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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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14
Mai09

Precisei de obter o cartão de cidadão. Eu não aprecio nem este conceito (de todos os dados num cesto para melhor o Estado espreitar), nem estas expressões bafientas que o socialismo vai buscar aflito à História para se consolar da falência das suas soluções e modelos. São estados gerais de parolice. E eu não vivo numa cidade, não sou cidadão nenhum. Mas o que tem que ser tem muita força. E fui, então, passar uns tempos a aferir forçadamente o mundo real com a propalada modernização burocrática, com o Sim do Simplex, com a eficácia, rapidez e conforto que a propaganda socialista diz que proporcionou ao cidadão.

Inocência e ignorância: tentei primeiro uma loja do cidadão, a um sábado, 9 de Maio. Mas a bicha para a loja do cidadão dos Restauradores, às 8,45 de Sábado, 9 de Maio, chegava à Rua do Salitre. Outra vez: a bicha para a loja do cidadão dos Restauradores chegava à R. do Salitre.

Tentei cinco dias mais tarde, nos serviços centrais da Av. Fontes Pereira de Melo. Mas ao meio-dia já não havia senhas. Havia, no entanto, disse-me uma funcionária, a possibilidade de marcar o atendimento por telefone ou email. Fui atendido ao fim de dois dias de tentativas. Marcações só para Julho. Novamente: marcações para pedir o cartão do cidadão no dia 14 de Maio, só em Julho.

Tentei de novo fora de Lisboa. Tirei a senha número 45 às 9,26. O placard anunciava que estava a ser atendido o portador da senha 15. Viajei até 50 km de Lisboa, a assuntos meus. Voltei. O placard anunciava: número 35. Sentei-me durante algum tempo. Apreciei o cartaz do Ministério da Justiça que proclamava que no processo de criação de empresas «há barreiras que já caíram». Interroguei-me sobre se aquele curioso fraseado tinha origem em estupidez, iliteracia, ou simplesmente num cinismo cruel. Neste caso eu acrescentaria: «Mas outras barreiras cá o esperam».

Fui almoçar. Calmamente. Regressei. O placard anunciava 39. Eram 3 da tarde. Menos mal. Entretive-me com o filme de humor negro que o circuito interno de televisão passava. Na ficçãozinha, contribuintes e funcionários sorridentes despachavam depressa os seus assuntos. Uma frase do genérico já anunciara que o Ministério da Justiça estava a empreender inúmeras medidas para garantir «a rapidez e eficácia dos serviços ao cidadão».

Com rapidez e eficácia fui atendido dez dias depois do que pretendia e após mais de 6 horas de espera. Um dia de trabalho, em suma. Pelas várias secções e departamentos de todo o país umas, digamos, 1000 pessoas perdem diariamente 1000 dias de trabalho. É o que vale um Estado incompetente assim.

Perguntei à funcionária que me atendeu por que razão nesse tão anunciado processo de obtenção do cartão do cidadão afinal nada funcionava. A senhora, simpática e atarefada, explicou-me: porque os procedimentos técnicos são complexos e morosos; porque todos eles foram acrescentados, ex novo, à carga de trabalho já pesada; porque a introdução foi feita depressa e mal; porque a formação foi breve e feita durante o horário do expediente.

Mas ao menos está tudo tratado, alívio, acabou? Não, não está tratado, não há alívio, não acabou. Falta agora ser contactado para ir levantar o cartão. Tirar novamente senha. E esperar outras seis horas pelo processo de «activação». «E perguntará o senhor», disse-me a funcionária, «porque razão tendo entregue todos os documentos pedidos, sido fotografado, tendo sido a iris do olho registada, as impressões digitais obtidas, porque razão não nos limitamos a activar o cartão e entregar-lho depressa a si? E eu não lhe posso responder, excepto dizendo que está determinado ser assim.»

E eu não identifico nem o serviço nem a senhora. Porque no Portugal de Sócrates o facto de estar mais atento aos resultados que ao eco da propaganda, caso chegue por acaso ao «conhecimento superior», não serve seguramente para melhorar os serviços. E pode com boa probabilidade servir para «disciplinar».

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