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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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07
Mai09

Eduardo Lourenço explicou o sucesso de Salazar dizendo que o velho estadista instituira «uma ditadura adequada». Essa ditadura «adequada» não tinha, na acepção de Lourenço, nada a ver com «merecida», mas antes era milimetricamente ajustada ao anseio dos Portugueses por ordem, saneamento financeiro, estabilidade económica e política, e crédito internacional, depois dos desmandos da I República.

Tirando a ordem, o saneamento financeiro, a estabilidade económica e o crédito internacional, com Sócrates acontece a mesma coisa: Sócrates instituiu uma forma de governo que se adequa milimetricamente a algumas idiossincracias e também aos piores defeitos (muitos deles a própria fonte de atraso social, cultural e económico) dos Portugueses.

E eis porque, sendo os resultados da governação socialista realmente medíocres, o presente realmente pobre, e o futuro genuinamente sombrio, Sócrates não perde demasiados pontos nas sondagens. É que os Portugueses gostam de, e identificam-se com as suas políticas.

Gostam dele, antes do mais, pessoalmente. Apreciam os tenros anos de empenhada militância política, de busca da verdade que o levou a trocar as fileiras sociais-democratas pelas dos socialistas - aliás, na senda de Guterres, que também se mudara para o PS após verificar que no PSD havia demasiada gente à sua frente.  É-lhes simpático o estudante esforçado que se elevou a um pequeno curso superior, se esforçou no inglês técnico, fez exames até ao domingo, e obteve o diploma. Respeitam o engenheiro da câmara que assinou umas casitas.

Mas, acima de tudo, os Portugueses gostam da sua maneira de fazer política.

Os Portugueses têm, no intervalo das suas depressões, ânsias de serem importantes na cena internacional, sonhos de serem faróis do Mundo. Então, Sócrates põe-se em bicos dos pés e diz-lhes que são faróis do Mundo. Por exemplo, o tratado refundador da União Europeia chama-se de Lisboa. Foi negociado apressadamente e com singular descaso do interesse nacional; acarreta para Portugal perda considerável de peso relativo e dinheiro. Mas chama-se de Lisboa, e isso é porreiro.

Por exemplo, o Centro Cultural de Belém é agora, com a colecção Berardo, disse Sócrates, uma porta de entrada do Mundo para a arte moderna. As actividades do Centro foram restringidas para acolher a colecção, o Estado paga milhões de dinheiro dos contribuintes para guardar a colecção, e, no fim, a colecção não reverte para o domínio público. Mas o Mundo ganhou uma porta de entrada para a arte moderna, e a porta é nossa, que diabo.

Por exemplo, fomos o primeiro país do Mundo a oferecer-se para acolher prisioneiros de Guantanamo. Outros países civilizados consideram estas matérias, e a extrema perigosidade dos detidos, demasiado sensíveis para aconselharem precipitações e voluntarismos. Mas nós, não. Nós demos o exemplo ao Mundo.

Os Portugueses e Sócrates sentem-se importantes. Até lidam e confraternizam com gente importante, Santos, Chavez, Mugabe, senhores do Mundo.

Os Portugueses não gostam de ser responsabilizados pelos seus insucessos? Sócrates é como eles. Diz-lhes que não têm a culpa: a culpa é, aqui, dos banqueiros, do casino da Bolsa, dos pessimistas, dos telejornais travestidos, dos ricos, das campanhas negras. E, internacionalmente, a culpa é de Bush, dos banqueiros, dos casinos das Bolsas, dos americanos, dos neo-liberais (que em linguagem socialista significa capitalismo, porque os socialistas regridem sempre à sua génese quando os tempos são difíceis). Que importa que o Governo governe mal, condicione as empresas, promova a opacidade do comportamento económico, sufoque os agentes com burocracia e impostos, e afugente os investidores com o pavoroso estado da Justiça? A culpa é dos outros, diz Sócrates, e assentem os Portugueses com alívio.

Os Portugueses têm uma preferência especial por borlas? Sócrates e os socialistas vêem borlas em todo o lado. Autoestradas, aeroportos, comboios, são, dizem os socialistas, «gratuitos». Festas de propaganda e lançamento de obras? São croquetes, senhor, são «gratuitos». Que importa que seja realmente necessário ser-se um socialista para conseguir cultivar este distanciamento perante as duras realidades da economia? O que importa é que, ao menos por momentos, autoestradas, aeroportos e comboios pareçam gratuitos. Ao menos antes de os nossos filhos e netos começarem a pagar por eles.

Mas talvez eu seja um pobre e perdido pessimista. Amargo, frustrado, céptico. Talvez os Portugueses não sejam assim, e não queiram afinal nada disto. Teremos bastas oportunidades eleitorais, este ano, para tirar teimas sobre o assunto. E talvez os Portugueses não sejam assim. Talvez não, realmente. Mas os que forem, devem votar Sócrates, devem votar socialista.

 

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