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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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10
Jan13

A LITERATURA E A ARTE AO SERVIÇO DE UMA REVOLUÇÃO


Fernando Sá Monteiro

As palavras que podem e devem ser aqui deixadas, estão na proporcionalidade dos momentos críticos e receosos que atravessamos; momentos de desânimo, de revolta, de enormes dúvidas sobre o nosso Futuro como País e como Povo.

São momentos como estes em que se impõe uma intervenção mais consciente dos cidadãos, como garantia e defesa da dignidade de um País diariamente vexado na sua soberania e ludibriado pela fome desenfreada pelo Poder, e pela irresponsabilidade na condução de medidas que colocam diariamente Portugal na posição de mendicante.

Desde sempre que as Letras e as Artes andaram de braço dado na crítica e na intervenção social e política. Porque o Artista e o Escritor são seres sempre angustiados na busca de uma Verdade e de uma Perfeição.

Verdade e Perfeição que sendo conceitos algo indefinidos são, por isso mesmo, sujeitos à subjectividade das opiniões pessoais.

Para o Artista e para o Escritor conta, essencialmente, a Sua Verdade; a que é procurada com ardor, mas muitas vezes com sofrimento e repleta de crises existenciais. Porque não há Verdades que não possam ser contestadas, não há certezas que não se revistam de dúvidas, não há Perfeição que não mereça libertação.

Verdade, Perfeição, Justiça, Ética, Bondade, Intervenção: tudo são valores que sempre resistem presentes na procura insaciável do Artista e do Escritor.

Ainda há tempos afirmou Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura 2010, perante um milhar de estudantes de Monterrey: "A boa literatura é a melhor forma de criar cidadãos críticos que não podem ser manipulados facilmente”, acrescentando que “Uma sociedade livre, democrática, aspira a ter cidadãos comprometidos com a vida pública". O escritor acrescentou ainda não haver nada que mais "atice os desejos de satisfação que a realidade não pode satisfazer, do que a literatura".

É seguramente óbvio que não me cabe emitir julgamentos acerca da visão que cada um tem do Mundo e das escolhas que faz. Cabe-me somente perseguir a minha visão do Mundo, com a procura incessante de dar um contributo pessoal para todas as angústias que me perseguem, para as dúvidas que mantenho, para as escolhas enfim que acompanham os meus passos. E em toda essa caminhada tentar que a ética esteja sempre presente no meu pensamento.

Eugénio Bucci, no seu livro Sobre Ética e Imprensa, descreve a ética como um saber escolher entre "o bem" e "o bem" (ou entre "o mal" e o “mal"), levando em conta o interesse da maioria da sociedade. Ao contrário da moral, que delimita o que é bom e o que é mau no comportamento dos indivíduos para uma convivência civilizada, a ética é o indicativo do que é mais justo ou menos injusto diante de possíveis escolhas que afectam terceiros.

Ninguém retém a Verdade absoluta. E ser capaz de reter a Verdade que se contem na opinião de outros faz de nós cidadãos mais conscientes.

Temos que conservar a capacidade para, a todo o momento, sermos capazes de admitir os erros de julgamento, termos a abertura de espírito necessária para assimilar que nada está, a priori e em definitivo, assente em Verdades insofismáveis e imutáveis.

Assim, o nosso contributo terá sido maior ou menor, consoante o que dele possa ter sido aproveitado, ou venha a ser, numa luta por ideais.

É intencionalmente que uso o plural, pois que, na minha percepção do mundo e da sociedade que desejo, absorvo uma sensibilidade que vai muito além de simples mudanças de regime ou de lutas políticas.

É de uma verdadeira Revolução que estou falando!

Há que construir - temos que construir - todos nós, sem excepção, uma sociedade onde a componente humanista abra caminhos de esperança a tantos que nos gritam, diariamente, por justiça social, pelo direito à dignidade de todos os seus integrantes, por uma consciência social de bem servir a causa comum e, enfim, por valores intemporais que parecem adormecidos, quando não mesmo destruídos. Todos nós somos chamados a essa “mudança”, independentemente das nossas opções políticas e ideológicas.

A consciência que tenho do que dei é a de que foi muito pouco. A consciência do que desejaria dar, é que me desgasta o espírito, sentindo-me muito insignificante, nesta globalização tão propagandeada, tão defendida até, que tantas preocupações de vária índole me acodem ao espírito.

Gostaria de ver mais, muito mais.

Tenho sede de uma fraternidade efectiva entre os seres humanos, sentindo uma enorme impotência perante um Mundo onde a miséria humana e social são a vergonha de todos nós.

Entender tudo isto como a incapacidade total para construir algo de mais colorido e musical, onde nos possamos rever como cidadãos mais livres e felizes, é certamente um pessimismo indesejável. A sociedade tem dado passos importantes, há que reconhecer. Mas ficarmos sensibilizados para essa consciência, não nos deve inibir de querer mais, muito mais.

O caminhar do Homem deve ser, tem de ser, constantemente acompanhado de novas aspirações sociais, reconstruindo diariamente essa divina capacidade que nos foi dada para uma visão de um Infinito para o qual caminhamos, ao qual aspiramos, sem contudo sabermos, perfeitamente, em que moldes. Essa magnífica qualidade que acompanha intrinsecamente o espírito dos mais jovens, sempre insaciáveis na busca duma perfeição, secularmente acompanhada da aguerrida capacidade para o inconformismo e para uma rebeldia tão necessária a um Mundo em constante sobressalto, dá-me força, esperança, desejo de lutar, fome de construir mais e melhor, razão para viver.

Como alguém um dia escreveu: “Lembremo-nos sempre: a Vida não se mede pelo número de vezes que respiramos, mas pelos momentos que nos tiram o fôlego”.

Diria, como corolário de tudo, que a Bondade deverá acompanhar os nossos passos em busca da libertação do Homem.

Parafraseando alguém que me honra o sangue deixaria esta derradeira mensagem: “Peço-lhes muito que se lembrem constantemente que a bondade é a mais augusta das virtudes, não a falsa bondade que é fraqueza e pusilanimidade, mas a bondade consciente, forte e viril, que é a fonte de toda a sociabilidade e da honestidade de proceder. Onde há bondade, há justiça, sem a qual a vida seria um pavor. Quem é bom, é isento de toda a espécie de fanatismo e de intransigência. Quem é bom é tolerante, é respeitador das opiniões alheias, é despido de vaidades e de orgulho. Numa palavra, só a bondade pode realizar definitivamente a suprema aspiração da humanidade: a efectiva fraternidade social”.

É esta a visão que tenho do mundo. E mantenho a certeza de que a Literatura e as Artes têm caminhos comuns a percorrer, unidos pela sua inegável força de intervenção a todos os níveis da sociedade, e pela força com que sempre resistem à superficialidade e à ignorância.

Deste caminhar comum, poderá nascer, deverá nascer, uma sociedade nova, onde o cidadão seja valorizado pelo que sonha e constrói, pela sua solidariedade para com os mais desprotegidos, pela sua capacidade para derrubar todas as fronteiras do medo e das injustiças que nos envergonham.

Parafraseando Eugénio de Andrade, "As palavras são a nossa condenação. Com palavras se ama e com palavras de odeia. E, suprema irrisão, ama-se e odeia-se com as mesmas palavras. Mas perigosas ou inocentes - e ambas as coisas as palavras são - as palavras são o mais veemente testemunho de fidelidade do Homem ao Homem".

Estas são as palavras que vos quero deixar. Elas valem tão só como uma defesa intransigente dos valores em que fui educado, em que acredito e pelos quais tenho tentado construir a minha vida.

Para que elas sejam a ruptura com a neutralidade e a indiferença, como cidadão de um Portugal que urge fazer ressurgir na sua Dignidade e Vocação Histórica.

Fernando de Sá Monteiro

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