Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

05
Mai09

Nos últimos 15 anos, Portugal foi governado pelos socialistas durante 13 anos. Tendo-os eleito, os Portugueses são responsáveis do desempenho medíocre e do seu próprio consistente empobrecimento. A julgar por sondagens recentes, pode dar-se que os Portugueses queiram, na sua propalada sabedoria, ainda mais do mesmo. Mas essa preferência, sendo nociva e auto-punitiva, é, no entanto, compreensível: o PS conhece bem os Portugueses, sabe dirigir-se aos seus piores e mais proverbiais defeitos, e gere-os bem em seu proveito.

 

Foi assim em 1995 com Guterres. Pode bem ter Cavaco tentado convencer os seus compatriotas de que não há fortuna sem trabalho, de que é necessário trabalhar bem, com rigor e disciplina. Os indicadores económicos arvoravam uma insuspeitada saúde, e os Portugueses penosamente ouviam-no. Quase pareciam convencidos. Mas esperavam, afinal e apenas, que alguém viesse incitá-los a renovarem o descaso e aplaudir-lhes a persistência na impreparação e no improviso.

   

«Não há-de ser nada», dizia Guterres. «É a vida», dizia. «Estamos a analisar. Veremos.» E os Portugueses gostaram. Apreciaram o discurso redondo e oco que lhes pareceu doutoral e culto (pois então o homem não salvara até umas gravuras, mesmo perante o pior défice energético da Europa, pois não lavrara um futuro de abundância e turismo histórico para uma povoação ignorada?!). Os Portugueses identificaram-se com a sorridente aversão a PIBs, matemáticas e outras coisas áridas e exigentes da vida; compreenderam o fatalismo afável que prefere, à acção, o diálogo sem fim nem propósito.

 

Beberam as juras de solidariedade e consenso, avessos como são ao debate e ao confronto. Inspirou-os a paixão da educação - não consumada mas uma emoção, que era, diziam-lhes, a nova palavra de ordem. Tomaram por medularmente democrática a incapacidade atávica de distinguir entre autoritarismo e autoridade. Tomaram por combate à crispação, por «distensão», o que era um deserto de escrutínio e contraditório, uma suave tirania. Os meios de comunicação ensaiavam já uma complacência e uma cumplicidade em que, mais modernamente, Santos Silva os faria ultrapassarem-se. Grupos de interesses, classes, boys com jobs ou em busca deles, ramos de negócios, funcionalismos, sentaram-se e saciaram-se à mesa do orçamento.

 

E, com Guterres, Portugal perdeu a oportunidade, numa conjuntura económica particularmente risonha e favorável, de reformar-se, crescer, mudar de vida, desenvolver-se, viver melhor. Em vez disso deu, subsidiou, gastou, esbanjou o que tinha e o que não tinha. Não se deu a trabalhos, deixou-se estar. «Não há-de ser nada.»
 
Incaracteristicamente, pouco portuguêsmente – porque os Portugueses são muito rápidos a reconhecer responsabilidades alheias mas renitentes a admitir as suas – Guterres retirou-se quando «o pântano» era indisfarçável (e de sua autoria, indisfarçavelmente, de autoria do que um ministro seu considerou «o pior governo desde D.Maria») e «o monstro» dos gastos e da dívida pública, (para que Cavaco alertara, como está a alertar agora) já prometia futuros como este presente que temos.

 

No momento em que Guterres caminhava envergonhadamente para a saída, um jovem ministro do Ambiente fazia aprovar um centro comercial em área anteriormente protegida, enquanto, do mesmo passo, se fazia filmar por televisões a multar pequenos agricultores que haviam feito pequenas represas sem obterem a regulamentar licença. Gestos largos e liberais, para um lado, temperados de legalismo minucioso, para outro. Perfilava-se no horizonte um promissor e digno herdeiro. E trazia umas mezinhas das que os Portugueses apreciam.
Amanhã, o nosso presente socialista

 

 

 

1 comentário

Comentar post

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Publicidade

Comentários recentes

Links

_EM DESTAQUE

_RISCOS ASSUMIDOS

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D