Afinal havia outra conspiração
Havia, portanto, confirmadamente, uma campanha política contra o Presidente da República, Cavaco Silva. Mais do que os termos do comunicado da Presidência, sabemo-lo agora pelas reacções zelosas de alguns comentadores políticos na SIC e na RTPn. Os mesmos que consideraram «deslocado», «tremendista», «surpreendente» um anterior documento sobre o estatuto dos Açores - o qual advertia com clareza e a tempo contra essa minudência de querer-se limitar os poderes presidenciais através de lei ordinária - criticam agora Cavaco por ser «surpreendente», «exaustivo», «inoportuno» ao defender com veemência esse pormenor da sua honestidade pessoal e política. E contra-atacam (a palavra é contra-atacam) afirmando que Cavaco só não se pronuncia sobre o que - dizem eles - é importante, ou seja, se Dias Loureiro deve continuar conselheiro de Estado.
Mas, ao contrário, o comunicado é claro, plenamente justificado, oportuno, e - como se vê - preemptivo. Pronuncia-se sobre o que deve pronunciar-se, e não deixa dúvidas sobre a situação económica e patrimonial do Presidente e da Primeira Dama, remetendo mesmo quem queira para a declaração de rendimentos. Não se pronuncia sobre o que não deve - e os comentadores que quisessem pensar um pouco, coisa que por vezes custa, poderiam perguntar-se que poderia dizer com propriedade Cavaco Silva sobre Dias Loureiro, sobre quem não pesam agora mais que alegações e suspeitas. Mas se, em vez de lerem o comunicado, escolhem irritar-se com ele, e se, em vez de considerarem o que lá está cristalinamente, preferem fantasiar lacunas, então devemos concluir que tinham outra agenda. E que este comunicado perturbou-a.
