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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Reformas Laborais em Portugal e o Contraste com as Monarquias Sociais Europeias

José Aníbal Marinho Gomes, 25.11.25

 

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A recente reforma laboral em Portugal reacendeu um debate persistente sobre a capacidade do Estado em garantir condições de trabalho estáveis, previsíveis e socialmente equilibradas. A flexibilização introduzida em sucessivas alterações ao Código do Trabalho tem sido interpretada como um favorecimento da adaptabilidade económica em detrimento da segurança individual, num contexto em que a precariedade persiste como fenómeno estrutural.

O contraste com várias monarquias constitucionais europeias é frequentemente utilizado como referência comparativa. Países como a Dinamarca, a Noruega, a Suécia, o Luxemburgo e os Países Baixos apresentam sistemas laborais robustos, forte protecção social e elevados padrões de bem-estar. A estes exemplos somam-se a Bélgica e o Reino Unido, com tradições consolidadas de estabilidade institucional e negociação social, ainda que com modelos económicos distintos.

Importa reconhecer, no entanto, que estes Estados possuem especificidades históricas, culturais e económicas que não podem ser automaticamente transpostas para Portugal. Apesar disso, evidencia-se um elemento comum significativo: a existência de democracias sociais desenvolvidas, sustentadas por instituições estáveis e por mecanismos laborais amplamente favoráveis aos trabalhadores, um resultado que se observa com particular consistência nas monarquias constitucionais.

Um traço diferenciador das monarquias europeias reside no papel das suas chefias de Estado. Enquanto estruturas permanentes e não sujeitas a ciclos eleitorais, contribuem para a continuidade institucional e para uma menor volatilidade política, favorecendo o desenho e a execução de políticas públicas de longo prazo, nomeadamente no domínio laboral. Esta estabilidade cria um ambiente propício à concertação social e à manutenção de direitos laborais amplamente consensualizados, beneficiando trabalhadores, empregadores e a sociedade em geral.

Outro factor relevante é a força da negociação colectiva e dos sindicatos nesses contextos. Nos países nórdicos, grande parte das normas laborais decorre de acordos entre parceiros sociais e não exclusivamente da lei, assegurando previsibilidade para trabalhadores e empresas. A Bélgica segue uma lógica semelhante, com uma concertação social profundamente institucionalizada. Em Portugal, pelo contrário, o declínio da negociação colectiva e a fragilidade sindical têm contribuído para um mercado de trabalho mais desequilibrado e vulnerável a decisões unilaterais.

A coerência entre políticas públicas e investimento social nestas monarquias reforça igualmente os resultados positivos no mercado laboral. O uso estratégico de recursos, como no caso do fundo soberano norueguês, ou a organização territorial e social dos Países Baixos facilitam a conciliação entre vida profissional e pessoal, reduzindo os efeitos negativos da flexibilidade laboral. Em Portugal, os jovens continuam a enfrentar contratos curtos, salários pouco competitivos e dificuldades no acesso à habitação, limitações que comprometem o planeamento de vida e perpetuam a incerteza.

Assim, a questão central ultrapassa o debate imediato sobre reformas laborais. O que está em causa é a necessidade de repensar o modelo de organização social, em que o trabalho não seja apenas um factor económico, mas também um pilar de dignidade, segurança e coesão.

As monarquias constitucionais europeias demonstram que competitividade e protecção social podem coexistir. A experiência destes países evidencia que uma chefia de Estado permanente e instituições estáveis favorecem a continuidade política e a implementação de políticas laborais de longo prazo, contribuindo para sociedades mais equilibradas e resilientes. Portugal, enquanto república, enfrenta desafios acrescidos devido a ciclos políticos mais curtos e maior exposição a alterações legislativas frequentes.

Portugal encontra-se, portanto, num momento decisivo. O futuro das relações laborais depende da capacidade de construir consensos duradouros, promover o diálogo social e reforçar políticas que cuidem da vida dos trabalhadores para além da conjuntura económica. Só assim será possível assegurar um modelo laboral que permita não apenas trabalhar, mas viver com dignidade, inspirando-se em práticas testadas nos países monárquicos europeus.

 

 

República do Circo: Quando o Presidente Promete Vinhos, Ferraris… e Amor

José Aníbal Marinho Gomes, 17.11.25

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Na mais recente entrevista à SIC Notícias, Manuel João Vieira, músico, artista performativo e fundador dos irreverentes Ena Pá 2000 (responsáveis por algumas das mais provocadoras sátiras culturais do país), mostrou que a política portuguesa consegue sempre ultrapassar os limites da imaginação.

Munido de mais de 7.500 assinaturas e de um programa que faria corar qualquer guionista de comédia absurda, o pré-candidato promete vinho canalizado em todas as casas, um Ferrari para cada português, patinadoras russas para uns e dançarinos cubanos para outras. Tudo em nome do afecto — porque, segundo ele, aquilo que verdadeiramente oferece é amor. E para coroar a epopeia, declara: “Só desisto se for eleito.” Eis o mais recente milagre da República Portuguesa: transformar uma candidatura presidencial no maior espectáculo político do ano.

Este caso tão hilariante quanto preocupante revela uma verdade desconcertante. Nas repúblicas onde o Chefe de Estado é eleito por sufrágio directo, a chefia do Estado pode ser disputada por qualquer cidadão que reúna as assinaturas necessárias e uma boa dose de disposição para o protagonismo. A democracia abre as portas — e o circo instala-se.

Manuel João Vieira, com o seu humor de contracultura, mostra que o modelo republicano pode facilmente perder a gravidade que um Chefe de Estado deveria encarnar. Não está em causa a democracia — que também se encontra plenamente nas monarquias constitucionais — mas sim um sistema que transforma a mais alta magistratura da Nação num palco de espectáculo e frivolidade.

Se o processo eleitoral acolhe com entusiasmo promessas surreais e programas que roçam o disparate, então o problema não é o candidato, mas sim o mecanismo que o legitima. O absurdo, quando se torna viável, deixa de ser brincadeira e transforma-se em sintoma.

É precisamente neste contraste que a monarquia aparece como uma alternativa que, longe de ser arcaica, se revela de surpreendente sobriedade. Num sistema monárquico constitucional, o Chefe de Estado não precisa de recorrer a promessas extravagantes para conquistar popularidade, nem depende da espuma das redes sociais ou da viralidade momentânea. A sua função assenta na continuidade histórica, na neutralidade perante os partidos e na representação da unidade nacional. Enquanto um Presidente da República é empurrado para campanhas onde o espectáculo se sobrepõe à substância, um monarca cumpre a sua missão sem ter de transformar a dignidade do Estado num número de entretenimento.

A monarquia não precisaria de Ferraris para ganhar afeição pública, nem de canalizar vinho para mostrar proximidade ao povo. Existe para ser referência institucional, e não fenómeno de feira política. É um cargo que não depende da ilusão: depende da estabilidade. Uma estabilidade que a república se mostra incapaz de garantir quando qualquer eleição pode converter o Palácio de Belém num palco de humor que arrisca tornar-se perigoso. Enquanto na república se escolhe sempre alguém com algo a provar — seja por ambição, por ego ou, como neste caso, por sátira —, na monarquia o Chefe de Estado simplesmente representa o país de forma contínua, sem necessidade de cativar eleitores com absurdos.

Não que restaurar a monarquia seja processo simples. Há resistências ideológicas, entraves constitucionais e um hábito republicano já estabelecido. Mas há também um problema cada vez mais evidente: o regime actual já não consegue proteger a seriedade institucional que o cargo exige. A entrevista de Vieira funciona como um espelho cruel: se o país hoje pode ter um candidato presidencial cuja principal arma política é o humor, amanhã poderá ter um Presidente eleito da mesma escola — e aí já não haverá vinho nem Ferrari que disfarce o embaraço.

Com ou sem intenção, Manuel João Vieira prestou um grande serviço à discussão pública: ao ridicularizar o modelo presidencialista português, demonstrou o quão exposta está a república à banalização da autoridade do Estado. Lembrou-nos que, no actual sistema, a fronteira entre a política e o espectáculo é tão ténue que um passo em falso pode transformar o Chefe de Estado numa figura de riso nacional. E, convenhamos, quando a política se torna palhaçada, o país é que paga o bilhete da entrada.

Talvez esteja na hora de Portugal reflectir sobre que tipo de liderança quer no topo do Estado. Talvez devamos escolher entre o reinado da dignidade e o reinado do meme. E talvez a piada tenha chegado ao fim. Porque rir do Presidente é perigoso quando ele já nem precisa de estar lá para nos fazer rir.

 

António Filipe e a Mordaça Constitucional: A República que Nega a Democracia

José Aníbal Marinho Gomes, 17.11.25

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A recente entrevista do candidato presidencial António Filipe à SIC Notícias, na sua condição de "orgulhosamente de esquerda sem mas nem meio mas", expôs de modo lapidar as mais profundas contradições e fragilidades do regime republicano. O candidato, antigo deputado comunista, apresenta-se como o "último reduto" e "guardião último do regime democrático", em defesa dos ideais de Abril e da Constituição. A nobreza da intenção, contudo, é tragada pela fatalidade da sua escolha institucional: o ideário progressista de igualdade e justiça social que almeja jamais poderá ser plenamente concretizado sob a tutela de uma República viciada. O que o discurso do candidato expõe, involuntariamente, não é a força da República, mas a sua endémica debilidade.

António Filipe baseia a sua candidatura na necessidade de um Presidente da República que use os seus poderes para a "vigilância" e a "salvaguarda do funcionamento das instituições democráticas," vetando acções que considere regressivas. Aqui reside o erro fundamental de diagnóstico. A figura do Presidente eleito, por mais bem-intencionado, é um guardião de facto efémero e, por definição, partidário. Ao assumir-se como "orgulhosamente de esquerda," António Filipe consagra a politização do cargo. O seu "guardião" tem um lado, e a sua direcção é ideológica. Como poderá um chefe de Estado eleito por uma minoria ou coligação ser o símbolo imparcial da Nação inteira? A sua autoridade moral é limitada pelo mandato e pela sua génese facciosa. Mais grave ainda é o facto de, ao ser eleito para um mandato de cinco anos, o Presidente ser, por natureza, transitório. O "último reduto" é apenas uma trincheira temporária que, inevitávelmente, será entregue ao próximo vencedor eleitoral. A História de Portugal republicano é uma sucessão de ciclos viciosos, onde a ideologia no poder desfaz o que a anterior fizera.

A Monarquia Hereditária resolve esta contradição. O Rei não é eleito; a sua lealdade não é para com um partido ou uma facção, mas para com a Nação e a sua História. O Monarca, pela sua permanência e supra-partidarismo, é o único capaz de exercer uma verdadeira e incondicional vigilância sobre o Estado. A sua função não é a de um jogador, mas a de um árbitro imparcial, um verdadeiro "guardião" que não tem de se sujeitar aos cábulas eleitorais para sobreviver. A sua coroa é o símbolo da Continuidade Nacional, o único facto que transcende os governos.

Além disso, o candidato António Filipe assume a defesa da Constituição de Abril como o seu projecto maior. É neste ponto que a sua tese esbarra na tradição e na continuidade histórica portuguesa, e mais especificamente, na própria ilegitimidade imposta pelo actual regime. É crucial notar que a Constituição de 1976 não apenas consagra a República, como a blinda contra o que pode ser a vontade popular. O Artigo 288.º, alínea b), impede taxativamente que as leis de revisão constitucional alterem a forma republicana de governo. Esta limite material não só proíbe a restauração da Monarquia por via de revisão constitucional, como impede que o povo português seja consultado em referendo sobre a forma de Estado. Ou seja, o regime que António Filipe defende é o mesmo que nega aos cidadãos o direito democrático fundamental de escolherem, livremente, a chefia do seu Estado. Esta é a maior contradição da República, a negação da democracia em nome da sua própria permanência.

Assim, a Monarquia não é a negação dos valores sociais que a esquerda defende, mas o seu corolário mais estável. Os direitos e deveres sociais evoluíram sob séculos de realeza. Na República, a igualdade é uma promessa eleitoral constantemente adiada; na Monarquia, a igualdade perante a Lei é uma garantia histórica assegurada por um Chefe de Estado que, não dependendo de votos, não tem de ceder a interesses oligárquicos ou plutocráticos. A justiça social defendida por António Filipe exige estabilidade e direcção consistente. Ora, a República, com a sua instabilidade governativa e a permanente tensão eleitoral, consome a energia do País em contendas fúteis. O Monarca, pela sua estabilidade dinástica, liberta os governos (escolhidos no Parlamento) da necessidade de luta constante, permitindo-lhes focar-se, de facto, no bem-estar do Povo.

Em suma, a candidatura de António Filipe, ao invés de reforçar a República, sublinha a sua falência e a sua ilegitimidade na origem. O candidato procura salvar uma casa em ruínas com o seu próprio esforço ideológico, sem poder sequer questionar a estrutura fundamental dessa casa. Os valores que defende – o respeito pela Lei e a defesa dos mais fracos – seriam melhor servidos por um regime que eleva a chefia de Estado acima do pântano partidário e que permite a livre escolha do povo. Esse regime é a Monarquia.

A Contradição de Belém: Catarina Martins e o Mito da Neutralidade

José Aníbal Marinho Gomes, 16.11.25

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A entrevista de Catarina Martins à SIC-Notícias foi uma demonstração acabada daquilo que a República produz no seu estado mais pobre: um Chefe de Estado visto como agitador político, um presidente-activista ao serviço de uma facção ideológica.

Catarina Martins apresentou a sua candidatura repetindo que “é pessoal” e que quer “convergências”, “lugar para toda a gente”, “ponte entre caminhos políticos diferentes”. Mas não pode exigir que se acredite nessa narrativa quando continua eurodeputada do Bloco de Esquerda, com direito a todas as prerrogativas partidárias, orçamento, visibilidade institucional e máquina propagandística do partido. Não abdica de nada — apenas quer acumular tudo.

Faz carreira partidária de manhã em Bruxelas e promete neutralidade à noite na televisão. Esses dois planos não convivem. Só coexistem como contradição. O país conhece-a demasiado bem como militante bloquista — e ela sabe isso. Por isso insiste na ficção: repetir que algo é pessoal nunca fará desse algo independente.

Quando questionada sobre a luta política à esquerda, Catarina Martins volta a colocar-se como a porta-voz legítima do campo progressista: os outros “fazem jogos tácticos”, “desistem do país”, “deixam crescer a extrema-direita”. Ela, não. Ela é a “decência”, a “coragem”, a “democracia”. Quando uma candidata se veste de moral absoluta, está a dividir — mesmo quando proclama união.

E é aqui que a sua visão republicana se revela infantil, primária — não no sentido ofensivo, mas na sua falta de maturidade institucional. Ela acredita que a República existe para travar partidos com que discorda, para impor uma matriz ética sobre o Parlamento, para vigiar o Governo com punições políticas e, se necessário, bloquear maiorias legítimas. Aliás, afirma sem hesitações que “qualquer maioria possível trabalharei para que não inclua o Chega”, prometendo impedir um governo, ainda que resultante do voto popular.

Aqui está o problema central: A democracia, para Catarina Martins, é aceitável… desde que vote na esquerda. É a eterna tentação da República portuguesa: transformar Belém num bastião partidário.

É precisamente para evitar isto que, nas Monarquias Constitucionais modernas, o Chefe de Estado não pode ser parte das facções — porque representa a Nação inteira. A Monarquia diz: o poder político dispute-se nos partidos; a Chefia de Estado é o lugar da unidade, da história, da continuidade e da estabilidade.

Enquanto na República se pede ao Presidente para ser árbitro… depois de ter sido jogador. A Monarquia resolve o absurdo: O árbitro nasce árbitro.

A República portuguesa está viciada na personalização do poder — troca-se de Presidente, troca-se a moral. A cada eleição, uma nova “salvação”, uma nova “decência”, um novo “guardião”. Catarina Martins quer ser guardiã da Constituição… mas com alvos ideológicos específicos. O Presidente-activista é o pior dos mundos: legitima-se no voto e exerce influência como se fosse acima do voto.

Já um monarca constitucional não governa: vigia o funcionamento das instituições; não se candidata, não disputa poder contra ninguém, não precisa de derrotar adversários para ser símbolo nacional.

Numa República angustiada com crises cíclicas, dissoluções políticas e confrontos permanentes, o papel unificador do Chefe de Estado é vital — e, paradoxalmente, impossível de alcançar sob as regras da própria República, porque quem lá chega precisou dividir para vencer.

Na monarquia: Não há conversões forçadas à imparcialidade. Não há simulacros de independência partidária. Não há Presidente-militante. Há um símbolo estável e duradouro que não está sujeito à erosão moral dos ciclos eleitorais.

Catarina Martins é sincera ao afirmar que “Portugal não é um país do ódio, é um país da solidariedade e respeito”. Está correcta na frase — mas falha no entendimento institucional. O eleitorado precisa de uma Chefia de Estado que encarne essa ideia sem ter de a disputar. Que represente o País sem precisar de excluir quem vota diferente.

Se a República — como Catarina idealiza — depende sempre de uma presidência política para “defender a democracia”, então é um regime estruturalmente frágil. A Monarquia Constitucional oferece, pelo contrário, um regime em que a democracia parlamentar funciona sem um Presidente a fazer de tutor.

Catarina Martins quer “cuidar” do país. A intenção é nobre. Mas a história prova: os regimes que mais precisam de ser cuidados… são os mais fracos. E a República portuguesa já se mostrou incapaz de gerar estabilidade duradoura, unidade nacional ou confiança institucional.

Portugal não precisa de mais uma activista em Belém. Precisa de recuperar uma Chefia de Estado acima das partes, que una o que a política divide. Precisa de reencontrar a memória do que foi — e a segurança do que pode voltar a ser.

Precisa, enfim, de uma Monarquia Constitucional.

 

A entrevista de Jorge Pinto — a utopia da República e os limites da imaginação política

José Aníbal Marinho Gomes, 14.11.25

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Jorge Pinto, deputado do partido LIVRE e apoiado oficialmente pelo mesmo partido, apresentou-se na SIC como o rosto de uma mudança radical, alguém que declara querer libertar Portugal das estruturas partidárias e das convenções institucionais que, segundo ele, limitam a participação cidadã. Na entrevista conduzida por Ana Patrícia Carvalho, falou de igualdade, cidadania activa, poder popular e democracia directa — conceitos que soam progressistas, sedutores e em sintonia com a agenda ecologista a que se vincula. Porém, por mais nobres que sejam essas intenções, a chefia do Estado exige algo mais do que entusiasmo transformador: exige continuidade, autoridade moral e uma capacidade de representar o país para além de ciclos eleitorais, slogans ou euforias momentâneas.

O candidato propõe uma presidência próxima do cidadão comum, sem hierarquias nem formalismos. Essa ideia poderá parecer fresca e inclusiva, mas denuncia um desconhecimento profundo do que sustenta a estabilidade política. A horizontalidade absoluta que sugere implicaria um Presidente sujeito à pressão da emoção pública e à volatilidade do momento, sem o distanciamento institucional que garante ponderação e sobriedade. A República que idealiza dependeria da improvisação do presente, da boa vontade popular e de uma constante mobilização — um modelo que pode motivar, mas dificilmente sustenta o Estado quando surgem crises, conflitos sociais ou rupturas inesperadas.

Ao contrário disso, a Monarquia Constitucional — como a que Portugal conheceu e como existe ainda em várias democracias avançadas — demonstra que liberdade e participação podem florescer dentro de uma estrutura duradoura. A Monarquia mantém viva a memória e a continuidade das instituições, serve de símbolo de unidade nacional e representa moralmente o país para além das alternâncias partidárias. Não se trata de rejeitar evolução política, mas de garantir que a mudança não apaga as raízes que seguram o edifício institucional.

Jorge Pinto identifica, com razão, uma falha sentida do regime republicano contemporâneo: o afastamento crescente entre o poder político e a sociedade. Mas a sua solução — dispersão do poder, ausência de hierarquia e modelo inteiramente participativo — ignora que a ordem não é inimiga da liberdade. A História mostra justamente o contrário: quando tudo é volátil e improvisado, são os próprios cidadãos que perdem referências, e direitos tornam-se facilmente negociáveis. A Monarquia Constitucional oferece um equilíbrio essencial: inovação com estabilidade, participação com responsabilidade, mudança com memória. É uma estrutura que protege a democracia de si própria — dos seus excessos, dos seus entusiasmos descontrolados, das suas modas passageiras.

A crítica que faz aos partidos, à política tradicional e às elites instaladas é compreensível; e o seu compromisso ambiental e social deve ser reconhecido. Contudo, a construção de um Estado sério e duradouro não se faz apenas de intenções generosas, de urgências ecológicas ou de discursos motivacionais. Exige instituições sólidas, valores que atravessem gerações e líderes que compreendam que o papel do Presidente da República não é o de activista, mas o de garante — garante da continuidade e da integridade do Estado.

Jorge Pinto é expressão sintomática de uma crise republicana mais ampla: confunde participação com legitimidade, convoca a mudança como sinónimo automático de progresso, e acredita que entusiasmo basta para substituir gravidade institucional. A República que imagina é leve — demasiado leve para sustentar o peso de uma Nação. A Monarquia Constitucional, em contraste, garante precisamente o que ele ignora: um fio condutor entre passado, presente e futuro, onde liberdade, responsabilidade e tradição não se anulam, antes se equilibram e fortalecem mutuamente.

No final da entrevista, surge como um idealista vibrante, consciente de causas urgentes e animado por um profundo desejo de justiça social e ambiental. Mas permanece sem densidade institucional, sem o sentido de permanência que o cargo exige. Um homem de ideias, mas não ainda um homem de Estado. Um discurso cheio de impulso, mas carente de raiz. E Portugal, como a sua própria História atesta, precisa mais de raiz do que de impulso — mais de instituições estáveis do que de entusiasmos passageiros; mais de solidez do que de improviso.

A entrevista de João Cotrim de Figueiredo – o liberal que pediu ordem à desordem

José Aníbal Marinho Gomes, 12.11.25

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Há entrevistas que são um retrato fiel do entrevistado e outras que, sem querer, são um retrato do país. A de João Cotrim de Figueiredo à SIC, conduzida por Ana Patrícia Carvalho, foi as duas coisas. O antigo líder da Iniciativa Liberal falou com o rigor que lhe é próprio, com a calma de quem confunde serenidade com razão, e com a convicção de que a República pode ser reformada por dentro, como se a casa se pudesse arrumar sem tirar os alicerces. O resultado foi, portanto, uma conversa limpa, civilizada e lúcida — mas, como quase tudo o que é republicano, também um pouco ingénua.

Cotrim de Figueiredo acredita que basta vontade e competência para regenerar o Estado. Falou de transparência, de mérito, de liberdade, e de um país onde o cidadão é o centro da decisão. Tudo muito digno, e até nobre, não fosse o pequeno detalhe de estarmos num regime que trata a responsabilidade como uma abstração e a continuidade como um capricho. O liberalismo de Cotrim de Figueiredo é moralmente sério, mas estruturalmente ingénuo: quer instituições firmes numa ordem que vive de transições, quer estabilidade onde reina a alternância, e pede ao sufrágio a coerência que só a herança pode garantir.

Em vários momentos da entrevista, o candidato descreveu, sem o perceber, as virtudes de uma monarquia constitucional. Quando falou na necessidade de um chefe de Estado que não dependa de partidos, que se coloque acima da contenda política e que una o país sem o governar, falava, de facto, do que já tivemos — e perdemos. Portugal conheceu esse equilíbrio durante a monarquia constitucional: um rei que reinava, mas não governava; um poder moderador que garantia a continuidade e a dignidade das instituições, mesmo nos períodos de turbulência política. Foi essa ordem, construída lentamente ao longo do século XIX, que um golpe de Estado destruiu em 1910, precedido pelo crime político mais grave da nossa história — o regicídio de 1908, onde se matou não apenas um rei, mas a própria ideia de legitimidade. Desde então, a República tem tentado imitar, sem o conseguir, a estabilidade que nasceu dessa tradição.

Quando insistiu na importância de uma presidência de estabilidade e de princípios, descreveu precisamente aquilo que só a permanência dinástica podia assegurar. E quando evocou a ideia de uma “democracia adulta”, esqueceu-se de que a maturidade política de um povo não nasce do voto, mas da continuidade moral das suas instituições — aquela continuidade que a República, na sua ânsia de se afirmar moderna, trocou por um perpétuo ensaio de reinvenção.

O seu discurso, em tudo elegante e contido, teve momentos de verdadeira lucidez. Mas também alguns de uma certa secura liberal, onde o país real — o das pequenas esperanças, das hesitações, dos afetos — desaparecia atrás de gráficos e percentagens. Cotrim de Figueiredo tem o mérito de pensar o Estado como um engenheiro pensa uma ponte: quer solidez, eficiência e desenho limpo. Mas a política, sobretudo a presidencial, exige mais do que engenharia — exige alma. E a alma, ao contrário das pontes, não se calcula.

Ainda assim, há em Cotrim de Figueiredo um rigor que falta aos outros. Não houve na entrevista nem demagogia nem fingimento; apenas a convicção, talvez ingénua, de que a razão basta. E nisso, convenhamos, já é um avanço em relação à retórica inflamada de Ventura, à compostura performativa de Marques Mendes ou à exibição quase teatral de Gouveia e Melo — esse mesmo que, numa entrevista recente, achou graça a ironizar com os monárquicos, esquecendo que a coroa, mesmo ausente, pesa mais do que a farda. Cotrim de Figueiredo, pelo menos, respeita a gravidade das ideias.

Mas se o rigor o distingue desses, falta-lhe ainda a densidade que António José Seguro demonstrou — aquele raro sentido de Estado que não vem das sondagens, mas da consciência do cargo. Cotrim de Figueiredo é lúcido, mas não grave; preparado, mas não fundado. António José Seguro compreendeu a liturgia da presidência, Cotrim fala-lhe como se fosse um conselho de administração. Ambos são sérios, mas só um parece compreender o peso simbólico do poder.

O problema é que o país que o ouve já não acredita na gravidade de nada. Vive de promessas de mudança e desconfia da estabilidade como se fosse um vício. Por isso, o liberal que pede ordem à desordem acaba inevitavelmente a parecer um estrangeiro no próprio regime. A sua visão é a de quem quer dar à República a dignidade que ela não tem — e, paradoxalmente, é isso que o aproxima da tradição monárquica, sem nunca o admitir.

No fim, ficou uma impressão curiosa: a de um homem que quer restaurar o Estado, mas sem restaurar a ideia. Que fala de liberdade com sinceridade, mas esquece que a liberdade sem continuidade é apenas instinto. Que quer moralidade sem hierarquia, dever sem tradição, permanência sem tempo. Um idealista, portanto — e dos raros.

Talvez seja esse o destino dos melhores republicanos: descobrir, sem o admitir, que a verdadeira liberdade é filha da continuidade. Cotrim de Figueiredo parece querer salvar a República de si mesma — e, nesse gesto, acaba por lembrar que só há futuro quando há herança.