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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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A Entrevista de Marques Mendes: Respeito Formal, Ambiguidades e a Questão Monárquica

José Aníbal Marinho Gomes, 25.09.25

A entrevista de Luís Marques Mendes à jornalista Clara de Sousa, no âmbito das eleições presidenciais de 2026, trouxe consigo uma postura diferente daquela que já tínhamos visto noutra ocasião, nomeadamente na resposta desastrada de Gouveia e Melo sobre a questão monárquica. Ainda assim, a forma como o candidato se posicionou merece análise cuidadosa, pois, apesar do tom aparentemente respeitoso, não deixa de revelar fragilidades e ambiguidades que importa destacar.transferir.jpgQuestionado sobre se um regime presidencialista serviria melhor os interesses nacionais, Marques Mendes rejeitou tal possibilidade e aproveitou para dirigir-se directamente aos portugueses monárquicos que estivessem a assistir, garantindo que, se for eleito Presidente da República, representará todos os cidadãos — republicanos e monárquicos — com gosto na diferença e no respeito pela diversidade. À primeira vista, esta declaração soa equilibrada e conciliatória, contrastando claramente com o tom jocoso e ofensivo de Gouveia e Melo. No entanto, a análise atenta mostra que, embora mais polida, a resposta de Marques Mendes continua a encarar a questão monárquica como uma mera excentricidade, um gosto diferente que deve ser tolerado, e não como uma visão política e institucional legítima que pertence ao debate democrático português.

Ao falar de “diferença” com respeito, o candidato parece reduzir o ideal monárquico ao campo das preferências pessoais, como quem respeita a opção clubística ou o estilo de vida de cada um. Ora, a monarquia não é um gosto nem uma moda: é uma tradição histórica que moldou Portugal, um projecto político alternativo ao republicanismo, fundado na continuidade, na unidade e na neutralidade do Chefe de Estado. O simples acto de relegar esta tradição a uma nota de rodapé respeitável, mas irrelevante mostra uma falta de profundidade que se repete noutros momentos da sua entrevista, onde a experiência e a contenção discursiva não se traduziram em propostas de substância para o cargo a que se candidata.

Marques Mendes evitou o erro grosseiro de ridicularizar, mas caiu numa outra armadilha: a da ambiguidade. Prometeu representar todos, mas não demonstrou compreensão histórica ou sensibilidade cultural relativamente à monarquia. Limitou-se a enunciar um respeito genérico, que soa mais a fórmula eleitoral do que a convicção sincera. Um Chefe de Estado que se limita a respeitar formalmente, sem valorizar, arrisca-se a não passar de um diplomata de palavras, incapaz de reconhecer que a tradição monárquica é parte viva da identidade nacional e que merece lugar no espaço público com dignidade.

Além disso, a sua postura reflecte a crítica mais ampla que muitos analistas lhe fazem: Marques Mendes tem experiência e fala com prudência, mas falta-lhe visão transformadora, falta-lhe densidade programática. Ao não ir além do respeito superficial, mostra-se mais preocupado em não ferir susceptibilidades do que em afirmar com clareza qual é o seu entendimento da unidade nacional e da verdadeira representatividade. Um Presidente da República não pode contentar-se com a diplomacia das palavras; deve encarnar símbolos, assumir tradições e garantir a continuidade da Nação.

Comparado com Gouveia e Melo, que escolheu a via do desprezo, Marques Mendes foi mais hábil. Contudo, o resultado não deixa de ser insatisfatório. Para os monárquicos, ouvir que serão respeitados como uma “diferença” não basta. Não se exige que um candidato presidencial defenda a restauração monárquica — seria incoerente esperar isso dentro da república — mas espera-se, no mínimo, um reconhecimento claro de que esta tradição faz parte do tecido político e histórico português e que não pode ser reduzida a um detalhe menor.

A entrevista, no fundo, mostrou um candidato cuidadoso com as palavras, mas pouco ousado, mais preocupado em não errar do que em afirmar convicções robustas. Essa ambiguidade pode agradar ao eleitorado republicano moderado, mas deixa os monárquicos, e muitos outros portugueses atentos à substância, com a sensação de vazio.

Tal como disse relativamente a Gouveia e Melo, um Presidente deve representar todos os portugueses. Mas representar não significa apenas respeitar diferenças; significa dar voz, compreender, valorizar e unir de facto. Um Rei constitucional, pela sua posição neutra e hereditária, cumpre naturalmente essa função de unidade sem precisar de fórmulas ambíguas ou de discursos de conveniência. Ao contrário, um Presidente eleito pela república tem de provar constantemente que pode elevar-se acima das disputas partidárias e das clivagens ideológicas. No caso de Marques Mendes, as suas palavras foram mais educadas do que as de Gouveia e Melo, mas continuam a não convencer aqueles que exigem mais do que boas maneiras: exigem visão, respeito efectivo e a consciência de que a tradição monárquica é, e sempre será, parte da alma nacional.

É por isso que, como monárquico, não posso deixar de sublinhar: há monárquicos que votam nas eleições presidenciais e que devem ouvir com muita atenção o que os candidatos dizem acerca da monarquia, pois essas palavras revelam a forma como encaram a história e a identidade do nosso país. Outros, como é o meu caso, não votam, por não reconhecerem legitimidade ao sistema republicano. Mas, quer participem ou não nesse acto eleitoral, todos os monárquicos merecem respeito verdadeiro — e não apenas fórmulas vagas de cortesia.

 

Casa da Baldrufa: património à espera de cair?

José Aníbal Marinho Gomes, 21.09.25

 

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A Casa da Baldrufa, à entrada da vila de Ponte de Lima, encontra-se hoje votada ao abandono. Um imóvel senhorial com um importante valor histórico e identitário vai-se desfazendo perante os olhos de todos: paredes que cedem, janelas abertas ao vento e à chuva, vegetação a cobrir fachadas outrora nobres e um telhado em risco iminente de ruína.

Não será legítimo perguntar: estará alguém à espera que o telhado colapse por completo, para então justificar a sua demolição e substituí-la por mais um prédio vulgar de habitação? Se tal suceder, não estaremos apenas perante uma operação imobiliária, mas perante a destruição deliberada de um pedaço da memória limiana.

O percurso deste imóvel mostra como se foi adiando, década após década, a sua valorização. Em 18 de Novembro de 1994, foi aberto o processo de classificação da Casa e Quinta da Baldrufa, reconhecendo-se a sua relevância patrimonial. Em 2001, após a morte do seu proprietário, a casa encontrava-se à venda e chegou a existir um projecto para a converter em estalagem, solução que poderia ter garantido um futuro digno ao edifício. Contudo, nada avançou.

Entretanto, em 26 de Setembro de 2012, foi publicado em Diário da República o Anúncio n.º 13474/2012, determinando o arquivamento do processo de classificação, sob o argumento de que o imóvel não teria valor de âmbito nacional. Mas nesse mesmo anúncio ficou escrito, de forma clara, que seria mais adequada a sua classificação como de interesse municipal.

E é aqui que a pergunta se impõe: por que razão a Câmara Municipal de Ponte de Lima não seguiu a recomendação constante desse anúncio oficial? Como é possível que, passados mais de dez anos, nada tenha sido feito para proteger este imóvel?

Entretanto, a Casa da Baldrufa foi novamente vendida (não sendo possível precisar o ano) e encontra-se actualmente na posse de um novo proprietário, com conhecidos interesses imobiliários. Desde então, não se vislumbra qualquer plano de reabilitação ou salvaguarda, apenas o lento definhar de uma casa que pertence à identidade colectiva limiana.

Importa ainda referir que no espaço exterior da Casa da Baldrufa se encontra um cruzeiro quinhentista, oriundo da freguesia de Brandara. Embora não pertença originalmente à casa, a sua permanência no local deve ser garantida, quer pelo valor histórico que encerra, quer para que não se repita o que já aconteceu com o fontenário barroco de espaldar alto, que se encontrava no jardim atrás da casa, proveniente da Casa da Cachadinha, em Rebordões Souto, e que desapareceu, desconhecendo-se o seu paradeiro. Ao contrário destes elementos deslocados, destaca-se ainda a existência de um portal do séc. XVII, esse sim originário da casa.

Assim, a preservação destes elementos é essencial para salvaguardar a integridade e autenticidade do conjunto patrimonial.

A Casa da Baldrufa pertenceu, por aquisição, ao Dr. António Vasconcelos Porto, que fez de Ponte de Lima a “terra do seu sonho”, razão pela qual decidiu adquirir esta casa, onde viria a residir. Como escritor, usou o pseudónimo de António Porto-Além. Conceituado poeta, a sua obra poética, de grande perfeição formal e beleza metafórica, é constituída por vinte e oito livros, publicados entre 1932 e 1995. Faleceu nesta casa a 4 de Abril de 2000. Era também um reconhecido colecionador de arte barroca — mobiliário, louças e outras peças — e chegou a idealizar a criação de uma fundação, cuja curadoria, após a sua morte, ficaria a cargo da Câmara Municipal de Ponte de Lima. Contudo, tal como o próprio imóvel, também este espólio se perdeu, por não ter a autarquia nos 90, demonstrado qualquer interesse ou iniciativa que garantisse a sua preservação e valorização. Esperemos, pois, que agora não se repita um erro semelhante e que este património não desapareça, deixando mais uma vez a memória colectiva à mercê da negligência.

Se o Estado concluiu que a Casa da Baldrufa não tinha interesse nacional, caberia ao Município assumir a sua responsabilidade e classificá-la como Imóvel de Interesse Municipal. Não o fazer equivale a deixar morrer a memória de uma terra que se orgulha de ser uma das mais antigas de Portugal, mas que permite que o seu património desapareça perante a indiferença geral.

Estamos em plena campanha autárquica. É tempo de exigir compromissos sérios, que passem das palavras aos actos. A Casa da Baldrufa deve ser preservada, reabilitada e integrada no futuro cultural e turístico de Ponte de Lima.

Permitir que esta casa se desfaça é aceitar que a identidade limiana se apague, pedra a pedra. A decisão é simples e inadiável: ou se age agora, com coragem e sentido de dever, ou seremos cúmplices da morte lenta de mais um pedaço da nossa história colectiva.

 

 

“A Arte de Virar… e Mostrar o Outro Lado”

José Aníbal Marinho Gomes, 09.09.25

Desde os tempos mais remotos, a humanidade conhece uma espécie curiosa: o vira-casaca. Uns chamam-lhe oportunista, outros pragmático, mas no fundo todos sabem que é aquele sujeito que, ao sentir o vento mudar de lado, troca de bandeira mais depressa do que troca de camisa.

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Entre o povo, porém, a linguagem sempre foi mais directa, menos dada a dourar a pílula. Assim nasceu a expressão “vira-cu”, que não carece de explicação académica: significa aquele que se dobra e se torce conforme o vento sopra, mostrando sempre o lado que mais lhe convém. É a sabedoria popular a baptizar com a clareza que falta aos doutores.

Na História abundam exemplos. Na Idade Média, cavaleiros juravam lealdade a um soberano, mas bastava prometerem-lhes mais terras que logo mudavam de estandarte. No Brasil colonial, aqueles que mudavam de lado durante os conflitos eram aplaudidos pelos vencedores como ‘heróes’, mas o povo sabia bem a verdade: eram, no mais puro linguajar popular, vira-cus.

Na Revolução Francesa houve quem gritasse “Viva o Rei!” numa semana e “Abaixo o Rei!” na outra. Eram verdadeiros atletas do vira-cu, sempre a aterrar do lado que oferecia mais pão e menos guilhotina. Ao menos, nesse tempo, as traições tinham o peso do sangue e da espada.

Hoje, porém, a raça degenerou: os vira-casacas já não mudam de lado por dinastias ou pela salvação da pátria, mas por um lugarzito para o filho, um contrato para o cunhado, ou uma cadeira na autarquia para a mulher. Trocam de partido como quem troca de gravata, vendem-se em suaves prestações, e chamam a isso “itinerário correcto”. Em várias localidades do país, a política reduziu-se a esta feira de tachos: a olimpíada moderna do vira-cu.

No fundo, se outrora até os traidores eram grandes personagens da História, hoje os vira-casacas são apenas figurantes de má categoria. Mudam de lado, mas nunca mudam de essência. E a essência é sempre a mesma: a arte de virar… bem, fica dito.

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Quem muda de estandarte a meio da viagem nunca teve rumo… teve apenas pressa em saltar para o lado que mais lhe convinha.