Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

16
Out09

O partido anti-português do Brasil, por Miguel Castelo-Branco*


Pedro Quartin Graça

Maitê Proença - confesso que mal a conheço, pois não vejo telenovelas há trinta e tal anos - terá feito comentários desagradáveis a respeito dos portugueses, pelo que se retratou com pedido de desculpas. Vendo um curto excerto do programa, que é eloquente do analfabetismo alvar da rapariga, compreende-se que se ria do que desconhece.

O mundo está cheio de idiotas e não é a rapariga que alterará com tão miserável exibição de mentecaptismo atrevido essa nossa certeza. A fazer fé no arrependimento da actriz, fica a mancha de um deslize que não é relevante pela protagonista da gaffe, mas pelo facto de ser característica de um grande país, tão grande como um continente, que foi talhado por Portugal. Aos brasileiros, esse povo admirável nos defeitos e nas qualidades - e até nas qualidades dos seus defeitos - importa lembrar que o Brasil nunca existiu; ou antes, o Brasil foi sempre, pelo menos até aos anos 20 ou 30 do século XX, a expressão da ideia de um Portugal atlântico, tropical e ultramarino. Sem os portugueses, o Brasil seria hoje um amontoado de republiquetas de fala castelhana com enclaves étnicos nativos dominados por terratenentes crioulos como o são, com excepção do Uruguai, do Chile e da Aregentina, os países saídos da colonização espanhola.

O Brasil é uma criação portuguesa e tudo o que disserem descendentes de italianos, alemães, libaneses e sírios que ali prosperaram faz parte de uma persistente tentativa de reescrever a história. O brasileiro fala português, o seu Estado foi feito por portugueses, as suas leis e instituições são de matriz portuguesa, os valores sociais e individuais carregam mais de trezentos anos de vida portuguesa e até a sua literatura - pelo menos até Euclides - é portuguesa.

O Brasil, lembrem-se os brasileiros, foi monarquia com casa imperial Bragança e chegou até a ser sede do poder, substituindo-se a Lisboa como cabeça do império. O Brasil é caso único, pelo que não se deve contorcer com as habituais cólicas compensatórias e complexos de inferioridade que acometem os ex-colonizados. Há anos tive a oportunidade de conhecer alguns académicos brasileiros que desenvolviam actividade docente nos Eua. Era um permanente campeonato de lugares-comuns e ditos sem espírito nem inteligência para apurar quem dizia mais mal de Portugal. Uns eram pró-holandeses, outros gostariam que o Brasil tivesse sido colónia britânica, outros ainda que se tivesse mantido à margem e fosse um imenso telão verde povoado por bons selvagens. Ou seja, esses professores de língua e cultura debatiam-se com a maior das contradições que era a de negarem o múnus da sua actividade profissional. É triste, pois o Brasil, para ser Brasil, não tem outro destino que o de actualizar, globalizando-a, a herança portuguesa. Nós não devemos nada ao Brasil.

O Brasil, sim, deve-nos a visibilidade, a grandeza da sua mancha territorial, a homogeneidade da língua, a capacidade de se ver para além da América do Sul.

O Brasil é, nem mais, o prolongamento de Portugal, pelo que não me repugna a ideia de, um dia, o Portugal europeu possa vir a integrar a Federação Brasileira. Sempre que olho esse colosso, lhe ouço o hino e olho a bandeira só vejo Portugal, não o Portugal Estado-nação, mas uma ideia de fraternidade universal que saiu da nossa lavra.

O Brasil, a vir a ser uma grande potência, não mais será que Portugal.

 

* Publicado no Blog Combustões

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Publicidade

Comentários recentes

Links

_EM DESTAQUE

_RISCOS ASSUMIDOS

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D