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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

19
Mai09

Gostei muito de ter ido ao Café Nicola ontem à noite. Não só pelo grande nível com que Paulo Rangel respondeu a perguntas e esclareceu as suas posições sobre a Europa e o País, mas também porque melhorou muito a minha opinião sobre os bloggers. De facto, ia com algum receio de encontrar aquela sobranceria e auto-suficiência analítica que muitas vezes encontramos na blogosfera, mas, fora um caso ou outro, ninguém se pôs com grandes declarações a mostrar como é arguto e honesto (como muitas vezes fazem para se distinguir dos “políticos”), colocando antes perguntas sucintas e objectivas, que permitiram respostas igualmente concisas e proveitosas.
Se a a minha opinião sobre Paulo Rangel já era extremamente positiva, ao vê-lo falar assim informalmente, sem recorrer a chavões nem procurar agradar à plateia, fiquei ainda mais convencido de que ele é um dos melhores políticos que surgiram nos últimos anos. Também aqui tenho que confessar que ia com algum receio de que Rangel repetisse os argumentos que tem utilizado nos debates televisivos, não porque não esteja de acordo com eles, mas sim por temer a monotonia. Mas, felizmente, e também porque a plateia ajudou, abordaram-se outros temas.
A prioridade a dar aos países balcânicos em caso de alargamento (mesmo aqueles como  a Albânia e a Bósnia, com grandes comunidades muçulmanas), os cuidados em relação à Turquia, a regulamentação como condição para um livre comércio eficaz, a defesa da construção europeia perante os eurocépticos (quem é que quer voltar a ter fronteiras ou mesmo moedas nacionais? perguntava Rangel), a validade do modelo social europeu na protecção aos desempregados, aos velhos, aos doentes e aos inválidos, a mudança da política agrícola, com a necessidade (sobretudo depois da crise alimentar do ano passado) da constituição de reservas alimentares de segurança, mesmo que não sejam competitivas a nível global, a aplicação dos fundos comunitários em Portugal, com as diferenças “pragmáticas” em relação ao PS, foram alguns dos assuntos que mais me interessaram e que cito de memória.
Como não podia deixar de ser, até porque o tema é caro à blogosfera e permite ataques aos dois partidos do “centrão” (um destes dias vou escrever um post a explicar que, na minha opinião, isso é algo que não existe em Portugal), falou-se bastante da Constituição Europeia e do Tratado de Lisboa e de o referendo prometido não se ter realizado. Foi aqui que admirei mais Paulo Rangel, por defender a legitimidade da democracia representativa (se essa questão é tão importante para vocês, não votem nos partidos que “traíram” a promessa do referendo, afirmou), pelas desconfianças em relação às vantagens dos referendos a questões mais complexas (e lembrou o que são as taxas de abstenção nesses casos…), pela coragem em não querer ser “popular” dizendo o que a plateia, creio que maioritariamente, gostaria de ouvir. Defendeu até que o jargão em Portugal é eurocéptico (e, a meu ver, bastante banal) e não pró-europeu, esquecendo as vantagens que a integração europeia nos trouxe e sem coragem de assumir a ruptura com Bruxelas…
Enfim, isto já vai longo, e há blogues (O Insurgente, Papa Myzena, ABC do PPM pelo menos) que transmitiram o debate, para quem quiser ver na totalidade. Foram duas horas muito bem passadas e saí de lá mais federalista do que entrei, porque fiquei a saber que Paulo Rangel também o é (tenho que ler o seu livro O estado do Estado) e tem de certeza melhores argumentos do que eu para o defender. Para mim, é mais o gostar da ideia supra-nacional, de uma certa rejeição do nacionalismo-tribalismo que me ficou dos tempos de trotskista e, sobretudo, de verificar que, desde 1910, com um ou outro período excepcional, os portugueses têm mostrado uma vocação suicida ao escolherem os melhores governantes para conduzir o País para abismo. Um dia também vou escrever um post a explicar porque é que um monárquico como eu também é federalista. Mas Paulo Rangel já me ajudou ontem ao dizer que o federalismo reforça a identidade dos países europeus.

Quem fez lá falta, para ajudar a debater tudo isto ainda com mais elevação, foi o Pedro Quartin Graça. Mas espero que haja outras ocasiões, quanto mais não seja aqui no Risco Contínuo.
 

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