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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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Estrada dos bravos, blog dos livres

13
Mar09

Os Velhos

Ana Vidal

 

Cuidado! Nunca diga "velho", referindo-se a alguém! A palavra foi pura e simplesmente abolida em Portugal, por insultuosa e depreciativa.

Mas porque será que isto aconteceu??? Em todas as civilizações dignas desse nome, "velho" sempre significou sábio, mestre, alguém a quem a experiência foi revelando os insondáveis e misteriosos segredos da vida!....

Os druidas eram velhos mágicos, possuidores de conhecimentos poderosos; entre muitas tribos primitivas, e ainda hoje, a autoridade do "velho feiticeiro" é incontestada, e o "Conselho dos Velhos" um órgão essencial de consulta nas grandes decisões. Porque eles são os grandes detentores da sabedoria e serenidade que só a idade - e o tempo - podem dar.

 

Não pretendo analisar (e muito menos psicanalisar) o problema de ser-se ou não velho, do quanto e do como e do porquê. Disso se ocuparam e ocupam muitos filósofos, poetas e cientistas, velhos e novos. Nem sequer vou alongar-me sobre o que significa ser-se velho em Portugal (para a compreensão e possíveis soluções desse fenómeno, aconselho a leitura da genial crónica de Miguel Esteves Cardoso "A mocidade portuguesa" – incluída no livro Os meus problemas).

Reduzo, assim, o meu protesto à utilização da palavra "velho" em si mesma, à nossa recusa incompreensível em pronunciá-la quando se trata de aplicá-la a gente. E porquê? Bem, porque me parece que a causa é muito mais grave do que a má relação que temos com a nossa idade.

O mistério explica-se, quanto a mim, num contexto mais abrangente - o facto de estarmos a cair cada vez mais num pretensiosismo linguístico introduzido à socapa pelas novíssimas forças do poder, que decidiram,  não sei porque razões, criar uma nova língua portuguesa. E não creio que tenha nada que ver com acordos ortográficos, ou outros. É apenas um código estranho, um vírus, uma espécie de mecanização da linguagem.

Para se ser deputado, hoje em dia (ou deveria dizer "na actual conjuntura"?), deve ter de se fazer um 13º ano secreto. Ou uma PGA especial (como a própria sigla indica, apenas acessível a futuros Políticos, Gestores e Afins) em que o tema único é a nova terminologia, sem a qual não poderá abrir o bico em assembleias, gabinetes e secretarias. Se não, como se explica que todos se exprimam, com a maior das facilidades, no mesmo dialecto estranho, pelo menos para os pacóvios que ainda falam português?

O mais grave é que esses pacóvios começam a sentir-se pouco à vontade, quase ignorantes. E a coisa vai-se tornando contagiosa.

Quem ousa ainda dizer três palavras sem as sublinhar com um brilhante "efectivamente"?

Quem se atreve a "achar" seja o que for sem primeiro declarar que "é minha convicção"?

Quem não cora de vergonha ao dizer coisas como "hoje em dia", "o resultado", "falar com" ou "perceber", por não saber ainda que agora se diz, respectivamente, "na actual conjuntura", "o compto", "contactar" e "descodificar"?

Há alguém que pense seriamente nalgum assunto sem primeiro o ter "perspectivado"?

E por aí fora. Por incrível que pareça, já ouvi numa reunião de negócios a palavra "curtocircuitar". É claro que entrei em curto-circuito.

 

E é neste panorama que se situam as palavras proibidas. "Velhos" é uma delas. Porque os pacóvios mais velhos podem sentir-se ofendidos, e ainda votam...

Dizer "idosos" ainda passa. Pelo menos, é um sinónimo. Mas "os pertencentes à terceira idade" (como se a terceira idade fosse um partido...)? E que tal "os grandes dependentes", como li outro dia num jornal qualquer, a propósito dos velhos internados em hospitais? Porquê "grandes", coitados? Será que os que ainda andam são "os pequenos dependentes", ou "os dependentesinhos"?

Atinge-se o paradoxo ridículo de chamar-lhes "menos jovens". Como se, numa suprema arrogância, apenas se considerasse admissível ser-se jovem, condescendendo, quando muito, em aceitar que o sejamos em maior ou menor grau.

 

Na lista negra das palavras proibidas, há outra que tem sido alvo dos mesmos infelizes malabarismos, e pelas mesmíssimas razões: a palavra "preto" (de novo quando aplicada a gente).

Diz-se "negro" ou "de cor", mas nunca "preto".

De uma cor ou de outra não somos todos nós? Chegaremos um dia ao ponto de nos referirmos a gente de outras etnias como "os menos brancos", revelando de vez - mas com todo o respeito! - como bons racistas que naturalmente somos, a nossa total incapacidade em aceitar a diferença? É que, se o fizermos, teremos de achar natural sermos também classificados por outros de "os menos pretos" ou "os menos amarelos"...

 

A verdade é que, na absurda aflição de não insultar um ovo chamando-lhe ovo, acabamos por chamar-lhe espeto.

 

(texto reeditado)

 

08
Mar09

Dia de... quem?

Ana Vidal

 

Já o disse várias vezes - embirro solenemente com esta moda dos "dias de". Mas com o de hoje, confesso, embirro mais ainda.

Não me interessa se se aproveita a data para chamar a atenção para os problemas do universo feminino, que continuam a ser muitos e graves, infelizmente. Lamento é que as mulheres se agarrem a esta migalha patética para fazer valer os seus direitos e ouvir a sua voz, não percebendo que o seu "dia de" as remete para o eterno guetto do costume: o de uma estranha população incómoda, barulhenta e histérica, que no passado perdeu muitas vezes a razão pelos excessos e que se agiganta agora em todas as frentes, ameaçadora. É ridículo que haja um "dia da mulher", pela simples razão de que essa inocente (?) intenção converte todos os outros em "dias do homem". O "dia da mulher"  é apenas mais um presente envenenado, tal  como as quotas, por exemplo.


Todos os dias são, afinal, das mulheres e dos homens, construindo pontes e derrubando barreiras sem espavento mediático, talvez, mas com muito mais eficácia. Dando uso às emoções mas também à inteligência, que é para isso que serve o cérebro que todos temos, homens ou mulheres. Por isso, este dia especial não faz o menor sentido para mim. Mais: é um insulto.

 

(Imagem - Chema Madoz)

 

28
Fev09

Conservado em álcool?

Ana Vidal

 

As duas mil garrafas de champanhe francês encomendadas por Mugabe para as celebrações do seu 85º aniversário (só uma das muitas extravagâncias desta festa imoral), num país que morre de cólera por escassez absoluta de água, lembram-me, de imediato, a tristemente célebre frase de Maria Antonieta: "Il n'y a pas du pain? Qu'ils mangent de la brioche!"

 

Já agora, porque será que estes facínoras têm, quase sempre, uma longevidade impressionante?

 

(Na imagem, um pormenor da modesta casinha de Mugabe)

 

16
Fev09

Carnaval na Venezuela

Ana Vidal

 

Na Venezuela, o Carnaval chegou mais cedo. A ditadura mascarou-se de democracia, o povo mascarou-se de massa com vontade própria, a indução explícita mascarou-se de referendo, a ignorância mascarou-se de liberdade. Enfim, Hugo Chávez mascarou-se de imperador  romano, num absurdo Carnaval que começa agora e não terá fim. A não ser numa qualquer quarta-feira de cinzas, um dia, com muitas cinzas.

 

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