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Risco Contínuo

Estrada dos bravos, blog dos livres

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02
Dez08

O que o governo fez por si (antes da crise)

José Mendonça da Cruz

     Muito antes da crise financeira e económica, o fosso de rendimentos entre os 20% de portugueses mais ricos e os 20% mais pobres era um dos dois piores dos 27 países da União Europeia, sendo o rendimento dos primeiros 6,8 vezes superior ao dos segundos. Só a Letónia faz pior.

     Foi em 2006 que a taxa de desemprego em Portugal ultrapassou a média da UE, estando agora perto dos 8%.

     O défice da nossa balança corrente, que era de 0,1% em 1995, começou a agravar-se e atingiu uns exorbitantes 10,2% em 2000, sob Guterres; mantém-se, desde antes do deflagrar da crise e sob a batuta Sócrates, acima dos 9%, ou seja, todos os anos nos vimos endividando para pagar 9% do que gastamos.

     Desde 2004, desde bem antes da crise, que Portugal vem caindo no ranking de competitividade do Institute for Management Development, de 36º, para 37º para 39º ( e 19º entre os 24 países da UE analisados).

     Entre 1996 e 2006, vinha distante a crise, as exportações portuguesas cresceram cerca de 6%. As exportações da Hungria cresceram 19%; as da Eslováquia, 18%; as da Polónia, 17%; as da República Checa, 16%.

     O rendimento per capita português (corrigido em termos de paridade de poder de compra) era de 84,2% da média da UE 27 em 1999. Era de 72,8% em 2008. Fomos ultrapassados, bem antes da crise, em 2003, por Malta e Eslovénia; em 2004, pela República Checa; pela Estónia, este ano. Somos agora 20º entre 27, e a cair.

    A carga fiscal sobre os portugueses (soma da taxa máxima de IRS + taxa standard de IRC + taxa standard de IVA + contribuições para a segurança social de empregadores e empregados) ultrapassou em 2005 a média da UE e manteve-se muito acima com os aumentos de todos os 9 impostos desde Fevereiro de 2005. A carga fiscal portuguesa é de 123 pontos hoje, contra os 116 da média da UE27 e, pior, contra os 102 pontos dos nossos mais directos concorrentes, os 12 países que aderiram em 2004 e 2007.

     O défice público ficou, em 2007, em 2,6% do PIB, mas a despesa pública cresceu e situou-se, antes da crise, nuns asfixiantes 45,7% do PIB. Será de 47,7% em 2009, segundo as fantasias do OE, ou na realidade pior. Como, ainda, o défice foi corrigido só com mais receita fiscal, estamos sempre em risco de regredir.

        A paixão da educação de Guterres e as grandes reformas de Sócrates não impediram um abandono escolar de 36,3% em 2007, um ano pré-crise, contra os 15% da UE.

     A dívida externa em relação ao PIB estava, antes da crise, perto dos 90%, e vinha subindo 10% ao ano. Em breve deveremos toda a riqueza produzida num ano. E só os juros dessa dívida equivalem a 6% do PIB.

     Eis o que dá novo e revigorado sentido às declarações do primeiro-ministro sobre as más previsões da OCDE : «Com a situação dos outros podemos nós bem.» Ninguém o diria melhor.

 

(FONTES: INE, EUROSTAT, RELATÓRIO DA OCDE, PORTUGAL REVIEW DA OCDE, ARTIGO DE MIGUEL FRASQUILHO IN IPRIS, INDEX DO IMD)

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