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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

28
Nov08

(notas do andarilho por terras de Espanha... mas não ao serviço de Sua Majestade)


Quando uma cidade está apadrinhada por séculos de tradição e as ruas, alamedas, praças e bairros parecem repetir-se em sequências infindáveis como um cenário de filme de época, a chegada do progresso é um assunto de Estado. Por exemplo, no sopé da Giralda comenta-se com palavreado chocarreiro aquele hotel ali defronte, o EME, acabado de tomar posse da majestosa praça. “Acojonante”*, dizem uns. “Un horror”, “una blasfémia”, una «EMErdia», vociferam outros. O consenso não se estabelece, nem aqui, nem na China. Faz parte da natureza humana, acalorar-se com a mudança, zombar da ousadia, maldizer a inventiva. “O talento, seja lá do que for, é trocar-nos as voltas, desvendar-nos o inesperado, chocar, provocar o debate”, diz a jornalista Mangano, personagem fílmica que nos cruza a viagem nas texturas do acaso e se revelará preciosa cicerone. Estamos na Bodeguita Antonio Romero, a mitigar a sede da canícula insuportável de Agosto com cañas Cruzcampo (pedem-se ao taberneiro «una Cruz»; e assinam-se de cruz) e a intelectualizar o que pertence somente e apenas ao sentimento: o gozo das viagens. Sevilha antiga, a glória andaluza dos anais no Património da Humanidade, estará perdida para o hip, o trendy, a nouvelle vague? Eis a questão de peso entre rodadas e pires de anchoas, ovos revueltos e langostinos de Sanlúcar. Mangano duvida, e faz a sua regada tese. “Aquele mono moderno que todos injuriam na Plaza da Catedral, mais a tomada dos Alcáceres Reais por bares de tapas futuristas são notas baixas numa grande sinfonia clássica”. Conclui-se depressa que a Sevilha das cármencitas lúbricas e dos aspirantes a Don Juan, dos toreros janotas e patéticos marialvas, dos paseos depois da siesta sagrada, da Feria de Abril e da Semana Santa, da fiesta e do trote em carroças puxadas por orgulhosas duplas de garanhões (cocheiro e cavalo), das roupas de jerezano, da alegría, do fervor religioso pascal (e do mais aceso paganismo em todo o resto do ano), não tem morte anunciada. “Há apenas mais pretextos para vir agora que se instalou de vez a modernidade”, assegura Mangano num tom salmodiado. Após o esclarecimento pergunta: “Que vás a beber chico?”. “Mescal, naturalmente” (pensei). Mas acabei por pedir a segunda caña negra e uns pirezinhos de camarones polvilhados de sal a conselho da señora escriba.

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