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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

Três livros para ler sem clemência

Alexandra Marques, 29.11.08

Na semana em que faleceram dois grandes editores - Joaquim Figueiredo de Magalhães (Ulisseia) e Rogério Mendes de Moura (Livros Horizonte) - uma simples homenagem aos que tornam a nossa vida menos real. Há os livros que nos acompanham, os que guardamos na estante, na memória e no coração, os que só recordamos pelo momento feliz ou tenebroso que estávamos a passar, os que nos deixaram o travo amargo da difícil digestão. 

 

Porque o Natal está à porta e são milhentos os livros possíveis, deixem-me partilhar o prazer de ter redescoberto Salman Rushdie em "Fúria", de (pela primeira vez!) me apaixonar por Mia Couto e as suas fabulosas personagens de "Venenos de Deus, Remédios do Diabo", deixando para aquela semana em que se come e dorme até mais não e o sofá nos chama sem clemência para uma leitura aconchegada, o recém-editado "O Jogo do Anjo" de Carlos Ruiz Záfon, o catalão responsável com "A sombra do Vento" pela retoma de um jogo antigo: de pôr a circular um livro que se amou entregando-o às pessoas que nos importam.

PS de esquerda

João Eduardo Severino, 29.11.08

O porta-voz do Partido Socialista insurgiu-se hoje contra Manuel Alegre e o Bloco de Esquerda, devido à realização do "Encontro das Esquerdas" não englobar o PS. Vitalino Canas entende que o seu partido pertence à esquerda. Será que Canas não leu recentemente o que disse Sá Fernandes, quando sublinhou "Este PS está a fazer um grande trabalho em Lisboa"? Canas tem de nos dizer qual é o PS de esquerda. O da Câmara Municipal ou o do Governo?...

O circo na nossa terra IV

João Eduardo Severino, 29.11.08

O Lisbon International Club voltou a organizar os almoços com embaixadores. No último repasto o convidado de honra foi o embaixador dos Estados Unidos da América. Na sua mesa, a organização sentou à sua direita Pedro Santana Lopes e à esquerda António Carmona Rodrigues. Consta que o diálogo entre os três foi muito frutuoso e amistoso...

Mais ou menos assim:

Embaixador - Hello, Peter! A long time ago... há muita tempo não ver você... everything find? Tudo bem?...

PSL - Vou bem, sim! O senhor embaixador hoje vai falar de Obama?

Embaixador - Sabe, eu não falar de presidentas... eu ter medo de presidentas...não acha eu estar certo, mister Carmona?

ACR - Sim, sim! Os presidentes sempre foram pessoas polémicas, não é?

Embaixador - Ah, Ah... você Carmona ter muito graça... não acha Peter?

PSL - Desse senhor aí, não acho nada!

Embaixador - Mas vocês serem big, big amigos, no?...

ACR - O senhor embaixador gosta de terroristas?

Embaixador - No, no, no...

PSL - O senhor embaixador gosta de motoqueiros?...

Embaixador - Moto, what?

PSL - Aqueles tipos que andam sempre a enfiar o barrete...

 

A imagem da banca

João Eduardo Severino, 29.11.08

O 'Expresso' de hoje diz que o «Governo salva BPP para defender imagem de Portugal». Não se compreende muito bem esta máxima, com a agravante de se anunciar que o presidente do banco, João Rendeiro, vai dar lugar a outro e tudo fica bem... É pena que o governo não salve Portugal para defender a imagem do País e a imagem dos portugueses, porque assim também salvava a imagem da banca...

O Baú Contador de Histórias - um folhetim fatídico para crianças precoces e adultos infantis (1)

Tiago Salazar, 29.11.08

«Encontrar fatalidade é encontrar boa sorte/ encontrar harmonia é encontrar oposição», «Ao lusco-fusco o galo anuncia a aurora/ à meia noite, o claro sol» do Zenrin Kushu (Antologia de Poemas e Prosas Budistas)

 

«País pobrete e nada alegrete, baú fechado com aloquete», Alexandre O’Neill

 

«Um intelectual escreveu, ao nascer seu filho: as famílias, quando nasce um filho, desejam que ele seja inteligente. Eu, através da erudição, tendo arruinado a minha vida toda, desejo apenas que a criança se revele ignorante e estúpida. Então ela coroará a sua vida tranquila, tornando-se um Ministro de Estado». Confúcio

 

1. Aqui se contam as aventuras e desventuras de um anónimo baú de madeira (assim para o desbocado e com a mania das importâncias) e de Noé Silveira, um rapaz de ambições estadistas e zurrador de primeira linha (sem que uma coisa tenha forçosamente a ver com a outra).

 

Era um baú contador de histórias. Histórias de todos os tamanhos e de todos os feitios. Com lindas princesas lipoaspiradas de tranças loiras e longas, fruto de belas extensões, e esplêndidos bustos góticos de silicone; cavaleiros andantes e apeados, que a vida não estava para futebóis; fadas versadas no aconselhamento epistolar sentimental; tinhosos, sacripantas e políticos (e perdoem aqui a redundância); magos em licença de aposentadoria num planeta distante, e sem regime capitalista; fantasmas e almas penadas; bruxas sarapintadas, de saltos- agulha linha Charles & Chanel; empresárias de perfumaria e danadinhas para a brincadeira; profetas embusteiros e embusteiros profetas, o que não é bem a mesma coisa; filósofos que não pensavam em nada, e mesmo assim eram felizes da vida; clairvoyantes de nomeada, entre estes o Macário Macabro, vendedor de vassouras voadoras (de alta cilindrada); liberais e conservadores, sobretudo os da indústria atuneira; um pastor amoroso enamorado de um vitelo; o próprio Bambi, já em idade provecta e queixoso dos abusos do marquetingue; o Lobo Mau, por causa das cáries, da artrite, da ciática e da adesão ao PSP (Partido dos Sem Partido), deixado a sopitas de leite; além do Bwana Fridrico, ilustre pároco, povoador e provedor de nome pouco plausível conhecido nos quatro cantos do mundo (e alguns recantos desconhecidos) pelos seus métodos de conversão e uma bela carapinha loira, em faia. Isto tudo para dizer que, apesar das aparências, nenhuma das histórias (tirando uma só, para desenjoar) decorrerá num manicómio. Nem tão-pouco em Portugal, país onde nada acontece, ou melhor, onde tudo pode acontecer, mas só quando menos se espera.

 

(continua)

A Sagrada Sevilha

Tiago Salazar, 28.11.08

(notas do andarilho por terras de Espanha... mas não ao serviço de Sua Majestade)


Quando uma cidade está apadrinhada por séculos de tradição e as ruas, alamedas, praças e bairros parecem repetir-se em sequências infindáveis como um cenário de filme de época, a chegada do progresso é um assunto de Estado. Por exemplo, no sopé da Giralda comenta-se com palavreado chocarreiro aquele hotel ali defronte, o EME, acabado de tomar posse da majestosa praça. “Acojonante”*, dizem uns. “Un horror”, “una blasfémia”, una «EMErdia», vociferam outros. O consenso não se estabelece, nem aqui, nem na China. Faz parte da natureza humana, acalorar-se com a mudança, zombar da ousadia, maldizer a inventiva. “O talento, seja lá do que for, é trocar-nos as voltas, desvendar-nos o inesperado, chocar, provocar o debate”, diz a jornalista Mangano, personagem fílmica que nos cruza a viagem nas texturas do acaso e se revelará preciosa cicerone. Estamos na Bodeguita Antonio Romero, a mitigar a sede da canícula insuportável de Agosto com cañas Cruzcampo (pedem-se ao taberneiro «una Cruz»; e assinam-se de cruz) e a intelectualizar o que pertence somente e apenas ao sentimento: o gozo das viagens. Sevilha antiga, a glória andaluza dos anais no Património da Humanidade, estará perdida para o hip, o trendy, a nouvelle vague? Eis a questão de peso entre rodadas e pires de anchoas, ovos revueltos e langostinos de Sanlúcar. Mangano duvida, e faz a sua regada tese. “Aquele mono moderno que todos injuriam na Plaza da Catedral, mais a tomada dos Alcáceres Reais por bares de tapas futuristas são notas baixas numa grande sinfonia clássica”. Conclui-se depressa que a Sevilha das cármencitas lúbricas e dos aspirantes a Don Juan, dos toreros janotas e patéticos marialvas, dos paseos depois da siesta sagrada, da Feria de Abril e da Semana Santa, da fiesta e do trote em carroças puxadas por orgulhosas duplas de garanhões (cocheiro e cavalo), das roupas de jerezano, da alegría, do fervor religioso pascal (e do mais aceso paganismo em todo o resto do ano), não tem morte anunciada. “Há apenas mais pretextos para vir agora que se instalou de vez a modernidade”, assegura Mangano num tom salmodiado. Após o esclarecimento pergunta: “Que vás a beber chico?”. “Mescal, naturalmente” (pensei). Mas acabei por pedir a segunda caña negra e uns pirezinhos de camarones polvilhados de sal a conselho da señora escriba.

Sugestões de presentes - o melhor par de livros do Mundo

José Mendonça da Cruz, 28.11.08

Este Natal, seja maximalista, ofereça dois livros enormes, em tamanho («tijolos», ambos) e em grandeza. Devem ser oferecidos ou lidos em par. A Vida e o Destino, de Vassily Grossman, (aqui, à esquerda) faz-nos viver na Rússia estalinista - a vida, a política, a guerra, o cerco de Estalinegrado - dentro de várias famílias cujas vidas se entrecruzam. As Benevolentes, de Christopher Littell, (em baixo, à direita) envolve-nos na Alemanha nazi - a vida, a política, a guerra, o cerco de Estalinegrado do outro lado da trincheira - com um oficial das SS, ocupado na tarefa burocrática de exterminar judeus e untermenschen, e suas relações, amigas, casos, camaradas, superiores como Himmler, Heydrich, Speer, Hitler.

Os dois livros são escritos de forma admirável, com uma pintura de cenários e situações, um retrato de personagens absolutamente ímpares. Ambos lidam com a condição humana em situações extremas. Interpelam-nos e perturbam, ambos, porque a cada opção de carreira, cada pensamento, cada gesto, cada triunfo, cada drama, nós estamos lá e pensamos: «Que faria eu?» Ambos os livros têm um efeito secundário: todos os outros parecem menores durante as semanas a seguir.

Para Grossman e Littell, para quem nos convida assim ao desassossego e à inteligência, nunca haverá prémio bastante. Obviamente, nenhum ganhou o Nobel.

Da boa educação

João Távora, 28.11.08

Não sou nenhuma flor de estufa, tenho os dois pés no mundo e no entanto faz-me alguma confusão a crescente banalização duma  linguagem feia e rasteira que prolifera  em cançonetas, filmes e programas de televisão, direccionados a uma determinada faixa etária ou “segmento de mercado”. Basta ver um filme de acção americano para classe média, um qualquer reality show, bonecos animados para adolescentes, ou escutar as palavras dum irrelevante recitador de RAP, para sermos confrontados com a mais hostil gíria e descontextualizado insulto a tudo o que mexe.  Um dia destes vi na MTV, num reality show na moda entre os adolescentes, uma rechonchuda cachopa americana vilipendiando ao vivo a sua namorada traída; numa verborreia onde o epíteto “cabra” era o mais carinhoso dos adjectivos. Eram seis da tarde.
O problema é que as palavras e os símbolos nunca são só palavras ou símbolos; possuem significados precisos e refletem sentimentos concretos dos quais jamais se descolam. No entretanto, a mesma adolescentocracia que tolera e trivializa estas aberrações “culturais”, vem a jusante chorar lágrimas de crocodilo e indignar-se com a violência doméstica, discriminação e outras enfermidades sociais que afinal alguma educação e valores teriam por certo atenuado.

Em meados do século XIX o jovem rei D. Pedro V idealizou a democratização da instrução, acessível e obrigatória a toda a população portuguesa. No dealbar do Século XXI o desafio é descobrirmos o que fazer para uma eficaz propagação dos bons valores e da boa educação.