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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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SOPHIA: ENTRE O SOL E O ABATE DA TERRA

José Aníbal Marinho Gomes, 15.12.25

SOPHIA: ENTRE O SOL E O ABATE DA TERRA

Energia limpa ou cegueira territorial?

Painel solar sobre paisagem desmatada.png

O mega-projecto fotovoltaico Sophia, previsto para os concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, é apresentado pelos seus promotores como um símbolo de progresso e de transição energética. O nome escolhido — Sophia, palavra grega que significa sabedoria — parece prometer equilíbrio, ponderação e visão de futuro. No entanto, à medida que o projecto foi sendo conhecido em maior detalhe, essa promessa simbólica entrou em choque com a realidade concreta do território onde se pretende implantar.

Segundo informação divulgada pelo Público, pelo Jornal de Negócios, pela Euronews e por outros órgãos de comunicação social, o projecto prevê uma potência instalada superior a 800 MWp e um investimento na ordem dos 590 milhões de euros. Porém, os mesmos meios noticiaram também a dimensão dos impactos ambientais associados à sua implantação. De acordo com o Estudo de Impacte Ambiental colocado em consulta pública, a construção da central implicará a afectação directa de cerca de 1120 azinheiras e 421 sobreiros, árvores protegidas por lei e elementos estruturantes do ecossistema do montado. Ainda segundo esse estudo, mais de 1100 hectares de habitats naturais serão profundamente transformados, com decapagem de solos, fragmentação ecológica e perda de biodiversidade numa região já marcada por fragilidades ambientais e demográficas.

Granja solar e fauna ameaçada.png

Estes dados estiveram na origem de uma participação pública sem precedentes. O Jornal de Negócios referiu que a consulta pública do projecto Sophia bateu recordes de contributos, com milhares de participações críticas. A Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa emitiu parecer desfavorável, vários municípios manifestaram reservas sérias, e associações ambientais como a ZERO, a SPEA e outras denunciaram lacunas no estudo ambiental e a desproporção entre os benefícios anunciados e os danos irreversíveis no território.

Não se trata, como tantas vezes se tenta caricaturar, de uma oposição à energia solar. Trata-se de uma crítica à escala, à localização e ao modelo de ocupação do território. A Beira Baixa arrisca transformar-se num espaço de extracção energética intensiva, onde decisões tomadas à distância se impõem sobre comunidades locais, paisagens históricas e sistemas ecológicos construídos ao longo de séculos.

Para além da destruição directa do coberto vegetal e da artificialização extensiva do solo, o projecto constitui uma ameaça séria à fauna selvagem que subsiste neste território. A ocupação contínua do espaço por painéis solares, vedações e vias técnicas compromete corredores ecológicos essenciais e agrava o risco de mortalidade da avifauna.

Espécies protegidas e particularmente sensíveis, como a águia-imperial-ibérica, a cegonha-preta, o abutre-preto, o sisão e o cortiçol-de-barriga-branca, dependem de vastas áreas tranquilas para alimentação, reprodução e deslocação. A perturbação permanente e a perda de habitat colocam em risco a sobrevivência local destas espécies, com consequências irreversíveis para o património natural nacional.

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Foi neste contexto de forte contestação pública e de crescente atenção mediática que surgiu um outro dado, amplamente noticiado por órgãos de comunicação social independentes, entre os quais o oRegiões e o Lobo Media. Segundo essas informações públicas, João Pedro Pinto Salazar Marques Mendes, filho de Luís Marques Mendes, surge como accionista da empresa Lightsource Renewable Energy Portugal (HoldCo), Lda., sociedade que detém a Coloursflow – Unipessoal, Lda., entidade directamente ligada à promoção do projecto fotovoltaico Sophia. A gestão executiva da empresa está atribuída a outros responsáveis, facto igualmente referido nas mesmas fontes.

É também neste enquadramento que ganha relevo uma coincidência de natureza simbólica: Sofia é o nome da mulher de Luís Marques Mendes, hoje candidato à Presidência da República. A coincidência, por si só, não tem qualquer significado político directo nem constitui qualquer prova de envolvimento pessoal. Ainda assim, num projecto que se tornou um dos mais polémicos investimentos energéticos alguma vez propostos em Portugal, essa sobreposição nominal tornou-se inevitavelmente objecto de comentário público.

É fundamental sublinhar — e fazê-lo com clareza — que não existe qualquer acusação pública de ilegalidade, favorecimento ou interferência política neste processo. A menção destas ligações é estritamente factual e assenta em dados societários e jornalísticos tornados públicos. Ainda assim, em democracia, a transparência não é um ataque: é uma exigência. Quando um projecto de enorme impacto ambiental e territorial envolve interesses empresariais ligados, ainda que indirectamente, à esfera familiar de um candidato presidencial, é legítimo que se coloque a questão do escrutínio público e que se espere uma clarificação serena por parte do próprio.

Talvez por isso a ausência de uma posição pública clara de Luís Marques Mendes sobre o projecto Sophia tenha sido notada. Não para imputar responsabilidades que não estão demonstradas, mas para compreender que visão tem um candidato à Presidência da República sobre o ordenamento do território, a protecção ambiental e os limites éticos entre o poder político e os grandes investimentos privados.

É neste ponto que a figura de Gonçalo Ribeiro Telles se torna incontornável. Arquitecto paisagista, pensador do território e defensor incansável do mundo rural, Ribeiro Telles sempre alertou para os perigos de um desenvolvimento cego, guiado apenas por indicadores económicos ou tecnológicos. Para ele, o território não era um vazio disponível para ocupação intensiva, mas um organismo vivo, onde natureza, agricultura, paisagem e comunidades humanas formam um todo inseparável.

Se estivesse vivo, dificilmente Ribeiro Telles aceitaria um projecto que implicasse o abate de centenas de sobreiros e azinheiras em nome de uma ideia abstracta de sustentabilidade. Provavelmente lembraria que a verdadeira transição ecológica não se faz substituindo ecossistemas vivos por infra-estruturas industriais, ainda que “verdes”. Defenderia soluções descentralizadas, a integração da produção energética em áreas já artificializadas e um planeamento que respeitasse a identidade da paisagem e das populações locais.

O caso do Sophia expõe, assim, uma contradição profunda do nosso tempo: invocamos a urgência climática para justificar projectos que, na prática, fragilizam o território e ignoram princípios elementares de prudência ecológica. Chamaram-lhe sabedoria, mas talvez tenha faltado precisamente isso — a sabedoria de ouvir, de respeitar e de reconhecer que nem todo o sol justifica a sombra que se lança sobre a terra.

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Reformas Laborais em Portugal e o Contraste com as Monarquias Sociais Europeias

José Aníbal Marinho Gomes, 25.11.25

 

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A recente reforma laboral em Portugal reacendeu um debate persistente sobre a capacidade do Estado em garantir condições de trabalho estáveis, previsíveis e socialmente equilibradas. A flexibilização introduzida em sucessivas alterações ao Código do Trabalho tem sido interpretada como um favorecimento da adaptabilidade económica em detrimento da segurança individual, num contexto em que a precariedade persiste como fenómeno estrutural.

O contraste com várias monarquias constitucionais europeias é frequentemente utilizado como referência comparativa. Países como a Dinamarca, a Noruega, a Suécia, o Luxemburgo e os Países Baixos apresentam sistemas laborais robustos, forte protecção social e elevados padrões de bem-estar. A estes exemplos somam-se a Bélgica e o Reino Unido, com tradições consolidadas de estabilidade institucional e negociação social, ainda que com modelos económicos distintos.

Importa reconhecer, no entanto, que estes Estados possuem especificidades históricas, culturais e económicas que não podem ser automaticamente transpostas para Portugal. Apesar disso, evidencia-se um elemento comum significativo: a existência de democracias sociais desenvolvidas, sustentadas por instituições estáveis e por mecanismos laborais amplamente favoráveis aos trabalhadores, um resultado que se observa com particular consistência nas monarquias constitucionais.

Um traço diferenciador das monarquias europeias reside no papel das suas chefias de Estado. Enquanto estruturas permanentes e não sujeitas a ciclos eleitorais, contribuem para a continuidade institucional e para uma menor volatilidade política, favorecendo o desenho e a execução de políticas públicas de longo prazo, nomeadamente no domínio laboral. Esta estabilidade cria um ambiente propício à concertação social e à manutenção de direitos laborais amplamente consensualizados, beneficiando trabalhadores, empregadores e a sociedade em geral.

Outro factor relevante é a força da negociação colectiva e dos sindicatos nesses contextos. Nos países nórdicos, grande parte das normas laborais decorre de acordos entre parceiros sociais e não exclusivamente da lei, assegurando previsibilidade para trabalhadores e empresas. A Bélgica segue uma lógica semelhante, com uma concertação social profundamente institucionalizada. Em Portugal, pelo contrário, o declínio da negociação colectiva e a fragilidade sindical têm contribuído para um mercado de trabalho mais desequilibrado e vulnerável a decisões unilaterais.

A coerência entre políticas públicas e investimento social nestas monarquias reforça igualmente os resultados positivos no mercado laboral. O uso estratégico de recursos, como no caso do fundo soberano norueguês, ou a organização territorial e social dos Países Baixos facilitam a conciliação entre vida profissional e pessoal, reduzindo os efeitos negativos da flexibilidade laboral. Em Portugal, os jovens continuam a enfrentar contratos curtos, salários pouco competitivos e dificuldades no acesso à habitação, limitações que comprometem o planeamento de vida e perpetuam a incerteza.

Assim, a questão central ultrapassa o debate imediato sobre reformas laborais. O que está em causa é a necessidade de repensar o modelo de organização social, em que o trabalho não seja apenas um factor económico, mas também um pilar de dignidade, segurança e coesão.

As monarquias constitucionais europeias demonstram que competitividade e protecção social podem coexistir. A experiência destes países evidencia que uma chefia de Estado permanente e instituições estáveis favorecem a continuidade política e a implementação de políticas laborais de longo prazo, contribuindo para sociedades mais equilibradas e resilientes. Portugal, enquanto república, enfrenta desafios acrescidos devido a ciclos políticos mais curtos e maior exposição a alterações legislativas frequentes.

Portugal encontra-se, portanto, num momento decisivo. O futuro das relações laborais depende da capacidade de construir consensos duradouros, promover o diálogo social e reforçar políticas que cuidem da vida dos trabalhadores para além da conjuntura económica. Só assim será possível assegurar um modelo laboral que permita não apenas trabalhar, mas viver com dignidade, inspirando-se em práticas testadas nos países monárquicos europeus.

 

 

República do Circo: Quando o Presidente Promete Vinhos, Ferraris… e Amor

José Aníbal Marinho Gomes, 17.11.25

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Na mais recente entrevista à SIC Notícias, Manuel João Vieira, músico, artista performativo e fundador dos irreverentes Ena Pá 2000 (responsáveis por algumas das mais provocadoras sátiras culturais do país), mostrou que a política portuguesa consegue sempre ultrapassar os limites da imaginação.

Munido de mais de 7.500 assinaturas e de um programa que faria corar qualquer guionista de comédia absurda, o pré-candidato promete vinho canalizado em todas as casas, um Ferrari para cada português, patinadoras russas para uns e dançarinos cubanos para outras. Tudo em nome do afecto — porque, segundo ele, aquilo que verdadeiramente oferece é amor. E para coroar a epopeia, declara: “Só desisto se for eleito.” Eis o mais recente milagre da República Portuguesa: transformar uma candidatura presidencial no maior espectáculo político do ano.

Este caso tão hilariante quanto preocupante revela uma verdade desconcertante. Nas repúblicas onde o Chefe de Estado é eleito por sufrágio directo, a chefia do Estado pode ser disputada por qualquer cidadão que reúna as assinaturas necessárias e uma boa dose de disposição para o protagonismo. A democracia abre as portas — e o circo instala-se.

Manuel João Vieira, com o seu humor de contracultura, mostra que o modelo republicano pode facilmente perder a gravidade que um Chefe de Estado deveria encarnar. Não está em causa a democracia — que também se encontra plenamente nas monarquias constitucionais — mas sim um sistema que transforma a mais alta magistratura da Nação num palco de espectáculo e frivolidade.

Se o processo eleitoral acolhe com entusiasmo promessas surreais e programas que roçam o disparate, então o problema não é o candidato, mas sim o mecanismo que o legitima. O absurdo, quando se torna viável, deixa de ser brincadeira e transforma-se em sintoma.

É precisamente neste contraste que a monarquia aparece como uma alternativa que, longe de ser arcaica, se revela de surpreendente sobriedade. Num sistema monárquico constitucional, o Chefe de Estado não precisa de recorrer a promessas extravagantes para conquistar popularidade, nem depende da espuma das redes sociais ou da viralidade momentânea. A sua função assenta na continuidade histórica, na neutralidade perante os partidos e na representação da unidade nacional. Enquanto um Presidente da República é empurrado para campanhas onde o espectáculo se sobrepõe à substância, um monarca cumpre a sua missão sem ter de transformar a dignidade do Estado num número de entretenimento.

A monarquia não precisaria de Ferraris para ganhar afeição pública, nem de canalizar vinho para mostrar proximidade ao povo. Existe para ser referência institucional, e não fenómeno de feira política. É um cargo que não depende da ilusão: depende da estabilidade. Uma estabilidade que a república se mostra incapaz de garantir quando qualquer eleição pode converter o Palácio de Belém num palco de humor que arrisca tornar-se perigoso. Enquanto na república se escolhe sempre alguém com algo a provar — seja por ambição, por ego ou, como neste caso, por sátira —, na monarquia o Chefe de Estado simplesmente representa o país de forma contínua, sem necessidade de cativar eleitores com absurdos.

Não que restaurar a monarquia seja processo simples. Há resistências ideológicas, entraves constitucionais e um hábito republicano já estabelecido. Mas há também um problema cada vez mais evidente: o regime actual já não consegue proteger a seriedade institucional que o cargo exige. A entrevista de Vieira funciona como um espelho cruel: se o país hoje pode ter um candidato presidencial cuja principal arma política é o humor, amanhã poderá ter um Presidente eleito da mesma escola — e aí já não haverá vinho nem Ferrari que disfarce o embaraço.

Com ou sem intenção, Manuel João Vieira prestou um grande serviço à discussão pública: ao ridicularizar o modelo presidencialista português, demonstrou o quão exposta está a república à banalização da autoridade do Estado. Lembrou-nos que, no actual sistema, a fronteira entre a política e o espectáculo é tão ténue que um passo em falso pode transformar o Chefe de Estado numa figura de riso nacional. E, convenhamos, quando a política se torna palhaçada, o país é que paga o bilhete da entrada.

Talvez esteja na hora de Portugal reflectir sobre que tipo de liderança quer no topo do Estado. Talvez devamos escolher entre o reinado da dignidade e o reinado do meme. E talvez a piada tenha chegado ao fim. Porque rir do Presidente é perigoso quando ele já nem precisa de estar lá para nos fazer rir.

 

António Filipe e a Mordaça Constitucional: A República que Nega a Democracia

José Aníbal Marinho Gomes, 17.11.25

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A recente entrevista do candidato presidencial António Filipe à SIC Notícias, na sua condição de "orgulhosamente de esquerda sem mas nem meio mas", expôs de modo lapidar as mais profundas contradições e fragilidades do regime republicano. O candidato, antigo deputado comunista, apresenta-se como o "último reduto" e "guardião último do regime democrático", em defesa dos ideais de Abril e da Constituição. A nobreza da intenção, contudo, é tragada pela fatalidade da sua escolha institucional: o ideário progressista de igualdade e justiça social que almeja jamais poderá ser plenamente concretizado sob a tutela de uma República viciada. O que o discurso do candidato expõe, involuntariamente, não é a força da República, mas a sua endémica debilidade.

António Filipe baseia a sua candidatura na necessidade de um Presidente da República que use os seus poderes para a "vigilância" e a "salvaguarda do funcionamento das instituições democráticas," vetando acções que considere regressivas. Aqui reside o erro fundamental de diagnóstico. A figura do Presidente eleito, por mais bem-intencionado, é um guardião de facto efémero e, por definição, partidário. Ao assumir-se como "orgulhosamente de esquerda," António Filipe consagra a politização do cargo. O seu "guardião" tem um lado, e a sua direcção é ideológica. Como poderá um chefe de Estado eleito por uma minoria ou coligação ser o símbolo imparcial da Nação inteira? A sua autoridade moral é limitada pelo mandato e pela sua génese facciosa. Mais grave ainda é o facto de, ao ser eleito para um mandato de cinco anos, o Presidente ser, por natureza, transitório. O "último reduto" é apenas uma trincheira temporária que, inevitávelmente, será entregue ao próximo vencedor eleitoral. A História de Portugal republicano é uma sucessão de ciclos viciosos, onde a ideologia no poder desfaz o que a anterior fizera.

A Monarquia Hereditária resolve esta contradição. O Rei não é eleito; a sua lealdade não é para com um partido ou uma facção, mas para com a Nação e a sua História. O Monarca, pela sua permanência e supra-partidarismo, é o único capaz de exercer uma verdadeira e incondicional vigilância sobre o Estado. A sua função não é a de um jogador, mas a de um árbitro imparcial, um verdadeiro "guardião" que não tem de se sujeitar aos cábulas eleitorais para sobreviver. A sua coroa é o símbolo da Continuidade Nacional, o único facto que transcende os governos.

Além disso, o candidato António Filipe assume a defesa da Constituição de Abril como o seu projecto maior. É neste ponto que a sua tese esbarra na tradição e na continuidade histórica portuguesa, e mais especificamente, na própria ilegitimidade imposta pelo actual regime. É crucial notar que a Constituição de 1976 não apenas consagra a República, como a blinda contra o que pode ser a vontade popular. O Artigo 288.º, alínea b), impede taxativamente que as leis de revisão constitucional alterem a forma republicana de governo. Esta limite material não só proíbe a restauração da Monarquia por via de revisão constitucional, como impede que o povo português seja consultado em referendo sobre a forma de Estado. Ou seja, o regime que António Filipe defende é o mesmo que nega aos cidadãos o direito democrático fundamental de escolherem, livremente, a chefia do seu Estado. Esta é a maior contradição da República, a negação da democracia em nome da sua própria permanência.

Assim, a Monarquia não é a negação dos valores sociais que a esquerda defende, mas o seu corolário mais estável. Os direitos e deveres sociais evoluíram sob séculos de realeza. Na República, a igualdade é uma promessa eleitoral constantemente adiada; na Monarquia, a igualdade perante a Lei é uma garantia histórica assegurada por um Chefe de Estado que, não dependendo de votos, não tem de ceder a interesses oligárquicos ou plutocráticos. A justiça social defendida por António Filipe exige estabilidade e direcção consistente. Ora, a República, com a sua instabilidade governativa e a permanente tensão eleitoral, consome a energia do País em contendas fúteis. O Monarca, pela sua estabilidade dinástica, liberta os governos (escolhidos no Parlamento) da necessidade de luta constante, permitindo-lhes focar-se, de facto, no bem-estar do Povo.

Em suma, a candidatura de António Filipe, ao invés de reforçar a República, sublinha a sua falência e a sua ilegitimidade na origem. O candidato procura salvar uma casa em ruínas com o seu próprio esforço ideológico, sem poder sequer questionar a estrutura fundamental dessa casa. Os valores que defende – o respeito pela Lei e a defesa dos mais fracos – seriam melhor servidos por um regime que eleva a chefia de Estado acima do pântano partidário e que permite a livre escolha do povo. Esse regime é a Monarquia.

A Contradição de Belém: Catarina Martins e o Mito da Neutralidade

José Aníbal Marinho Gomes, 16.11.25

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A entrevista de Catarina Martins à SIC-Notícias foi uma demonstração acabada daquilo que a República produz no seu estado mais pobre: um Chefe de Estado visto como agitador político, um presidente-activista ao serviço de uma facção ideológica.

Catarina Martins apresentou a sua candidatura repetindo que “é pessoal” e que quer “convergências”, “lugar para toda a gente”, “ponte entre caminhos políticos diferentes”. Mas não pode exigir que se acredite nessa narrativa quando continua eurodeputada do Bloco de Esquerda, com direito a todas as prerrogativas partidárias, orçamento, visibilidade institucional e máquina propagandística do partido. Não abdica de nada — apenas quer acumular tudo.

Faz carreira partidária de manhã em Bruxelas e promete neutralidade à noite na televisão. Esses dois planos não convivem. Só coexistem como contradição. O país conhece-a demasiado bem como militante bloquista — e ela sabe isso. Por isso insiste na ficção: repetir que algo é pessoal nunca fará desse algo independente.

Quando questionada sobre a luta política à esquerda, Catarina Martins volta a colocar-se como a porta-voz legítima do campo progressista: os outros “fazem jogos tácticos”, “desistem do país”, “deixam crescer a extrema-direita”. Ela, não. Ela é a “decência”, a “coragem”, a “democracia”. Quando uma candidata se veste de moral absoluta, está a dividir — mesmo quando proclama união.

E é aqui que a sua visão republicana se revela infantil, primária — não no sentido ofensivo, mas na sua falta de maturidade institucional. Ela acredita que a República existe para travar partidos com que discorda, para impor uma matriz ética sobre o Parlamento, para vigiar o Governo com punições políticas e, se necessário, bloquear maiorias legítimas. Aliás, afirma sem hesitações que “qualquer maioria possível trabalharei para que não inclua o Chega”, prometendo impedir um governo, ainda que resultante do voto popular.

Aqui está o problema central: A democracia, para Catarina Martins, é aceitável… desde que vote na esquerda. É a eterna tentação da República portuguesa: transformar Belém num bastião partidário.

É precisamente para evitar isto que, nas Monarquias Constitucionais modernas, o Chefe de Estado não pode ser parte das facções — porque representa a Nação inteira. A Monarquia diz: o poder político dispute-se nos partidos; a Chefia de Estado é o lugar da unidade, da história, da continuidade e da estabilidade.

Enquanto na República se pede ao Presidente para ser árbitro… depois de ter sido jogador. A Monarquia resolve o absurdo: O árbitro nasce árbitro.

A República portuguesa está viciada na personalização do poder — troca-se de Presidente, troca-se a moral. A cada eleição, uma nova “salvação”, uma nova “decência”, um novo “guardião”. Catarina Martins quer ser guardiã da Constituição… mas com alvos ideológicos específicos. O Presidente-activista é o pior dos mundos: legitima-se no voto e exerce influência como se fosse acima do voto.

Já um monarca constitucional não governa: vigia o funcionamento das instituições; não se candidata, não disputa poder contra ninguém, não precisa de derrotar adversários para ser símbolo nacional.

Numa República angustiada com crises cíclicas, dissoluções políticas e confrontos permanentes, o papel unificador do Chefe de Estado é vital — e, paradoxalmente, impossível de alcançar sob as regras da própria República, porque quem lá chega precisou dividir para vencer.

Na monarquia: Não há conversões forçadas à imparcialidade. Não há simulacros de independência partidária. Não há Presidente-militante. Há um símbolo estável e duradouro que não está sujeito à erosão moral dos ciclos eleitorais.

Catarina Martins é sincera ao afirmar que “Portugal não é um país do ódio, é um país da solidariedade e respeito”. Está correcta na frase — mas falha no entendimento institucional. O eleitorado precisa de uma Chefia de Estado que encarne essa ideia sem ter de a disputar. Que represente o País sem precisar de excluir quem vota diferente.

Se a República — como Catarina idealiza — depende sempre de uma presidência política para “defender a democracia”, então é um regime estruturalmente frágil. A Monarquia Constitucional oferece, pelo contrário, um regime em que a democracia parlamentar funciona sem um Presidente a fazer de tutor.

Catarina Martins quer “cuidar” do país. A intenção é nobre. Mas a história prova: os regimes que mais precisam de ser cuidados… são os mais fracos. E a República portuguesa já se mostrou incapaz de gerar estabilidade duradoura, unidade nacional ou confiança institucional.

Portugal não precisa de mais uma activista em Belém. Precisa de recuperar uma Chefia de Estado acima das partes, que una o que a política divide. Precisa de reencontrar a memória do que foi — e a segurança do que pode voltar a ser.

Precisa, enfim, de uma Monarquia Constitucional.

 

A entrevista de Jorge Pinto — a utopia da República e os limites da imaginação política

José Aníbal Marinho Gomes, 14.11.25

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Jorge Pinto, deputado do partido LIVRE e apoiado oficialmente pelo mesmo partido, apresentou-se na SIC como o rosto de uma mudança radical, alguém que declara querer libertar Portugal das estruturas partidárias e das convenções institucionais que, segundo ele, limitam a participação cidadã. Na entrevista conduzida por Ana Patrícia Carvalho, falou de igualdade, cidadania activa, poder popular e democracia directa — conceitos que soam progressistas, sedutores e em sintonia com a agenda ecologista a que se vincula. Porém, por mais nobres que sejam essas intenções, a chefia do Estado exige algo mais do que entusiasmo transformador: exige continuidade, autoridade moral e uma capacidade de representar o país para além de ciclos eleitorais, slogans ou euforias momentâneas.

O candidato propõe uma presidência próxima do cidadão comum, sem hierarquias nem formalismos. Essa ideia poderá parecer fresca e inclusiva, mas denuncia um desconhecimento profundo do que sustenta a estabilidade política. A horizontalidade absoluta que sugere implicaria um Presidente sujeito à pressão da emoção pública e à volatilidade do momento, sem o distanciamento institucional que garante ponderação e sobriedade. A República que idealiza dependeria da improvisação do presente, da boa vontade popular e de uma constante mobilização — um modelo que pode motivar, mas dificilmente sustenta o Estado quando surgem crises, conflitos sociais ou rupturas inesperadas.

Ao contrário disso, a Monarquia Constitucional — como a que Portugal conheceu e como existe ainda em várias democracias avançadas — demonstra que liberdade e participação podem florescer dentro de uma estrutura duradoura. A Monarquia mantém viva a memória e a continuidade das instituições, serve de símbolo de unidade nacional e representa moralmente o país para além das alternâncias partidárias. Não se trata de rejeitar evolução política, mas de garantir que a mudança não apaga as raízes que seguram o edifício institucional.

Jorge Pinto identifica, com razão, uma falha sentida do regime republicano contemporâneo: o afastamento crescente entre o poder político e a sociedade. Mas a sua solução — dispersão do poder, ausência de hierarquia e modelo inteiramente participativo — ignora que a ordem não é inimiga da liberdade. A História mostra justamente o contrário: quando tudo é volátil e improvisado, são os próprios cidadãos que perdem referências, e direitos tornam-se facilmente negociáveis. A Monarquia Constitucional oferece um equilíbrio essencial: inovação com estabilidade, participação com responsabilidade, mudança com memória. É uma estrutura que protege a democracia de si própria — dos seus excessos, dos seus entusiasmos descontrolados, das suas modas passageiras.

A crítica que faz aos partidos, à política tradicional e às elites instaladas é compreensível; e o seu compromisso ambiental e social deve ser reconhecido. Contudo, a construção de um Estado sério e duradouro não se faz apenas de intenções generosas, de urgências ecológicas ou de discursos motivacionais. Exige instituições sólidas, valores que atravessem gerações e líderes que compreendam que o papel do Presidente da República não é o de activista, mas o de garante — garante da continuidade e da integridade do Estado.

Jorge Pinto é expressão sintomática de uma crise republicana mais ampla: confunde participação com legitimidade, convoca a mudança como sinónimo automático de progresso, e acredita que entusiasmo basta para substituir gravidade institucional. A República que imagina é leve — demasiado leve para sustentar o peso de uma Nação. A Monarquia Constitucional, em contraste, garante precisamente o que ele ignora: um fio condutor entre passado, presente e futuro, onde liberdade, responsabilidade e tradição não se anulam, antes se equilibram e fortalecem mutuamente.

No final da entrevista, surge como um idealista vibrante, consciente de causas urgentes e animado por um profundo desejo de justiça social e ambiental. Mas permanece sem densidade institucional, sem o sentido de permanência que o cargo exige. Um homem de ideias, mas não ainda um homem de Estado. Um discurso cheio de impulso, mas carente de raiz. E Portugal, como a sua própria História atesta, precisa mais de raiz do que de impulso — mais de instituições estáveis do que de entusiasmos passageiros; mais de solidez do que de improviso.

A entrevista de João Cotrim de Figueiredo – o liberal que pediu ordem à desordem

José Aníbal Marinho Gomes, 12.11.25

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Há entrevistas que são um retrato fiel do entrevistado e outras que, sem querer, são um retrato do país. A de João Cotrim de Figueiredo à SIC, conduzida por Ana Patrícia Carvalho, foi as duas coisas. O antigo líder da Iniciativa Liberal falou com o rigor que lhe é próprio, com a calma de quem confunde serenidade com razão, e com a convicção de que a República pode ser reformada por dentro, como se a casa se pudesse arrumar sem tirar os alicerces. O resultado foi, portanto, uma conversa limpa, civilizada e lúcida — mas, como quase tudo o que é republicano, também um pouco ingénua.

Cotrim de Figueiredo acredita que basta vontade e competência para regenerar o Estado. Falou de transparência, de mérito, de liberdade, e de um país onde o cidadão é o centro da decisão. Tudo muito digno, e até nobre, não fosse o pequeno detalhe de estarmos num regime que trata a responsabilidade como uma abstração e a continuidade como um capricho. O liberalismo de Cotrim de Figueiredo é moralmente sério, mas estruturalmente ingénuo: quer instituições firmes numa ordem que vive de transições, quer estabilidade onde reina a alternância, e pede ao sufrágio a coerência que só a herança pode garantir.

Em vários momentos da entrevista, o candidato descreveu, sem o perceber, as virtudes de uma monarquia constitucional. Quando falou na necessidade de um chefe de Estado que não dependa de partidos, que se coloque acima da contenda política e que una o país sem o governar, falava, de facto, do que já tivemos — e perdemos. Portugal conheceu esse equilíbrio durante a monarquia constitucional: um rei que reinava, mas não governava; um poder moderador que garantia a continuidade e a dignidade das instituições, mesmo nos períodos de turbulência política. Foi essa ordem, construída lentamente ao longo do século XIX, que um golpe de Estado destruiu em 1910, precedido pelo crime político mais grave da nossa história — o regicídio de 1908, onde se matou não apenas um rei, mas a própria ideia de legitimidade. Desde então, a República tem tentado imitar, sem o conseguir, a estabilidade que nasceu dessa tradição.

Quando insistiu na importância de uma presidência de estabilidade e de princípios, descreveu precisamente aquilo que só a permanência dinástica podia assegurar. E quando evocou a ideia de uma “democracia adulta”, esqueceu-se de que a maturidade política de um povo não nasce do voto, mas da continuidade moral das suas instituições — aquela continuidade que a República, na sua ânsia de se afirmar moderna, trocou por um perpétuo ensaio de reinvenção.

O seu discurso, em tudo elegante e contido, teve momentos de verdadeira lucidez. Mas também alguns de uma certa secura liberal, onde o país real — o das pequenas esperanças, das hesitações, dos afetos — desaparecia atrás de gráficos e percentagens. Cotrim de Figueiredo tem o mérito de pensar o Estado como um engenheiro pensa uma ponte: quer solidez, eficiência e desenho limpo. Mas a política, sobretudo a presidencial, exige mais do que engenharia — exige alma. E a alma, ao contrário das pontes, não se calcula.

Ainda assim, há em Cotrim de Figueiredo um rigor que falta aos outros. Não houve na entrevista nem demagogia nem fingimento; apenas a convicção, talvez ingénua, de que a razão basta. E nisso, convenhamos, já é um avanço em relação à retórica inflamada de Ventura, à compostura performativa de Marques Mendes ou à exibição quase teatral de Gouveia e Melo — esse mesmo que, numa entrevista recente, achou graça a ironizar com os monárquicos, esquecendo que a coroa, mesmo ausente, pesa mais do que a farda. Cotrim de Figueiredo, pelo menos, respeita a gravidade das ideias.

Mas se o rigor o distingue desses, falta-lhe ainda a densidade que António José Seguro demonstrou — aquele raro sentido de Estado que não vem das sondagens, mas da consciência do cargo. Cotrim de Figueiredo é lúcido, mas não grave; preparado, mas não fundado. António José Seguro compreendeu a liturgia da presidência, Cotrim fala-lhe como se fosse um conselho de administração. Ambos são sérios, mas só um parece compreender o peso simbólico do poder.

O problema é que o país que o ouve já não acredita na gravidade de nada. Vive de promessas de mudança e desconfia da estabilidade como se fosse um vício. Por isso, o liberal que pede ordem à desordem acaba inevitavelmente a parecer um estrangeiro no próprio regime. A sua visão é a de quem quer dar à República a dignidade que ela não tem — e, paradoxalmente, é isso que o aproxima da tradição monárquica, sem nunca o admitir.

No fim, ficou uma impressão curiosa: a de um homem que quer restaurar o Estado, mas sem restaurar a ideia. Que fala de liberdade com sinceridade, mas esquece que a liberdade sem continuidade é apenas instinto. Que quer moralidade sem hierarquia, dever sem tradição, permanência sem tempo. Um idealista, portanto — e dos raros.

Talvez seja esse o destino dos melhores republicanos: descobrir, sem o admitir, que a verdadeira liberdade é filha da continuidade. Cotrim de Figueiredo parece querer salvar a República de si mesma — e, nesse gesto, acaba por lembrar que só há futuro quando há herança.

Ventura e os Três Salazares: Uma República de Fantasmas

José Aníbal Marinho Gomes, 27.10.25

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A entrevista de André Ventura a Clara de Sousa, transmitida na SIC, foi um curioso retrato daquilo em que a política portuguesa se tornou: um palco de afirmações inflamadas, desprovidas de substância histórica e mergulhadas num sentimentalismo autoritário mal disfarçado de patriotismo. Ventura, que se apresenta como defensor de uma ordem perdida, acabou por revelar, uma vez mais, que não compreende o significado da palavra ordem — nem no sentido moral, nem no institucional.

Quando, com ar grave, declarou que “não era preciso um Salazar, eram precisos três Salazares para pôr isto na ordem”, o país inteiro ouviu um eco distante de tempos sombrios. Mas o mais inquietante é que o próprio Ventura, que se diz “democrata”, parece ignorar que o salazarismo foi precisamente o regime que desfez a última esperança de restauração monárquica em Portugal. É uma ironia que um homem que se proclama defensor da “tradição” invoque o nome daquele que fez da República uma prisão dourada para os monárquicos — e que, diferentemente de Franco em Espanha, nunca quis que o Rei regressasse.

Salazar, com a sua frieza de economista e a sua prudência de seminarista, compreendeu que um Rei seria, por natureza, um poder mais legítimo do que ele próprio. Por isso, manteve o trono vazio, mas sob vigilância, como quem guarda uma relíquia perigosa. Franco, pelo contrário, preparou a restauração, educou o Príncipe e restituiu à Espanha a continuidade dinástica. Em Portugal, o Estado Novo acabou por trair a confiança dos monárquicos que, nas primeiras décadas do século XX, haviam visto em Salazar um possível restaurador. Mas o ditador nunca quis Rei: quis apenas silêncio. E esse silêncio custou a Portugal a sua continuidade histórica.

Enquanto em Espanha a prudência de Franco preparava o regresso da Coroa, em Portugal a obstinação de Salazar cavava um fosso entre o Estado e a História. O resultado foi um país órfão da sua tradição, habituado à obediência, mas incapaz de reverência — uma diferença que Ventura, com o seu autoritarismo ruidoso, parece também incapaz de compreender.

Durante a entrevista, Clara de Sousa, com a serenidade que o jornalismo exige, tentou por diversas vezes arrancar de Ventura uma resposta clara quanto ao papel que pretende desempenhar caso venha a ser eleito Presidente da República. O resultado foi um exercício de contorcionismo político: ora falava como chefe de governo, ora como líder partidário, ora como árbitro nacional — confundindo constantemente as funções de Presidente com as de Primeiro-Ministro. Disse querer “pôr o país na ordem”, “fazer reformas”, “mudar o sistema”, e “impor autoridade” — tarefas que pertencem, por essência, ao Governo, não à chefia de Estado.

Ora, um verdadeiro Chefe de Estado — e aqui falo como monárquico — não governa: reina. Representa, acima das facções e das querelas, a unidade da Nação. É o símbolo da continuidade, não o gestor das circunstâncias. Ventura, pelo contrário, quer ser tudo: Rei sem coroa, Primeiro-Ministro sem Parlamento, e Presidente sem República. A sua ambição parece mais próxima do caudilhismo ibérico do que da sobriedade régia portuguesa.

Talvez o mais revelador momento da entrevista tenha sido quando, questionado sobre o 25 de Abril, se demarcou da Revolução e disse que “não celebrará o regime que destruiu a autoridade em Portugal”. É curioso ouvir isto de alguém que se candidata à Presidência da República — isto é, à mais alta magistratura do regime nascido precisamente desse 25 de Abril. O que Ventura quer, ao que tudo indica, é usufruir das instituições republicanas sem aceitá-las. É como quem entra num mosteiro para pregar contra Deus.

Mas a incoerência maior não está apenas nas palavras, está no espírito. Um Rei, mesmo num sistema constitucional, sabe que o seu dever é ser o pai de todos os seus súbditos — dos que o amam e dos que o detestam. Ventura, em contrapartida, não quer ser o Presidente de todos os portugueses; quer ser o comandante dos seus. Divide o país entre “bons” e “maus”, “patriotas” e “traidores”, “puros” e “corruptos” — uma velha táctica dos aprendizes de tirano. Onde um Rei procura conciliar, Ventura procura combater; onde um Rei simboliza a continuidade, ele encarna a ruptura; onde um Rei reina com discrição, ele agita com estrépito.

Clara de Sousa, talvez consciente deste paradoxo, tentou expô-lo com subtileza. Perguntou-lhe, por exemplo, se acreditava que a força resolveria os problemas de Portugal. Ventura respondeu com aquele sorriso estudado que já se tornou o seu emblema mediático: “Não é força, é autoridade.” Mas a diferença entre ambas é apenas semântica quando dita por quem sonha com “três Salazares”. E assim, a entrevista transformou-se num espelho da República actual: um espaço onde o populismo confunde vigor com virtude, e onde a retórica da “ordem” mascara o vazio de ideias.

Os monárquicos, que há muito aprenderam a distinguir autoridade de autoritarismo, não podem deixar de ver nesta retórica um eco de tragédias passadas. Salazar prometeu estabilidade e entregou estagnação; prometeu moralidade e deixou um país miserável, amputado de futuro e de esperança. Ventura repete as promessas, mas ignora as consequências. E se Salazar, com toda a sua inteligência e frieza, soube manipular os símbolos nacionais, Ventura limita-se a usá-los como adereços de campanha.

No fim da entrevista, ficou claro que André Ventura não deseja reformar o regime, mas substituí-lo por uma caricatura de si mesmo. A sua “República de três Salazares” é o espelho distorcido de um país cansado, que já não acredita nem na República nem, lamentavelmente, na Democracia — valores que, bem entendidos, nunca foram incompatíveis com a ideia monárquica —, mas que também esqueceu a serenidade que só uma Monarquia pode oferece.

E é talvez esse o maior drama: Portugal é hoje um reino sem Rei e uma República sem rumo. Ventura, com o seu tom inflamado e o seu olhar justiceiro, não é a solução — é apenas o sintoma. E enquanto a política continuar a produzir fantasmas em vez de estadistas, a nossa velha Pátria continuará à procura de si mesma, perdida entre o eco de um ditador e a sombra de um trono vazio.

A entrevista de António José Seguro: isenção proclamada e a ausência do Rei

José Aníbal Marinho Gomes, 25.10.25

Esta segunda-feira, António José Seguro concedeu uma longa entrevista à jornalista a Clara de Sousa. Foi uma conversa pausada, mais sóbria e menos emotiva do que as de outros candidatos, marcada pela tentativa constante de afirmar uma imagem de equilíbrio e de suprapartidarismo. Seguro quis apresentar-se como um homem acima dos partidos, um candidato de todos os portugueses, e não apenas do Partido Socialista de onde provém.

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Como monárquico, observo estas entrevistas com um distanciamento peculiar. Não voto nas presidenciais, pois considero que a figura de Chefe de Estado, em Portugal, não pode ser plenamente representada por um Presidente eleito, sujeito a campanhas, alianças e cálculos políticos. O verdadeiro Chefe de Estado é o Rei — símbolo da continuidade nacional e garante da unidade. Ainda assim, é sempre útil ver de que modo cada candidato entende o exercício do cargo, o peso da História e a sua relação com os símbolos do País.

A entrevista de António José Seguro revelou um candidato mais articulado do que Henrique Gouveia e Melo e mais ponderado do que Luís Marques Mendes. Mostrou domínio dos temas e serenidade institucional. Porém, do ponto de vista monárquico, há um vazio de fundo que não pode passar despercebido: nem uma única vez foi mencionada a monarquia, e Seguro não se antecipou ao silêncio da entrevistadora para o fazer. Logo no início, insistiu na sua isenção, afirmando que a sua candidatura é suprapartidária e que pretende ser o Presidente de todos os portugueses. A frase soa bem, mas é uma daquelas declarações que, ditas com convicção, escondem uma impossibilidade prática. A isenção plena não se proclama — encarna-se. E só o Rei a encarna verdadeiramente.

Um Presidente, por mais íntegro e bem-intencionado que seja, é produto do sistema eleitoral e dos partidos que o sustentam. Um Rei, pelo contrário, não deve a sua posição a ninguém, e é justamente por isso que pode representar todos. A neutralidade real não depende de votos nem de mandatos. É anterior à política, e por isso mesmo está acima dela. Ao contrário do que sucedeu nas entrevistas de Gouveia e Melo e de Marques Mendes — em que, ainda que apenas no final, foi tocada a questão monárquica —, Seguro deixou o tema completamente de fora. Clara de Sousa não o introduziu, e o candidato não aproveitou a oportunidade para o fazer. Poderia ter dito algo de tão simples quanto:

«Serei Presidente de todos os portugueses, dos monárquicos e dos republicanos.»

Mas não o fez.

Essa ausência é reveladora. Denota uma visão restrita da Chefia de Estado — limitada à função política e administrativa, sem sensibilidade para a dimensão simbólica da Nação. Um candidato verdadeiramente consciente da história portuguesa reconheceria que a monarquia continua a representar, para muitos, o arquétipo da imparcialidade e da continuidade do Estado. Ao omitir completamente esse universo, Seguro confirma-se como produto integral da república: um homem de instituições, mas sem ligação à raiz simbólica do poder.

No plano temático, a entrevista decorreu de modo previsível. Seguro falou sobre imigração, afirmando ser fundamental disciplinar a imigração para que o país cresça economicamente; abordou a aplicação da Constituição, sublinhando que não há portugueses de primeira nem de segunda e que não tenciona ser apenas um notário, prometendo fazer perguntas e exigências. Falou ainda da necessidade de reformas e de criação de riqueza — «não podemos andar a brincar aos governos» — e rematou com uma nota pessoal: «Podia ficar sentado no sofá a gozar a praia da Foz do Arelho ou as minhas vinhas em Penamacor, mas julgo poder dar um contributo ao país. Sinto-me uma pessoa abençoada.»

São declarações de alguém que procura equilíbrio e autoridade. Contudo, falta-lhes elevação. Tudo é dito no registo da gestão e da funcionalidade, sem transcendência. Fala-se da Constituição, mas não da História; da governação, mas não da Pátria. Nenhuma palavra sobre a ideia de Nação, sobre os símbolos que unem o povo para além da política. Um Rei, se falasse, não precisaria de prometer isenção — representá-la-ia naturalmente.

Comparado com outros candidatos, Seguro surge mais sereno e institucional. Gouveia e Melo revelou-se mais emocional e menos preparado; Marques Mendes, embora experiente, preferiu a prudência calculada, o discurso neutro, quase burocrático. Seguro, entre ambos, destaca-se pela coerência e pelo domínio da linguagem institucional. Mas, como todos, permanece prisioneiro da limitação republicana: pode desejar representar todos os portugueses, mas não consegue encarnar a neutralidade que só o Rei possui.

Convém recordar, a este propósito, que a monarquia não é uma recordação pitoresca, nem um capricho sentimental. É uma forma histórica de continuidade. Durante séculos, os Reis de Portugal foram a encarnação da unidade nacional e da estabilidade política. D. João IV restaurou a independência; D. Pedro V simbolizou a modernidade e o dever cívico; D. Carlos manteve o sentido de Estado num tempo de crise. Mesmo no exílio, a Casa Real continuou a representar uma ligação viva entre o passado e o futuro do País.

A república, pelo contrário, substituiu a legitimidade histórica por uma legitimidade eleitoral, sempre efémera e sujeita à erosão dos partidos. O Rei não é eleito, não governa, não precisa de agradar — representa. A sua autoridade não vem de uma maioria momentânea, mas da própria continuidade da Nação. Seguro, que gosta de falar em isenção, poderia ter reconhecido esta diferença simbólica, sem pôr em causa o regime. Bastar-lhe-ia ter admitido que a Chefia de Estado deve ser de todos — inclusive dos monárquicos. Não o fez. E o seu silêncio não é inocente: revela a incapacidade da república em reconhecer a dimensão espiritual e histórica da Nação que pretende representar.

As entrevistas desta campanha têm mostrado, uma vez mais, a fragilidade da concepção republicana do poder. O Presidente é, inevitavelmente, um homem do seu tempo, das suas alianças, dos seus compromissos. A figura do Rei, ao contrário, é a permanência da Pátria no tempo. Representa a continuidade que nenhum sufrágio pode garantir. Seguro fala de neutralidade, mas a sua neutralidade é prometida, não vivida. A do Rei é natural e silenciosa, porque não precisa de se justificar. É a neutralidade que vem da linhagem, da tradição e do dever. É, em suma, o contrário da política.

A entrevista de António José Seguro foi sólida, ponderada e tecnicamente competente. Mas, vista de uma perspectiva monárquica, ficou aquém da verdadeira ideia de Chefia de Estado. Faltou-lhe verticalidade, consciência histórica e sentido simbólico. Falou-se de Portugal, mas não da Nação; falou-se de governo, mas não de realeza. Seguro esteve bem enquanto candidato — mas o trono da imparcialidade continua vazio.

Apresentação da minha Candidatura à Assembleia Municipal de Ponte de Lima

José Aníbal Marinho Gomes, 10.10.25

Sou natural de Ponte de Lima e residente na freguesia de Arcozelo. Nasci em 1960, sou casado e pai de três filhos. Licenciei-me em Ciência Política e Relações Internacionais e possuo também o Curso Superior de Ciências Administrativas.

Exerço actualmente funções na área de Gestão de Reclamações e Relações Internacionais na empresa Painhas S.A. Ao longo da minha carreira, acumulei experiência significativa em coordenação administrativa, gestão de equipas, formação e execução de projectos em diversos sectores. Desempenhei funções como Coordenador-Geral do Núcleo Administrativo e de Pessoal na Switch On – Academia de Formação, onde também lecionei em cursos de aprendizagem de nível IV, de Dupla Certificação e equivalência ao 12.º ano. Fui igualmente Director-Geral na Estação Shopping Imobiliária (actual PA Parques), sendo ambas as empresas pertencentes ao Grupo Painhas. Em todas estas funções, mantive sempre o enfoque na eficiência, no planeamento estratégico e na promoção da qualidade dos serviços prestados

Para além da actividade profissional, participei activamente em organizações cívicas e culturais. Fui Vice-Presidente da Comissão Executiva da Direcção Nacional na Causa Real e Presidente da Direcção da Real Associação de Viana do Castelo, assumindo responsabilidades de liderança e coordenação em projectos de carácter associativo e cultural.

Tenho uma ligação profunda à cultura e história do nosso concelho, participando activamente em associações culturais e cívicas. Entre outras funções, sou Secretário da Direcção da Associação de Escritores, Jornalistas e Produtores Culturais de Ponte de Lima e membro fundador do Instituto Limiano-Museu dos Terceiros, sou Presidente da Direcção da Real Associação de Viana do Castelo e fui também membro fundador da Causa Real, onde desempenhei funções de Vice-Presidente da Direcção Nacional até Maio de 2025.

Paralelamente, dedico-me à investigação académica e cultural nas áreas da história e da genealogia, com várias publicações e colaborações especializadas. Publico igualmente artigos de opinião a nível nacional no portal SAPO. Sou também o autor da iniciativa que deu origem ao Prémio Gonçalo Ribeiro Telles de Arquitectura e Paisagem, distinguindo projectos de valorização da paisagem, do ordenamento do território e da identidade cultural. Integro ainda diversas instituições ligadas à história e genealogia em Portugal e no Brasil.

Desde cedo defendi uma visão de desenvolvimento sustentado para Ponte de Lima, valorizando a harmonia entre o espaço urbano e o património natural e agrícola. Já em 1985, fui eleito para a Assembleia Municipal como independente nas listas do Partido Socialista, sendo então militante do Partido Popular Monárquico, numa candidatura que integrava também um grupo de jovens ecologistas. O PS concedeu total autonomia política a esse grupo, que apresentou um programa próprio, intitulado “O Homem no Centro da Mudança”, assente numa visão inovadora para o concelho. Entre as propostas desse programa destacavam-se a criação de uma Reserva Ecológica na Lagoa de Bertiandos, a preservação das quintas e conjuntos rurais no espaço urbano e a implementação das hortas sociais — hoje conhecidas como hortas urbanas —, que visavam promover a sustentabilidade, a agricultura de proximidade e o convívio intergeracional. Contudo, essa proposta visionária não foi então acolhida nem implementada pelos responsáveis municipais da época, que não souberam reconhecer o seu valor social e ambiental. Ironia do destino, vinte e quatro anos depois, foi precisamente o partido que governa o Município desde 1976 — há já quarenta e nove anos — a criar as hortas urbanas, confirmando a relevância e a actualidade de uma ideia que, décadas antes, tinha sido injustamente desvalorizada.

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Aceitei o convite do PSD para integrar a lista à Assembleia Municipal na qualidade de cidadão independente por acreditar nas pessoas que a compõem e na sua capacidade de trabalhar em prol de Ponte de Lima, preservando a minha liberdade de pensamento.

Tenho orgulho em partilhar este projecto com uma equipa plural, formada por cidadãos de diferentes gerações e percursos profissionais, unidos por um mesmo propósito: servir o concelho com dedicação, competência e sentido de responsabilidade. São pessoas profundamente ligadas às suas freguesias, conhecedoras da realidade limiana e movidas por um genuíno espírito de serviço público. É essa diversidade de experiências e de visões que enriquece o nosso trabalho colectivo e reforça a confiança de que juntos poderemos contribuir para um futuro melhor para Ponte de Lima.

As minhas prioridades centram-se na defesa do ambiente, valorização da cultura e do património, promoção da sustentabilidade e melhoria da qualidade de vida em Ponte de Lima. Comprometo-me a ouvir os cidadãos, a trabalhar com dedicação e a garantir que as decisões da Assembleia Municipal refletem os interesses da comunidade, promovendo um concelho mais sustentável, culturalmente rico e inclusivo.

O meu compromisso: trazer experiência, conhecimento e empenho pessoal para transformar ideias em políticas concretas que beneficiem todos os limianos.

As minhas propostas podem ser lidas aqui: https://risco-continuo.blogs.sapo.pt/ponte-de-lima-sustentabilidade-e-625701

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