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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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09
Jan13

Bento XVI, Doutrina Social e Falsa Direita

João Ferreira Dias

No ano letivo anterior lecionei uma cadeira chamada Socioeconomologia Política do Mundo Contemporâneo, um palavrão para uma viagem pela Doutrina Social da Igreja. Isto a propósito da mensagem papal de Ano Novo, na qual Bento XVI fala em "capitalismo financeiro desregulado" e numa crescente tensão social em função das assimetrias entre ricos e pobres. A certas "esquerdas" o discurso papal pareceu novo e revolucionário, coincidindo com uma mensagem socialista universal, o que constituiria uma renovação ideológica da Igreja. A leitura está, contudo, incorreta. Simultaneamente, segmentos à "direita" entenderam a mensagem Papal como um atentado aos ideais conservadores da Igreja, como "esquerdalhos" e incitadora de ódio aos ricos. Leitura, também ela, errada.

A doutrina social da Igreja nasce com a encíclica de Leão XIII intitulada Rerum Novarum, datada de 15 de Maio de 1891. Trata-se de uma carta sobre a condição da classe operária no seio da Revolução Industrial, ao mesmo tempo que incentiva o patronato e a burguesia urbana à prática da caridade, melhorando as condições de vida dos desfavorecidos e seguindo o exemplo de Jesus. Naturalmente que estão presentes ideologias sociais, como a manutenção do status quo de uma sociedade bem demarcada hierarquicamente entre burguesia, clero e povo, herdeira da velha lógica de nobreza, clero e povo. Em todo o caso importa ter presente o seu contexto, marcado pelo avanço do socialismo utópico e de uma leitura específica da sociedade. Não obstante trata-se de um exercício político em função dos pobres levado a cabo pela Igreja Católica, que não termina com Leão XIII mas com ele se funda. As encíclicas Quadragesimo anno, de Pio XI, Mater et magistra, de João XXIII, Populorum Progressio, de Paulo VI, Sollicitudo rei socialis, de João Paulo II e Centesimus annus, de João Paulo II, são a continuação e a reatualização da doutrina social da Igreja em resposta aos novos tempos. Destaco ainda a encíclica Populorum Progressio de Paulo VI após o Concílio Vaticano II, e que trata da assimetria entre países ao nível do desenvolvimento, da cooperação pela paz e contra a pobreza, sendo uma mensagem política liberal e que responsabiliza as instituições internacionais pelo fosso entre ricos e pobres.

Portanto, neste capítulo, não poderia determinada "esquerda" estar mais desinformada e certa "direita" mais esquecida. É precisamente a direita que se assume como cristã que tem cimentado as assimetrias sociais, que tem dado com uma mão e tirado com a outra, que tem a caridadezinha como ação social, sem levar em linha de conta a renovação conceptual levada a cabo pela Igreja, como expliquei aqui a propósito de Isabel Jonet. Portanto, de nada serve bater com a mão no peito diante dos altares e praticar o inverso à mensagem papal em matéria de solidariedade.

Naturalmente que a Igreja Católica portuguesa tem, ela própria, um longo caminho a percorrer em matéria de opção ideológica, particularmente quando apela à serenidade e à pobreza humilde, condenando os levantamentos populares que se opõem a uma paz universal. A confusão entre reino dos céus, paz entre os Homens e braço-dado com poder as elites financiadores pesa significativamente.

Não obstante, a direita que se diz católica precisa revisitar a mensagem social da Igreja, a qual fez questão se esquecer. O neoliberalismo tem sido contrário à mensagem religiosa, apesar dos améns e assentos de cabeça em lugares de culto.

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