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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

28
Fev09

Nisto, soltou-se a âncora, fuzilando na subida um pelotão de alforrecas e quase atirando borda fora o embarcadiço. Foi aí que o baú ganhou presunção e largou como yacht, entrando pelo clarão adentro. Noé fechou os olhos e só os abriu depois de aterrar de chapão no interior de uma gruta de estalactites. Na primeira visão, deu com um abutre, trajado de carteiro e empoleirado numa rocha a bicar nervosamente as unhas. Seguiu-se, a rasar-lhe a cabeça, um voo picado de uma bruxa, em potente vassoura, e dando gritos estridentes.

 

- ”Dardo, eu quero um dardo para matar este abutre estúpido e incompetente. Irra, que criatura mais inútil!... Nem para levar o correio serve! Que raios e coriscos te transformem numa barata. Puff!!!” A bruxa sarapintada barafustava e praguejava, com vocabulário de bruxa, cirandando entre o caldeirão borbulhante e a mesinha de provetas. Tinha cara de matrioska pálida, de sardas castanhas e cinzentas até à base das bochechas, nariz comprido, mas sem verruga, e olhos cor de esmeralda. Longas farripas ruivas pendiam-lhe na testa, enquanto o resto da cabeleira estava escondida num manto de capuz preto. Esbracejava, com ares de espantalho foragido, e acabou por voltar às provetas. Via-se que era uma bruxa moderna. O abutre rastejou tropegamente o seu novo corpo de barata e emitiu um ruído suplicado, como se quisesse de volta a identidade. A bruxa enterneceu-se. Mas deixou-o penar, depenado. E pensou: a cada crime o seu castigo. Raimundo, o gato preto e obeso, deitado meticulosamente entre as provetas, aprovou com um longo miado. A bruxa tirou uma proveta e despejou-lhe um líquido viscoso, arroxeado. Encheu-a até meio, chegou-se ao fogão e pô-la num tripé a lume brando. Desfolhou um calhamaço coberto de pó, parando na página 1234, onde se lia: «Receita para todas as coisas possíveis e imaginárias». Riu de forma estridente e voltou a pegar na proveta, já fervida, não sem antes remexer uma gaveta atafulhada e daí subtrair uma metade de rabo-de-gato siamês. Depois, nesta ordem, ergueu a proveta, agitou-a, ajoelhou-se, levantou-se, correu ao pé-coxinho à volta da mesa, parou junto à janela, tapou o olho esquerdo, trincou a metade de rabo-de-gato siamês e engoliu a mistela da proveta de um só trago, como se bebesse um copo de três. Caiu desmaiada e assim ficou, uma noite e um dia, com o abutre-barata de vela. Quando acordou, sentiu uma náusea de alto a baixo, a cabeça pesada como uma bigorna. Resmungou dois palavrões imperceptíveis e foi à cozinha, a cambalear. Abriu o frigorífico e desarrolhou uma garrafa de medronho (medonho), que emborcou na totalidade. Sentiu-se como nova, pronta para a noite. Entrou então no quarto, trocou de manto e de socas, ajeitou a guedelha a pente de pau, pintou os olhos de preto, disfarçou as sardas com pó de arroz, selou a vassoura recém-comprada a prestações suaves no stand do Macário Macabro, desfez o feitiço do abutre, soprou os pavios, abriu a janela de par em par e saiu disparada, em cavalinho rompante. Os homens que se preparassem.

 

 

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