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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

14
Abr09

O título é roubado ao Rodrigo Moita de Deus, ou melhor, o título é roubado ao segundo romance publicado pelo bloguer do 31 da armada – editado, se não me falha a memória, em 2001 pela Bertrand. Ainda não existia o 31 da armada e ainda  a blogosfera não era o que é hoje.


Encontrei o livro por acaso, há poucas semanas, numa estante de promoções, pelo que o devo ter adquirido por uns módicos cincos euros, ou coisa que se pareça. Na altura, andava entretido a explorar o que de novo se escrevia em Portugal, aquilo a que no “mundo editorial” (se é que o existe) chamamos de “novos autores”. Primeiro li o “apocalipse dos trabalhadores”, do valter hugo mãe, com letra minúscula é claro, como gosta de escrever e que parece ter pegado moda, depois entreguei-me ao “Cemitério de Pianos” do Peixoto, logo de enfiada foi o “Elogio do Passeio Público” da inesquecível Filipa Martins, isto em vésperas de eu lançar o meu primeiro livro, semanas depois descobri, parece que tarde, o João Tordo com o “Três Vidas” e mal o acabei devorei a edição de bolso do “Hotel Memória” que, ao que dizem, o lançou para o estrelato da literatura nacional e até para a internacionalização, que ao que me dizem também é tipo uma chave do totoloto dos escritores (ou se preferirmos,  o passaporte para que possam começar a viver unicamente da escrita).


Estava com um ritmo de leitura interessante e comecei a frequentar ainda mais as livrarias, ciente de que a minha tarefa de me “cultivar” seria bem sucedida, comprei umas coisas que para aqui tenho do Jacinto Lucas Pires, mas nunca as li – decidi voltar aos velhos livros e ainda embalado pela escrita do João Tordo comecei a reler a “Trilogia de Nova Iorque” do Paul Auster, onde sem dúvida se inspira (não vale de nada negar). Foi então que e voltando ao propósito deste texto, encontrei “O Vigarista” do RMD – decidi deixar o Auster de lado, terminei apenas a releitura de “A cidade de vidro” e parei.


O Rodrigo relata a história de um jovem colombiano, viajado à custa do seu trabalho como paquete em cruzeiros de luxo, autodidacta e culto por convicção, poliglota e sedutor à antiga, um gentleman com uma pitada sul-americana. Um homem que chega a Portugal com alguns milhares de contos refugiados na Suíça, fruto de um furto realizado no último navio onde trabalhou e se prostituia – instala-se no Ritz, aluga um carro com motorista, faz-se passar por nobre e adopta um nome falso comprovado por um passaporte adquirido na candonga, dizendo que se tratava de um amigo pessoal de Soros. Ao fim de dois anos, após ter burlado banqueiros, políticos, empresários e jornalistas e de ter dormido com as mais apetecíveis musas portuguesas, torna-se um magnata da comunicação social, construindo um império baseado no crédito fácil e em avales pessoais sem valor efectivo – o circo é desmontado por um jornalista e D. Sortorio de Santamaria (penso que é assim que se escreve) é obrigado a fugir para uma ilha deserta, onde aproveita a sua vida rodeado dos seus milhões.


Este relato pode parecer completamente ficcional e suponho que em 2001 até o fosse, mas hoje é nos apresentado como um espelho da realidade. Não só as promiscuidades entre comunicação social, política e finança que em “O Vigarista” nos são reveladas, se tornam cada vez mais evidentes, como surgem cada vez mais histórias idênticas a estas. Vejamos pois a travessuras de João Vale e Azevedo em Inglaterra, o buraco do BPP, o Freeport e todos os escândalos após a falência do BPN. Em Portugal, muitas vezes não é preciso ser rico, basta parecer – o que serve para conquistar posições de simpatia junto da política, do mundo financeiro e mesmo da comunicação social – depois disso é fácil tornar-se rico. Já sabe, se quiser montar uma empresa de sucesso o melhor investimento que pode fazer é adquirir um Aston Martin DB9 a leasing.


Mas o que me levou a escrever este texto não é nenhum exemplo português. Folheava hoje a Tabu, quando descobri, penso que tarde, a incrível história do Sr. Achilleas Kallakis, contada pelo jornalista César Avó. Trata-se de um campeão de Póquer, que até há pouco tempo residia em Londres. Conhecido apenas no mundo do jogo, cedo adoptou o nickname de The Don.


Do jogo de cartas até à alta finança foi um pequeno passo – antes disso ainda teve tempo para ser condenado pela venda de títulos nobiliárquicos falsos a norte-americanos, sauditas e australianos. Kallakis montou um império imobiliário, com recurso ao crédito bancário, no Reino Unido, através de papelada forjada. Mal conseguiu algum dinheiro só teve que preparar bem a encenação e parecer um milionário: um Bentley com motorista, um suposto cargo de Embaixador de San Marino no Sultanato do Brunei, um falso interesse na compra da equipa de fórmula 1 da Honda, uma suposta ascendência de uma família milionária grega, um escritório na Mayfair, uma casa em Knightsbridge, uma segunda casa em Monte Carlo, um jacto privado e um magnífico  barco na Côte d’Azur. Tudo correu bem até que um banco irlandês denunciou o caso à Serious Fraud Office – a mesma instituição que, ao que nos conta o jornalista do Sol, está a investigar o caso Freeport. Ninguém sabe do paradeiro do “milionário”.


É fenomenal como a ficção e a realidade se podem tantas vezes cruzar – é o caso.  Leiam o livro e nunca confiem muito nos novos ricos.

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