Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

13
Abr09

Corria a década de oitenta e Miguel Esteves Cardoso, o afamado MEC (agora de regresso à blogosfera), publicou o livro “A Causa das Coisas”, editado pela Assírio & Alvim e que penso andar hoje pela sua 18ª edição. Facto de relevo. Trata-se de uma colectânea de artigos de opinião publicados no Expresso, a qual o nosso MEC faz questão de não dedicar a ninguém, explicando que não seria justo dedicar apenas a algumas pessoas e que seria pretensioso dedicar a todas. Brilhante. O livro está divido, como o nome indica, em duas partes, “as causas” e “as coisas”, esta segunda ilustrada. Pessoalmente gosto mais da primeira.


Um dos textos que mais marca esta obra está na parte das “causas” e dá pelo título de “o povo rico” e para explicar quem é este “povo rico”, nada melhor do que devolver a palavra ao próprio MEC: “O povo rico é uma classe que se caracteriza principalmente por uma forte consciência de classe. Têm sobretudo consciência da classe que lhes falta”. Segundo o cronista, trata-se de uma nova classe social, nascida após o 25 de Abril e que vem depois dos “novos ricos”. Durante todo o texto, o Miguel vai caracterizando esta “classe” e gozando com os seus hábitos: “comem nos restaurantes uns dos outros, vestem-se nas lojas uns dos outros e enformam-se segundo as formas de estar na vida uns dos outros”. Mais à frente lança outra provocação: “o povo rico anda sempre às palmadas nas costas dos criados dos restaurantes e tratam-se por tu, pelo primeiro nome (às vezes por não terem outro). Isto não é armar – é uma genuína confraternização entre pares em que o povo rico se esforça para mostrar que o cartão de crédito não lhe deu ares menos puros do que os da aldeia”. Quanto à linguagem que o “povo rico utiliza”, MEC lança mais umas farpas: “dizem uma moradia em vez de uma casa (...) sou de direita em vez de sou conservador, sou social-democrata em vez de sou liberal, arguardenta velha em vez de Brandy”. Este é o “povo rico”.


Quando no outro dia apresentava um livro, a outra apresentadora, a escritora Maria Manuel Viana, viúva de Eduardo Prado Coelho, falava da importância que um outro escritor, José Luis Peixoto, teve ao inventar o “morreste-me”, colocando-o no panorama literário nacional. Mas se um escitor pode inventar o “morreste-me”, porque é que o MEC não pode inventar uma nova classe social? Considero pois que esta classe existia mesmo na década de oitenta, não só para o MEC, mas para todos nós. Mas será que ainda existe actualmetne? Disso é que não tenho tantas certezas.


Esta classe, na minha opinião, nunca chegou a ser rica – por isso mesmo era o “povo rico” e não os “novos ricos”. Tinham dinheiro mas não eram ricos, talvez por isso ainda fossem povo. São os patrões das PME’s na altura das vacas gordas, dos fundos comunitários directamente para os últimos modelos de jipes da mitsubishi, do fácil acesso ao crédito empresarial e do excessivo crédito ao consumo, tolerado na época pela banca. Este “povo rico” que nunca chegou a ser “novo rico”, dá agora lugar a uma nova classe, os “novos pobres”. São estes os industriais que diáriamente vão à falência no nosso Portugal, muitas vezes desculpando a má gestão das suas empresas com a crise – coitada da crise, que tem as costas tão largas.


Os problemas que levaram à falência da classe do “povo rico” foram precisamente aqueles que o MEC diagnostica no seu artigo. Problemas culturais, ou melhor, de falta de cultura. Problemas de classe, ou melhor, de falta dela. Trata-se de malta que não estudou e depois de ter dinheiro também não foi estudar, que nem sequer se preocupou em exigir aos seus filhos que estudassem, pior do que isso trata-se de malta que não se cultivou, que não leu, que continuou a gostar de múscia pimba e que ajudou a construir a podridão em que se transformou a maioria da nossa indústria de entretenimento e informação, completamente desprovida de sentimento de missão cultural. No entanto, a principal causa desta falência, foi a simples falta de sentido de gestão empresarial – simplesmente queriam imitar os gostos e os hábitos dos novos ricos, não tendo o dinheiro deles e tendo por isso que se endividar. O “povo rico” acabou, o que virá agora?

Comentar:

CorretorMais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Publicidade

Comentários recentes

Links

_EM DESTAQUE

_RISCOS ASSUMIDOS

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D