lugares de conforto que nos fazem ver as coisas de um só lado, é que o apego à identidade portuguesa não tem sido o quanto baste para vermos os autores portugueses, por exemplo, serem valorizados. Basta recordar-me que o melhor documentário que vi sobre a vida e obra de Fernando Pessoa, o qual assisti na Casa Fernando Pessoa, precisamente, foi realizado por um brasileiro...

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